I PARTE

REAÇÕES SOCIETÁRIAS À ASCENSÃO SOCIAL DO NEGRO

PRECONCEITO, DISCRIMINAÇÃO E AVALIAÇÕES NEGATIVAS

O Preconceito nem sempre se manifesta de modo evidente. Ele é tão bem disfarçado, que sua existência passa despercebida na vigência de uma amizade, até que um pequeno incidente o desencadeie. A charge acima foi publicada no jornal O Pasquim, de Set 79, para ilustrar o debate entre integrantes do Movimento Negro Unificado e do Instituto de Pesquisa da Cultura Negra, sobre o preconceito racial.


O preconceito é um dilema que tem origem nas resistências patentes ou dissimuladas, porém sempre fortes, à aceitação do negro. Ele concorre para conservar a distância secular entre os dois estoques raciais e deter a ameaça da ascensão do negro, mantendo a pirâmide das ocupações com o branco nas posições principais.

Há diferença entre as noções de preconceito e discriminação, embora esta diferença seja irrelevante para os negros. Para eles, um fenômeno pressupõe o outro. O preconceito é uma atitude social propagada no público por uma classe dominante, com o fim de estigmatizar determinado grupo como inferior, assim justificando a exploração das pessoas desse grupo. A discriminação só aparece quando se nega a um indivíduo ou a um grupo a igualdade de tratamento.
O Jornal O Dia, em 17 Out 79, estampava uma matéria em que se podia exemplificar a discriminação.  A manchete, na primeira página, dizia: "Discriminação:  Camareira não pode ser de cor nem maranhense".  A matéria falava de um anúncio publicado no jornal do Sistema Nacional de Emprego do Piauí solicitando camareira. Ela  devia ser branca, não ser maranhense etc. No Brasil, a prática de seleção racional, atualmente é uma realidade. Os exemplos isolados da prática tradicionalista de peneiramento não invalida esta verdade.

Assim como,  na sociedade escravocrata, o preconceito tornou legítima a apropriação da pessoa do escravo, mais tarde, no regime livre, ele justificou a exclusão do ex-escravo dos direitos e regalias concedidos ao branco; e hoje, ainda é um expediente consagrado pela prática na discriminação do negro e conseqüente favoritismo pelo trabalhador branco. Deste modo, se rejeita o trabalhador negro, com justificações que não se referem à pessoa, mas à raça a que a pessoa pertence, e que, no caso do negro, está secularmente estigmatizada.

A mulher branca parece ter mais preconceito do que homem branco, porque estando acostumada a ver as negras em suas copas e cozinhas, não se conformam em vê-las nos salões da sociedade ou no exercício de cargos socialmente importantes.

Os negros que sobem estão sempre ameaçados pela cor, que funciona como símbolo de status social ínfimo e como marca social estigmatizada.

Uma das tarefas mais árduas dos sociólogos é abordar o problema do preconceito racial, quer no meio branco, quer no negro. O branco geralmente não quer admitir que tem preconceito; e, por outro lado, muitos negros negam a existência do preconceito.  Tais atitudes tendem a criar o mito da democracia racial, segundo o qual não existe o problema de preconceito racial no Brasil, e que aqui todos têm o mesmo direito, todos são iguais perante a Constituição. O entrevistador tem de usar de certos subterfúgios para trazer à tona o verdadeiro sentimento do entrevistado com relação ao negro. Perguntas do tipo Levaria um negro à sua casa ? ou Casaria com um negro ou aprovaria se sua filha o fizesse ? levam a pessoa entrevistada à contradição . Em outras ocasiões, são os incidentes (como os de trânsito) que detonam a intolerância: "Que barbeiragem! Ah ! logo vi. Só podia ser um preto fazendo asneira !"  Um outro entrevistado pode demonstrar apenas uma espécie de solidariedade ao negro e até mesmo revoltar-se contra a maneira com que é tratado: “Na verdade, eles não são como nós, mas são humanos e têm sentimentos”. Mesmo nos casos em que parece haver uma amizade profunda entre um branco e um negro, pode explodir intempestivamente uma manifestação de racismo. Tomado por uma irritação momentânea, o branco acaba revelando que, no fundo, não aceita o negro como um igual.

Passamos a examinar algumas explicações manipuladas pelo branco e pelo negro, respectivamente, com relação ao preconceito de cor.

1. Explicações dadas pelo branco:

1a . Caracteres preconceituosos imputados pelo branco ao negro:

---  “Os negros são culpados, pois agem servilmente, como se ainda fossem escravos”.

---  “Eles não são aceitos por causa da cor”.

---  “É uma raça degenerada”.

---  “O preconceito nasce da falta de educação do preto”.

---  “É uma prevenção do negro contra o branco”.

1b. Caracteres preconceituosos imputados pelo branco ao próprio branco:

---  “Os brancos desprezam os pretos e não gostam deles”.

---  “Os pretos são mal-vistos pelos brancos e evitados”.

---  “Os brancos não dão oportunidades ao preto”.

---  “É falta de educação do branco”;.

--- “É coisa de branco rico imitada pelo branco pobre”.

