Land of the Pharaohs
Em 1986, a Rede Globo de Televisão
exibia, no Corujão I, o filme "Vale dos Reis" (Land of the Pharaohs).
Por ser muito tarde, meu pai deixou o videocassete (Betamax) programado
para gravá-lo. No dia seguinte, assistimos ao filme e, desde então,
este passou a ser meu filme predileto, o qual já perdi a conta de
quantas vezes já o vi (creio que mais de 30 vezes).
O filme, produzido em 1955, conta a história da construção
da pirâmide do Faraó Queóps. Uma super produção,
dirigida por Howard Hawks, e tendo a belíssima Joan Collins no elenco.
A seguir, veja uma análise do filme, com diversas imagens digitalizadas,
provenientes da gravação feita em Betamax, em 1986.
Devido
à grande quantidade de imagens, as mesmas
podem
demorar a carregar - mas vale a pena esperar!
FICHA TÉCNICA
Título Original: Land of
the Pharaohs
Direção: Howard Hawks
Escrito por: William Faulnner,
Harry Kurnitz e Harold Jack Bloom
Música: Dimitri Tiomkin
Produção: Continental
Company Ltd.
Elenco:
Jack Hawkins, Joan Collins,
James Robertson Justice, Luisa Boni, Sydney Chaplin, James Hayter, Kerima,
Piero Giagnoni, dentre outros
Egito
em Hollywood: Faraós nos anos 50
Texto
original (em inglês) de Sam Serafy
(traduzido
por: Fabiano Suassuna D. A. Montenegro)
No início da década de 50, enquanto a economia estava em
alta, a indústria do cinema americano estava enfrentando a maior
ameaça de sua história. A presença do teatro estava
caindo rapidamente e muitos estavam prevendo a decadência de Hollywood.
O Produtor David Selznick disse em 1951, “Hollywood é como o Egito
cheio de pirâmides caindo aos pedaços. Nunca mais será
o mesmo. Apenas continuará caindo aos pedaços até
que finalmente uma pancada de vento destrua a última escora do estúdio
através da areia.” A força responsável por esta destruição
era a televisão que tinha vindo por ela própria, e os americanos
estavam em sua maioria optando por obter entretenimento no conforto de
seus lares. A estratégia empregada
pelos estúdios para atrair o público para fora de suas salas
de estar era fazer do teatro-experiência um evento que oferecesse
algo que a televisão não pudesse oferecer. Novos sistemas
de “tela grande” como Cinerama e CinemaScope haviam se desenvolvido.
Era o tempo dos generosos espetáculos coloridos com milhões
de dólares em orçamento e elencos grandiosos. Produtores
lutavam por assuntos apropriados que tivessem proporções
de épicos, e a majestade e esplendor do antigo Egito eram rapidamente
exploradas pelo propósito. Os três maiores épicos do
antigo Egito dos anos 50 são The Egyptian (1954), dirigido
por Michael Curtiz; Land of the Pharaohs (Vale dos Reis)
(1955), dirigido por Howard Hawks; e The Ten Commandments (1956),
dirigido por Cecil B. DeMille. Enquanto apresentava uma reconstrução
do passado e de seus hábitos, estes filmes inevitavelmente refletem
os interesses sociais e políticos dos anos 50. Este papel discute
como a Hollywood dos anos 50 descreveu a sociedade do antigo Egito, e como
esses filmes serviram para promover metade do Século XX em prioridades
americanas. (...)
Significativamente, o herói de The Egyptian é um egípcio.
Em Land of the Pharaohs e The Ten Commandments os
heróis não são egípcios, mas escravos dos egípcios.
Eles são observadores externos com os quais nós pretendemos
nos identificar.
O filme Land of the Pharaohs, de Howard Hawks é ambientado
na Quarta Dinastia do Antigo Reinado, mas falha em igualar a unidade visual
de The Egyptian. A decoração do palácio é
mínima, sem murais; ao invés de paredes de pedra descobertas,
são enfeitadas com peles de animais. Existem poucos vestígios
do estilo egípcio, porém há algum design coerente.
As prolongadas tomadas exteriores, com a simples exceção
do campo de colheita, revela um ambiente deserto e além disso a
concepção de que o antigo Egito era uma infrutífera
bacia de poeira.
Milhares
de egípcios participaram das cenas de multidão
A maioria das cenas de externa eram realizadas no Egito e foram empregados
literalmente milhares de egípcios extras nas cenas de multidão.
O filme mostra longas paradas e cenas de egípcios puxando gigantes
pedras das pedreiras e transportando-as pelo rio Nilo, em barcos a vela.
