I PARTE

IMPULSÕES IGUALITÁRIAS DE INTEGRAÇÃO RACIAL
 
ASCENSÃO SOCIAL DO NEGRO

AS TÉCNICAS DE ASCENSÃO

Vamos observar que não bastava apenas ser estimulado a subir socialmente. Havia também a necessidade de aprender as técnicas sociais, pré-requisitos da mutação almejada.

Uma das primeiras técnicas manipuladas pelo negro foi o trabalho. Pelo trabalho, o negro procurou se redimir do seu passado e impor-se à ordem social vigente. Essa técnica, ele a copiou dos imigrantes que começavam ombro a ombro com ele, partilhando as mesmas dificuldades, as mesmas condições ínfimas de existência, trabalhavam arduamente e se alçavam a níveis mais altos.

O negro começou também a valorizar a educação como via de classificação social e instrumento de abolição de diferenças sociais. Serafim da Silva Neto mostra isso em seu livro:

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 Falar como branco deve ter sido a preocupação constante de todos aqueles que procuravam ascender às classes sociais mais elevadas.
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  Foi a ação da escola, aliada, é certo, a outros fatores, que propiciou a elevação da cultura das classes médias e inferiores da população.
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Alguns achavam que de nada adiantava estudar, mas outros lutavam por dar aos filhos as condições culturais necessárias à futura ascensão.

Outras técnicas importantes foram: a) a formação do hábito de poupança; b) a identificação com o branco e seus valores sociais; c) a cooperação com o branco; e d) o casamento inter-racial.

Adquirindo o hábito de poupança, o negro pôde adquirir certos bens econômicos, e até se tornar comprador de força de trabalho. Seus filhos puderam ter uma educação mais esmerada e, conseqüentemente, mais condições de ascender na escala social.

A identificação com os valores sociais do branco levou o negro a adotar hábitos sociais morigerados. Muitos se afastam dos ambientes não-condizentes com a condição social pretendida ou adquirida, mesmo à custa da perda de amigos e quebra das relações familiares. Esta diferenciação interna do meio negro é a primeira característica de melhoramento da raça e é quase uma condição sine que non da consolidação do status adquirido. O caráter negativo dessa diferenciação se manifesta, quando dá ocasião ao preconceito do negro contra o negro. Muitos negros de elite passam a desprezar o negro pobre e a evitá-lo sistematicamente. Alguns sociólogos chamam a isso ideal de branqueamento. O negro acostumado com a identificação da cor negra com a posição subalterna, tende a assimilar os valores da raça dominante, numa tentativa de tornar irrelevante o elemento cor na concepção racial do branco.

O autor do presente trabalho tem um conhecimento de primeira mão acerca de um fato muito ilustrativo, no que concerne ao ideal negro de branqueamento. Certo médico negro, chefe administrativo de um núcleo hospitalar, tinha sob sua chefia vários médicos, todos brancos. Um dia, sem nenhuma provocação de fundo preconceituoso da parte de um subordinado, pergunta com sarcasmo: “Escute aqui. Sou médico, advogado e tenho o meu diploma de Ciências Econômicas. Sou branco ou não sou?”.

Muitos negros descobrem que,  cooperando com os brancos, terão mais facilidade para ascender socialmente. A atitude de bajulação vai gerar mais tarde sentimentos de revolta no meio negro, e as associações negras vão combatê-la. A elite negra tomará posição contra essa subserviência, por considerá-la atentatória à ideologia de igualdade racial e um elemento prejudicial à situação social do negro que subiu pelo seu próprio valor.

Outras técnicas que se tornarão antipáticas no meio negro são o casamento inter-racial e a ostentação de prestígio econômico. Mas para o negro que sobe, estes são mecanismos quase indispensáveis à ascensão a curto prazo. No casamento inter-racial, o cônjuge que se beneficia é o negro, que usa o outro como um passe livre. O casamento é, neste, uma complementação das condições sócio-econômicas e sócio-culturais para ascensão social mais rápida.

Da mesma forma, com a ostentação da sua ótima condição econômica, indicada pelo automóvel, casa própria, empregados domésticos (principalmente brancos), o negro procura impressionar a sociedade e a população branca. Muitas vezes, a ostentação de riqueza se faz acompanhar de ostentação de autoridade. O negro que dirige ou comanda tenderá a tornar bem óbvia sua ascendência social sobre os subordinados brancos. As pechas de preto besta, preto orgulhoso “que pensa que tem o rei na barriga”,  se fazem então constantes, e partem tanto do meio branco quanto do meio negro.

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