I PARTE

IMPULSÕES IGUALITÁRIAS DE INTEGRAÇÃO RACIAL

ASCENSÃO SOCIAL DO NEGRO

OS INCENTIVOS

Após a Abolição, os negros passam de escravos a ex-escravos, com todas as conotações negativas e impeditivas de progresso sócio-econômico. Em 1930, começam a ter acesso aos mínimos essenciais ao ajustamento produtivo, com a instauração do salário-mínimo.

Os primeiros incentivos lhes vêm dos negros que já eram livres em 13 de maio de 1888, e que já possuem uma posição definida dentro da estrutura social. A ordem competitiva aberta lhes abre amplas vias de proletarização, por onde penetram na massa de agentes de trabalho assalariado, não em grupo; maciçamente, mas de maneira difusa e assistemática. O grosso das oportunidades se concentra no trabalho braçal, sem qualificação ou semiqualificação. Mas os negros disputam essas oportunidades, sem questionar a concentração racial da renda, do prestígio social e do poder. Este questionamento virá mais tarde.

Movidos pelos primeiros minguados, mas reais sucessos de ascensão, os negros começam a cogitar novos padrões e estilos de vida, a desprezar a luta pela simples sobrevivência e a exigir novas formas de trabalho que lhes rendessem proventos sócio-econômicos.

A acelerada expansão econômica, iniciada em fins de 1939, faz mudar a composição do sistema de trabalho. A grande escassez de mão-de-obra dá origem a pressões de dois tipos: quantitativa e qualitativa. A primeira força uma absorção dos negros que se achavam marginalizados na periferia do sistema de trabalho capitalista. A segunda pressão, a qualitativa, facilita o fluxo de elementos da população de cor nas camadas inferiores do sistema.

Podemos citar como incentivos para a ascensão dos negros os seguintes: a) a influência socializadora da família branca; b) o paternalismo do branco; c) a modernização do horizonte cultural do negro; d) negros em ascensão; e) a vigência do salário-mínimo; f) o repúdio à acomodação racial; g) as técnicas racionais de peneiramento no meio social inclusivo.

Uma mulher de cor a serviço de uma rica família de brancos podia tirar proveito da situação, proporcionando aos filhos a oportunidade de viver na periferia dessa família, recebendo dela os influxos socializadores. Assim, os filhos negros se beneficiam desse contato e podem mesmo vir a ter o patrocínio dessa família na sua ascensão.

Serafim da Silva Neto, em sua obra Introdução ao Estudo da Língua Portuguesa no Brasil, nos dá testemunho desse relacionamento entre escravos e senhores:

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 “Nesse caso, devem contar-se os escravos mimados, aqueles que, merecendo simpatias especiais, ficavam sendo como pessoas da família: espécie de parentes pobres.”
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 “...Viu crianças de todas as idades e cores correndo de um lado  para outro, parecendo que eram tratados tão ternamente como se fossem da família.”
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 “Quantas vezes não temos visto senhores que não hesitam em trazer seus pequenos escravos mulatos à mesa da família?”
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A amizade de brancos influentes podia lançar o negro na espiral ascensional do sistema. Através dessa amizade, ele chega a atingir, a curto prazo, invejáveis posições na estrutura ocupacional, conforme seu preparo cultural e desembaraço manipulação das técnicas sociais. Não devemos, contudo, confundir essa situação em que o branco reconhece e premia a capacidade do negro, apadrinhando-o, com a situação em que o negro gravita com subserviência em torno do branco, para granjear uma posição imerecida.

O negro que adquire educação vê seu horizonte cultural expandir-se, e passa a sentir uma forte compulsão para subir socialmente. Deixa de se sentir inferior e temeroso de competir, e chega mesmo a se impor perante os colegas brancos.

O primeiro modelo para o negro foi o branco em ascensão. Mas esse modelo, mais tarde, deu lugar ao do negro em ascensão. Este último modelo era muito mais estimulante e legítimo, evidentemente.

A vigência do salário-mínimo teve uma considerável conseqüência social: nivelou negros e brancos, brasileiros e imigrantes, quando integrantes do mesmo estrato social. A igualdade salarial tornou mais possível a noção de igualdade social, e contribuiu para enfraquecer o conceito de inferioridade racial que oprimia o trabalhador negro. Nessa conjuntura, começa a se esboçar o repúdio à acomodação e ao preconceito de cor, de que falaremos mais tarde.

A pressão qualitativa gerada no mercado de trabalho, com a grande expansão econômica, introduz no sistema mecanismos racionais de seleção de trabalhadores. Os serviços públicos adotam a técnica da seleção por concurso aberto a todos os cidadãos, independentemente de cor ou raça. As grandes empresas assumem a mesma atitude.

Embora tenha havido inúmeros exemplos de empresas que sabotavam a racionalidade da seleção, a maioria insistia em abandonar os padrões tradicionais e prejudiciais de peneiramento.

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