Essas cenas são todas filmadas sem closes e com poucas individualizações
do povo egípcio. Essas cenas são interrompidas rudemente,
pulando-se ao interior dos sets de filmagem do drama, e com todo o elenco
americano e europeu. Os atores ingleses, aqui utilizando uma suave maquiagem
escura, tomam conta das cenas principais.
A
construção da grande pirâmide
O Faraó (Jack Hawkins) convoca o povo egípcio para começarem
a trabalhar na construção da Grande Pirâmide, prometendo
a eles um lugar na próxima vida. Os egípcios embarcam no
projeto com grande contentamento e cantando. Quinze anos depois, entretanto,
a disposição dos egípcios mudou. Os trabalhadores
agora trabalham pesado ao som do tambor e no estalar do chicote. Os suprimentos
começam a ficar escassos; então o Faraó impõe
a arrecadação de tributos por parte das províncias
egípcias. Quando ele chama por Cyprus (Ilha de Chipre), a princesa
Nellifer (Joan Collins) vem no lugar do tributo. O Faraó então
tira a capa de Nellifer, deixando-a semi nua, e gosta do que vê.
Quando ela obstinadamente o rejeita, ele a manda chicotear.
Nellifer e o escravo M' Buna
No tribunal
Sendo chicoteada
Mais tarde, quando ela é trazida ao quarto do Faraó, é
forçada a ajoelhar-se diante dele. Nesta cena, a natureza de gato
selvagem de Nellifer é enfatizada em um ângulo em que a câmera
a focaliza próxima a uma parede com uma pele de tigre estirada.
Quando ela continua tratando-o com desdenho, o Faraó oferece-lhe
uma taça de vinho, que ela joga ao chão com uma tapa. Diante
de tal ação, Nellifer leva uma tapa na cara, e quando o Faraó
vai bater novamente, ela agarra seu braço e dá uma dentada.
Faraó
oferece vinho à Nellifer.
Note
ao fundo (primeiro quadro) a pele de tigre pendurada na parede
O Faraó tenta faze-la parar de resistir, como se ela fosse uma selvagem.
Esta analogia é feita concretamente na cena em que, pela diversão
dela, o Faraó pega um touro brabo à unha, tornando-o submisso.
Quando o Faraó lhe pergunta se gostaria de saber como ele conseguiu
tantos tesouros, Nellifer responde que apenas deseja “vê-lo e tocá-lo”.
“Exatamente como toda mulher”, completa o Faraó.
Land of the Pharaohs, assim como The Egyptian, apresenta
os dois tipos opostos de mulher: a fêmea fatal e a mulher
educada. Nailla, a esposa do Faraó, aceita as lutas e a procura
de tesouros que mantém seu marido longe de casa por tanto tempo,
e deseja que ele fique com ela apenas o tempo necessário para que
ela possa dar-lhe o filho que ele tanto almeja para sucedê-lo.
Nailla
Nailla é o maior obstáculo de Nellifer, e portanto torna-se
seu alvo. Dessa forma, eliminando Nailla, Nellifer tornar-se-ia a rainha
do Egito. Então, ela coloca uma cobra dentro da casa da rainha.
Quando a cobra ameaça seu filho, Nailla se joga sobre a mesma, morrendo
instantaneamente. Outra boa mulher é Kyra, a escrava que o filho
de Vashtar - Senta – salva do palácio do Faraó.
Kyra
Senta e Kyra
Senta a leva para casa, onde ela, entusiasmada, toma conta da cozinha.
“É isso que vocês comem?” Ela pergunta após experimentar
a comida no fogão. Ela manda providenciarem uma variedade de temperos,
demonstrando que era apenas um toque feminino que faltava naquele lugar.
Enquanto a “má mulher” tenciona ganhar riquezas destruindo o núcleo
familiar, a “boa mulher” é educada e anseia apenas pelo retorno
de seu marido para ela.
O trabalho começa na câmara do funeral da pirâmide e,
para assegurar o segredo, o Faraó corta a língua de um grupo
de voluntários que trabalhariam na tumba.Todos eles deveriam morrer,
assim que o Faraó for enterrado, para que o segredo da tumba jamais
fosse revelado. Para a segurança da tumba contra saqueadores, o
Faraó deve procurar fora do Egito por uma ajuda tecnológica.
O engenheiro mestre Vashtar (James Robertson Justice) é um dos integrantes
do grupo que foi capturado pelos egípcios em Kushites. Ele concorda
em solucionar os problemas da guarda da tumba real, em troca da liberdade
de seu povo quando o trabalho estiver completo.
