I PARTE

OS MOVIMENTOS SOCIAIS

Como reação à manifestação do preconceito e da discriminação, começam a surgir, no meio negro, movimentos sociais disciplinados e disciplinadores que, reconhecendo o preconceito como problema social que exigia solução social, prontificaram-se a reeducar não só o negro, mas também a mentalidade do estoque racial dominante.
As insatisfações de caráter social começam a se manifestar pelos fins da I Grande Guerra.

Relacionamos aqui algumas dessas organizações:

Associação José do Patrocínio
Associação dos Negros Brasileiros
Centro Cívico Beneficente Senhoras Mães Pretas
Centro Cívico Palmares
Clube Negro de Cultura Social
Federação dos Homens de Cor
Frente Negra Brasileira
Grêmio Recreativo Kosmos
Frente Negra Socialista
Legião Negra Brasileira
Movimento Afro-Brasileiro
Movimento Afro-Brasileiro de Educação e Cultura
Sociedade Beneficente Treze de Maio
União Negra Brasileira

Eventos sociais:

Convenção Nacional do Negro (1944)
I Convenção Paulista do Negro (1956)
I Encontro de Estudos Sobre Cultura Negra (1963)
I Congresso da Mocidade Negra

Algumas publicações (Imprensa Negra): Alvorada, O Novo Horizonte, Senzala, Clarim da Alvorada, A voz da Raça.

 Dos movimentos citados, destacam-se os seguintes: Centro Cívico Palmares (1927), que começou como entidade recreativa, passando depois a atividades doutrinárias e de lutas. Foi notável sua campanha (e conseqüente vitória) de combate às decisões arbitrárias de um chefe de polícia de São Paulo, que exigia a condição de ser branco, para ingresso na Força Policial. A Legião Negra Brasileira, que surge com a Revolução Constitucional de 32, colabora ativamente com as forças revolucionárias e com os negros, os quais a Legião obriga a tomar posição política e participar dos acontecimentos históricos. Foi a Frente Negra Brasileira, entretanto, o mais importante de todos os movimentos sociais.

A Frente negra Brasileira surge em 1931, como resposta às tensões criadas pelos impulsos de teor igualitário do meio negro. Era dirigida por um grande conselho de 20 membros, com um chefe e um secretário. Subordinado a esse conselho, havia uma milícia frente-negrina com organização para militar com posto máximo de capitão. A FNB tinha um hino oficial, o Hino da Gente Negra Brasileira, com letra do Dr. Arlindo Veiga e música do Prof.  Alfredo Pires.

A Frente negra Brasileira se propunha, entre outras coisas, solapar a dominação racial tradicionalista; desmoralizar os valores ou técnicas sociais em que repousava aquela dominação; reeducar o negro, incentivando-o a concorrer com o branco, em todas as esferas. Outra preocupação da FNB foi o controle dos conflitos sociais na população de cor. Esses conflitos tendiam para uma segregação racial sistemática. O objetivo da FNB era fazer da sociedade de classes um sistema aberto pelo menos ao negro em condições de competir com o branco. Quando procurada por um padre que tencionava criar um seminário só para negros, a FNB negou-se veementemente a apoiar a idéia. Os seminaristas negros, diziam os dirigentes frentenegristas, tinham de ficar lá mesmo, juntos com os brancos, onde era seu lugar.

A Voz da Raça era o jornal porta-voz da FNB. Através dele, a sociedade tomava conhecimento da insatisfação da população negra. Manifestos calorosos e eloqüentes foram ali publicados, como os seguintes:

 “Unamo-nos, então, patrícios ! Unamo-nos, associações negras, para sermos força social, força moral, força econômica, força política, para ajudar os poderes nacionais a serem nacionais, e a resolverem nosso problema no que compete à esfera deles, e para virmos a ser, nós mesmos, uma parcela do Poder Público, num sentido radicalmente nacionalista, defendendo todas as reivindicações que favoreçam o negro e ao Brasil”.

A FNB pretendeu, também, que se reaproximassem  da massa as elites de cor. Não foi muito feliz, a exemplo da mesma tentativa feita pelo jornal Clarim da Alvorada, em 1923. Esse jornal convocara todos os homens de cor de prestígio na época, para a realização do I Congresso da Mocidade Negra. Apenas o Dr. Arlindo Veiga compareceu e organizou todo o programa.

Em 1936, a FNB vira partido, malgrado a oposição dos órgãos políticos. O objetivo da politização da FNB era dar um apoio mais efetivo à população de cor. Dizia A Voz da Raça:

"Precisamos educar o negro para votar em negro, pois só mesmo um negro sabe quais são os nossos problemas. Depois que estivermos com um lá dentro, o resto será fácil. Haverá dinheiro para nos organizarmos e nas eleições vindouras, iremos colocando outros. É este o caminho da melhoria das condições de vida do negro.
(in A Integração do Negro na Sociedade de Classes)

O Estado Novo, em 1937, fecha o partido. A FNB renasce com o nome de União Negra Brasileira, mas não se mantém de pé. Foi a maior organização negra que a população de cor já possuiu.

A queda das organizações negras, principalmente da FNB, se deve a muitos fatores, entre os quais a inércia do branco diante dos movimentos sociais. O branco não as combateu, mas também não as apoiou. A ascensão individualista agravava a acefalização do meio negro. A elite de cor deu aos movimentos mais oportunistas que colaboradores efetivos. Os cargos dessas associações serviam de trampolim político. A inexperiência política, agravada pela falta de adestramento na manipulação de técnicas sociais dificultava a consecução dos objetivos dos movimentos sociais. Muitos negros eram desencorajados pelos patrões e deixavam a associação a que pertenciam. “Vocês não precisam de um clube para defendê-lo: aqui não existe preconceito”, diziam os patrões.

A estigmatização da raça justificou a escravização do negro. A crise sócio-econômica justificou a sua libertação dos grilhões. A sua redefinição social, no entanto, está se fazendo à sua própria custa; e a verdadeira abolição virá através de seu próprio esforço.

*   *  *