---  “Isso veio de fora. É coisa de imigrante”.

---  “É imitação dos norte-americanos”.

2. Explicações dadas pelo negro:

2a . Caracteres preconceituosos imputados pelo negro ao branco:

-- - “É uma arma de defesa do branco”.

---  “Vem do orgulho dos antigos senhores e do ódio que devotavam ao negro”.

---  “Foi trazido pelos imigrantes”.

---  “É imitação dos EUA”.

---  “É produto do atraso e da falta de educação do branco”.

2b. Caracteres preconceituosos imputados pelo negro ao próprio negro:

---  “A culpa é do negro que não sabe fazer as coisas e se comportar direito”.

---  “O negro é responsável, pois não se insurge contra as manobras do branco”.

-- - “Explica-se pelo recalque ou pelo complexo do negro”.

 Apresentamos abaixo dois depoimentos prestados por vítimas de discriminação racial.

“Tendo sido criada a repartição onde trabalhei até vir para cá, foi publicado um edital de concurso para preenchimento de vinte vagas de escriturário. Apresentaram-se 518 candidatos. Prestei concurso, mas o resultado não foi publicado. Todavia, fiquei sabendo posteriormente que havia passado em segundo lugar. Logicamente tinha direito ao preenchimento da segunda vaga. Fui chamado, mas fiquei sabendo depois que não iam me chamar. Eis que em reunião da Diretoria não quiseram que eu ingressasse em virtude de julgarem que iria haver certa dificuldade no meu contato com algumas senhoritas que lá iriam trabalhar. Julgavam tais diretores que as senhoritas iriam se sentir mal trabalhando na mesma sala com um negro. Nesse instante, um dos diretores de quem sou irmão de criação, levantou-se e disse que eu havia sido criado na casa de seu pai, e que, por isso, eu havia recebido uma educação igual à que ele recebera, sabendo eu comportar-me em qualquer meio. Diante disso, resolveram admitir-me”.

 Este exemplo vem demonstrar alguns pontos enfocados anteriormente. As firmas, às vezes, sabotam os mecanismos de seleção racional. O protecionismo do branco se evidencia para fazer valer o direito do negro. O negro acaba vencendo também como resultado de seu contato com a família branca e mais diretamente em virtude de sua própria capacidade. O empregador branco antecipa o comportamento do negro e tende a discriminá-lo com base no preconceito.

Vejamos o outro depoimento:

A diretora de um grupo escolar foi, pela primeira vez, a uma reunião pedagógica. Conta ela: “Não conhecia ninguém ali. Estava esperando, na entrada, uma colega que me apresentaria aos demais. Nisso, chegou uma senhora idosa muito simpática, que me disse: ‘Vá chamar o delegado de ensino que eu quero falar com ele’. Fiquei perplexa com a atitude dela. Tive sorte de ver chegar a minha colega, que me apresentou à outra, que sofreu um leve choque e me disse: ‘Você me desculpe. Eu tomei você por uma servente da escola’.”

Neste exemplo, ficou evidenciado o fato de que o branco tende a ver a cor do negro como a característica mais marcante e, por isso, classifica-o, a priori, como pertencendo a um nível sócio-cultural muito baixo.

Os exemplos citados demonstram a má-vontade do branco em reconhecer o status adquirido pelo negro. Esta recusa sistemática em reconhecer o negro em ascensão pode ser exemplificado com o caso do vendedor branco que bate à porta de uma casa de um bairro elegante, e que, ao ver a dona assomar à porta, pergunta se a patroa está alegando que não fala com criadas.

Outra tendência bem acentuada é discriminar o negro “para o bem do próprio negro”, evitando empregá-lo em serviços que exigem contato com o público: “Não queremos que os fregueses os ofendam.” Todas as vezes em que se manifesta o preconceito de cor, na área ocupacional, o reajustamento da situação é feito com prejuízo do negro. Simplesmente removem o negro, e o problema está resolvido.

As avaliações negativas em torno do negro têm prejudicado sobremaneira a sua aceitação e ascensão social: “O negro é preguiçoso”, “o negro é irresponsável, confiado, ineficiente, de moral duvidosa”, “O negro não se submete a horários, não é asseado”, “O negro é ignorante, não se preocupa em fazer carreira”. Portanto o empregador, ao deparar com um candidato negro, dirá, quase automaticamente, num constrangimento que parece real: “Não há vaga”, ou “chegou muito tarde”, ou ainda “deixe o endereço que mandaremos chamá-lo”. Nem lhe dá uma chance de demonstrar a falsidade das avaliações seculares que pesam sobre ele e sua raça.

A partir das avaliações negativas em torno da cor, surgem os estereótipos como “branco de alma negra”, “negregada política”, “situação negra”, “ovelha negra”, “a coisa está preta”. Há até provérbios construídos com base nessas avaliações: “Se eu gostasse de preto, andava com um urubu embaixo do braço”, “Preto, quando não suja na entrada, suja na saída”, “Branco correndo é atleta, preto correndo é ladrão”. E para ofender um branco, outro branco poderá dizer, com sarcasmo e desprezo: “Está fazendo serviço de preto”.

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