Vashtar (James Robertson Justice)
Construção do interior da pirâmide
Construtores mudos
Vashtar cria um engenhoso sistema para lacrar a tumba do Faraó e
seus objetos de valor usando areia para abaixar gigantes blocos de pedra
dentro da pirâmide. O Egito é novamente mostrado como possuidor
de grande know-how tecnológico. Na conclusão do filme, Vashtar
fala do Faraó, “A pirâmide vai manter sua memória viva,
e aquilo que ele construiu melhor do que ele imaginava.” O filme insinua
que os egípcios eram ignorantes acerca do valor de suas próprias
realizações.
É nas cenas conclusivas que o propósito primário do
filme torna-se aparente. Em um generoso gesto, Hamar concede a Vashtar
sua liberdade dizendo que seu trabalho na cripta está completo.
Hamar
Pensando que estava apenas oficiando o funeral do Faraó, Nellifer
subitamente realiza-o, e é sepultada juntamente com o Faraó
e os trabalhadores mudos, além de Hamar (amigo do Faraó,
que sempre desejou ser enterrado na pirâmide). Seus frenéticos
esforços para escapar são inúteis. Assim que um grande
bloco de pedra colocado por Vashtar começa a cair, lacrando a tumba
ao redor dela, Nellifer entra em desespero no chão, gritando, “Eu
não quero morrer”. O Faraó realiza em sua vida após
a morte, uma forma de vingança. A grande pirâmide torna-se
um solene monumento de poder patriarcal e justiça moral.
Em Land of the Pharaohs, a religião do antigo Egito
é consistentemente invalidada. Vashtar fica horrorizado com sua
brutalidade. Quando soldados desertores são jogados vivos em um
fosso cheio de crocodilos, Vashtar comenta, “Estranha religião que
nega uma segunda vida àqueles que falharam nesta.”
Soldados
desertores sendo atirados vivos, no fosso cheio de crocodilos
Quando o Faraó mostra a Nellifer um quarto especial contendo tesouros
saqueados de outras terras, ele explica que foram escolhidos para serem
sepultados com seu corpo porque são símbolos desta vida que
virá. A partir do momento em que o tesouro do Faraó refere-se
a saques em batalha, antes de ser produzido por artesãos egípcios,
o significado religioso está perdido. De qualquer maneira, diferente
dos sacerdotes em The Egyptian, o grande sacerdote Hamar é
retratado como um indivíduo sábio e simpático, e o
filme igualmente o permite descrever um aspecto da religião
egípcia, o propósito dos barcos solares posto na tumba. Porém,
quando Hamar oficializa em público a lamentação pelos
mortos em guerra, grandes cabeças de pedra surgem para falar; isto
torna claro que ele está orquestrando a decepção.
A implicação é que nem mesmo o Grande Sacerdote do
Egito acredita nos deuses.
Land of the Pharaohs apresenta a subjetividade sem diretamente
desenhar as histórias judaica e cristãs. Vashtar não
acredita na vida após a morte, e o deus de Kushites nunca é
mencionado. Ainda que o racionalismo de Vashtar seja ressaltado, o filme
não tende a promover valores bíblicos. Como escravos do Egito,
a performance dos Kushites tem a mesma função narrativa do
que o que os Jews fazem em Biblical Exodus. Vashtar é o que exige
que seu povo continue seu caminho, como os Jews eventualmente ganham sua
liberdade. (...)
Nellifer
em duas cenas distintas: excelente atuação da exuberante
atriz Joan Collins
Em The Egyptian, Land of the Pharaohs e The Ten
Commandments, os ricos detalhes da sociedade do antigo Egito são
raramente explorados. As realizações dos egípcios
são insignificantes enquanto o abuso dos direitos humanos são
enfatizados. Suas realizações artísticas são
reduzidas à ganância por objetos de ouro, e inovações
tecnológicas são mostradas como vindas de fora do Egito.
O delta do fértil rio Nilo não é mostrado e há
pouca indicação da sutil observação do mundo
natural tão evidente nas criações artísticas
e religiosas do antigo Egito. Os religiosos egípcios acreditam que
são encarregados de exercer pressão de superioridade de magistério
bíblico sobre as crenças americanas. O filme enfatiza as
similaridades entre a cultura do Século XX e o mundo antigo para
provar que os antigos eram “apenas como nós”. Ao enxertar suas próprias
construções políticas e sociais em pinturas de culturas
passadas, esses filmes afirmam quais audiências já aceitaram,
ou precisaram acreditar.
