BRASIL - Um país que
não respeita a Memória da Televisão
 
 
            Chega a ser redundante dizer que o Brasil é um país sem memória, em todas as áreas existentes e imagináveis. Porém, algumas vezes nos defrontamos com fatos que, no mínimo, nos deixam revoltados e com vergonha de sermos brasileiros.
 

            Todos temos consciência das (inúmeras) irregularidades cometidas por grande parte de nossos governantes, da falta do cumprimento efetivo das leis, da não revisão do Código Penal, etc. De qualquer forma, acabamos empurrando esses problemas com a barriga, e nos acomodamos.
 

            Contudo, vez por outra tomamos conhecimento de absurdos que, de tão descomunais, fazem com que não suportemos ficar calados. É o caso da deterioração de QUASE TODO o acervo da nossa querida REDE MANCHETE, por pura falta de respeito com a história da televisão brasileira.
 
 

Veja abaixo, um texto extraído do site Telemania, acerca do caso:
 
 
Acervo da TV Manchete está se perdendo

          No processo de falência da Bloch Editores, quem acabou condenado foi o acervo de imagens da extinta TV Manchete, que pertencia ao mesmo grupo. A maior parte das fitas da emissora ficou presa no prédio da Bloch, lacrado pela Justiça, sob péssimas condições de conservação. Entre as obras que se deterioram no local há um ano, estão novelas como "Pantanal", "Dona Beija" e "Xica da Silva".   

           A TV Manchete vendeu sua concessão para o Grupo Ômega (Rede TV!), mas todos os ativos, incluindo equipamentos e o acervo de imagens, foram comprados pela Hesed Participações, empresa de Fábio Saboya. Ele afirma que estava fazendo o levantamento das fitas quando foi expulso do prédio por oficiais de Justiça. O edifício foi lacrado no processo de falência, e tudo o que estava lá dentro passou para a responsabilidade da massa falida da Bloch Editores. "O ar condicionado e os aparelhos de desumidificação foram desligados. Todo o material está estragando", diz Saboya.  
          O juiz Walter Soares, que responde pela massa falida, não quis dar entrevista. Mas o TV Folha apurou que todo o patrimônio contido no prédio foi arrecadado para o pagamento de dívidas trabalhistas e irá a leilão. O material está em fase de catalogação, e não há previsões para que saia de lá.  
          Mesmo que Flávio Saboya consiga na Justiça o direito de retirar as fitas do edifício, será necessária uma longa auditoria para separar deste acervo o que é pertencente à Bloch Som e Imagem, uma terceira empresa, também detentora de imagens de algumas novelas produzidas pela Manchete.  
 
          Marquesa de Santos                            Dona Beija                                         Carmem                       Kananga do Japão        Ana Raio e Zé Trovão 

          Neste processo kafkiano, a morosidade da Justiça não é o único complicador. Também falta interesse dos proprietários. Saboya reconhece que o valor comercial do acervo não é mais suficiente para cobrir seus custos. Segundo ele, para manter as quase 98 mil fitas em local aclimatado, seriam necessários pelo menos R$ 30 mil por mês. "Já propus até doar esse material para um órgão competente, porque, como lucratividade para a minha empresa, não é mais interessante", diz.  
          O documentarista Nelson Hoineff, que produziu programas exibidos pela Manchete, como o "Documento Especial", acha difícil a recuperação do acervo. "Até hoje não se olha para a TV culturalmente, ela ainda é vista como um veículo efêmero", diz. Ana Olivero, chefe de arquivo da TV Manchete, que se diz magoada com a situação. "Eu implantei aquele sistema de conservação de fitas em 83. Desde então, mantínhamos tudo a uma temperatura de 18 graus e com quatro desumidificadores ligados 24 horas por dia. Se isso foi desligado, pode haver perda total do material por fungos e umidade", afirma. Além das novelas, o acervo conta com os primeiros programas das carreiras de Angélica, Xuxa, Carolina Ferraz, entre outros. "É a memória televisiva do Brasil, do período que vai desde a saída do regime militar até a democratização do país", diz Olivero.  
 

A matéria é de Marcelo Bortoloti, da Folha de S.Paulo.
(texto extraído do site TELEMANIA, em 04/08/2002)
 
 
            Não bastasse a falência da Rede Manchete em 1999, agora todo seu acervo está ameaçado de desaparecer. Será que não aparecerá ninguém para reverter tal situação? Será que o acervo de uma emissora do porte da Rede Manchete acabará por se limitar a gravações pessoais, realizadas por pessoas comuns que registraram em fitas VHS alguns programas e vinhetas da citada emissora?
 
 
Abertura e encerramento diário da Rede Manchete
Maior marca registrada da saudosa emissora carioca!
 
 
            Infelizmente, Adolpho Bloch partiu em 1995. Mas, pelo menos, não viveu o suficiente para ter o desgosto de ver sua Rede de TV mudar de nome e se transformar numa reles emissora de quinta categoria; sem o menor carisma; com programas toscos, essencialmente apelativos e de um mau gosto fora do comum (aliás, quanta falta de criatividade na escolha da denominação: RedeTV!); e ver desaparecer aos poucos todo o vasto e valioso acervo da eterna REDE MANCHETE.

            Algo precisa ser feito, antes que seja tarde demais!
 
 

Fabiano Suassuna Dutra de Albuquerque Montenegro
08 de Agosto de 2002
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