Mais
detalhes sobre o filme
(Por:
Fabiano Suassuna D. A. Montenegro)
Na década de 50, Hollywood já utilizava alguns recursos de
efeitos especiais em seus filmes, apesar de precários, se comparados
aos efeitos especiais utilizados hoje em dia. Dois efeitos merecem destaque.
Um deles foi realizado através de Croma key, ou fundo azul
falso. É na cena em que ocorre um acidente no interior da pirâmide,
onde uma pedra se solta e cai derrubando alguns pilares de sustentação.
O Croma key ainda é intensamente utilizado nos dias de hoje,
principalmente na televisão.
Efeito Croma key
Note
que os dois personagens se destacam do restante do cenário.
Na
realidade, ambos estão olhando para um fundo falso, onde depois
é inserida
a
imagem da cena onde aparece a pedra caindo e derrubando os pilares de sustentação
Outro efeito é o da visão falha (embaçada) do Faraó,
quando este está prestes a morrer aos pés de Nellifer. Abaixo,
veja ilustração de tais cenas.
Visão embaçada
Após
sofrer alguns ferimentos graves, o Faraó começa a ter falhas
na visão.
A
imagem distorcida faz com que o telespectador tenha noção
de como estava a visão do Faraó
CORUJÃO
/ REDE GLOBO / VINHETAS / PROPAGANDAS
Na época em que meu pai gravou este filme, a Rede Globo exibia ainda
a vinheta "PlimPlim" tridimensional azul, que girava até fazer o
som característico. Quanta saudade desta vinheta, bem mais
interessante e bonita do que as atuais charges exibidas pela emissora carioca!
Abaixo, veja trechos da vinheta em questão.
A vinheta (exibida no meio dos intervalos) da emissora na época
tinha como slogan musical: "Vem que tem, na Globo tem" (Esta
vinheta se assemelha muito à exibida em 1991, cujo slogan era "Globo
e você, tudo a ver", tendo a frase "Tudo a ver" (em dourado)
saindo de dentro do globo). Abaixo, veja imagens da
vinheta gravada no comercial do filme (Land of the Pharaohs), por volte
de 1985.
Sempre quando gravávamos algum programa, tirávamos as propagandas
da gravação. Infelizmente demorei para perceber o tamanho
deste erro que sempre cometíamos. Por sorte, como o filme foi exibido
no Corujão, e o vídeo ficou gravando "sozinho", todos os
comerciais ficaram gravados, juntamente com o filme. Porém, na década
de 80, a Rede Globo exibia pouquíssimos comerciais na programação
da madrugada - ou seja - em toda exibição do filme em questão,
só 1 comercial (em apenas 3 intervalos) foi exibido. A seguir, veja
os 3 comerciais exibidos.
Propaganda entre
a 1ª e a 2ª parte do filme
Comercial
do filme Dançando como Loucos (inédito), que seria
exibido no dia seguinte, na Sessão de Gala.
Através
deste comercial, é possível saber que a gravação
foi realizada em uma sexta-feira
Propaganda entre
a 2ª e a 3ª parte do filme
Comercial
do whisky Passport (Legítimo Scotch importado)
Propaganda entre
a 3ª e a 4ª parte do filme
Comercial
do filme Ritos Satânicos de Drácula, que seria exibido
logo em seguida, na sequência do Corujão
Joan
Collins
A atriz Joan Henrietta Collins nasceu em 23
de Maio de 1933, em Londres / Inglaterra. Land of the Pharaohs foi um de
seus primeiros trabalhos como atriz, e através dele foi contratada
pela 20th Century Fox. Muitos foram seus filmes, nas décadas de
50, 60, 70, 80 e inclusive na década de 90. Ela é a única
de sua família que tem carisma e talento para o cinema. Sua irmã
Jackie Collins é uma grande romancista, cujos livros The Bitch
e The Stud foram transformados em filmes, estrelados por Joan.
Joan Collins recentemente atuou no filme Os Flintstones em Viva Rock
Vegas, producão de 2000, atuando no papel da personagem Pearl
Slaghoople.
Mesmo com quase 70 anos de idade, Joan Collins continua ainda muito bonita.
Para ela, o tempo parece não ter passado, desde 1955. Ao lado, veja
uma foto recente dela, e mais abaixo, a foto de sua personagem (Pearl)
no segundo filme dos Flintstones, além de fotos antigas (em preto
e branco).
Fonte das fotos e informações
sobre Joan Collins:
http://www.heresie.com/enfer/collins.htm
http://www.geocities.com/Hollywood/Hills/7537/collins.htm
http://members.nbci.com/phantom_1138/actresses/joancollins/index2.html
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