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A novela foi um fenômeno tão retumbante que virou matéria
de capa na revista VEJA, em sua edição nº 1.186, datada
de 12 de Junho de 1991.

A turma mexicana vai ao ar às 8 da noite, quando a Rede Globo exibe
o Jornal Nacional, programa de maior audiência do país e espinha
dorsal de sua milionária programação no horário
nobre. Antes de Carrossel estrear, há três semanas, o SBT
tinha 6% da audiência no horário, contra 54% para o Jornal
Nacional. Agora, a platéia do SBT atingiu a faixa dos 21 pontos,
enquanto a do concorrente caiu para 41. Mais tarde, na Globo, Cid Moreira
se despede dos espectadores e o noticiário do dia dá lugar
ao romance entre Malu Mader e Antônio Fagundes na novela O Dono do
Mundo. Escrita por Gilberto Braga, considerado o mais competente novelista
brasileiro da atualidade, O Dono do Mundo é um luxo só. A
produção tem pretensões cinematográficas, os
diálogos são em ritmo acelerado e o elenco é de primeira.
Não faltam banquetes de milionários, casais adúlteros,
frufru de lençóis, moças de vida incerta, diálogos
picantes, tipos engraçados e galãs para diversas faixas etárias.
Conversas em tom psicanalítico sobre os traumas dos personagens
também são freqüentes, assim como críticas sutis
à realidade social do país. Tudo inútil.

A novela anterior da Globo, Meu Bem Meu Mal, que em seu tempo foi considerada um desastre, se encerrou com 56 pontos no Ibope. O Dono do Mundo estreou na mesma noite que Carrossel e sua audiência está parada nos 41. No mesmo horário, a professora Helena e seus alunos já chegaram a 21 pontos (veja quadro acima). É verdade que, com seus 21 pontos contra 41 do concorrente, a turma mexicana do SBT dispõe de pouco mais da metade dos cerca de 40 milhões de telespectadores da Globo e, até agora, não alcançou sequer os 40% que a Manchete conseguiu no ano passado com Pantanal. Mas também é verdade que pela primeira vez uma emissora concorrente conseguiu cravar uma estaca no coração da Globo, em que o Jornal Nacional é uma espécie de alavanca que recolhe uma audiência mais modesta na novela das 7, engorda-a ao longo de suas reportagens e assegura uma boa musculatura para a atração seguinte, a novela das 8. A Manchete já teve mais audiência que a Globo com Pantanal, mas nunca num confronto com os carros-chefes da programação global.
TENDÊNCIA — Pode-se aguardar pelos 180 capítulos de O Dono do Mundo e pelos 200 de Carrossel para adivinhar o que irá acontecer daqui para a frente, mas agora a astrologia da audiência favorece o SBT. “Quando se trata de uma programação contínua, como uma novela, dificilmente se inverte a tendência inicial observada nas pesquisas”, afirma Carlos Augusto Montenegro, diretor-executivo do Ibope. “A Globo vai reagir, mas mesmo assim a perspectiva de Carrossel é subir ainda mais”, afirma Rubens Furtado, superintendente-geral da Rede Bandeirantes. Contra Pantanal, a Globo colocou filmes milionários, nudez e mexeu nos horários de sua programação. Contra Carrossel, não pode trocar Cid Moreira e Sérgio Chapelin por Xuxa e Simone, nem exibir .E o Vento Levou no lugar do Jornal Nacional. No máximo, pode mudar O Dono do Mundo. E é o que está fazendo, num ritmo frenético, desde a semana passada. Todos os dias a Globo conta com os adultos com ar debilóide da Escolinha do Professor Raimundo para massacrar os concorrentes no fim da tarde. Agora, tem as crianças mexicanas da Escuela Mundial da professora Helena nos seus calcanhares. Escrita por um novelista chamado Abel Santa Cruz, que há anos mudou-se do México para a Argentina, Carrossel é um desses fenômenos que a televisão só consegue produzir de tempos em tempos. É, basicamente, um programa que traz aquilo que o espectador mais procura quando liga sua televisão: entretenimento, numa feliz combinação de novidades com discussão de questões que seu público-alvo enfrenta no cotidiano. Por exemplo:
• Num horário dominado por atrações oferecidas aos adultos, Carrossel é uma novela para crianças, interpretada por crianças. Os institutos de pesquisa confirmam aquilo que qualquer pai e mãe de família já puderam constatar por experiência própria. No horário das 8, são os filhos que têm o direito de brigar, gritar, xingar e espernear para assistir ao programa de sua preferência. O pai, que passou o dia no trabalho, não vai criar caso com a filha porque quer ver no Jornal Nacional a quantas anda a apuração da bilionésima fraude da Previdência, ou qual o jeito que Alexandre Garcia encontrará para elogiar pela trilionésima vez o governo Collor.
• Carrossel é um programa infantil mesmo. Os diálogos vão direto ao ponto, o caráter de cada personagem é definido assim que ele aparece em cena pela primeira vez. Bom é bom, mau é mau.
• É uma novela ágil. Não há uma trama central que se arrasta durante meses até que o mocinho fique com a mocinha (ou vice-versa), mas uma seqüência de problemas da vida cotidiana que são solucionados em poucos capítulos. Na versão original, apresentava-se e resolvia-se um pequeno drama a cada dois capítulos. Na versão exibida pelo SBT, em que se somam dois capítulos a cada noite, assiste-se ao começo, ao meio e ao fim de um problema na mesma hora.
• Carrossel fala de problemas do dia-a-dia do público: do menino que não fez a lição de casa, do pai que não tem dinheiro para comprar uma bola de futebol para o filho, da menina que tem dificuldade em se enturmar na classe, do garoto frágil espezinhado pelo grandalhão na hora do recreio.
• A novela é destinada ao público mirim, mas como todo adulto
já teve uma experiência escolar ele pode se identificar com
as situações mostradas em Carrossel. Chico Anysio já
explicou o sucesso de sua Escolinha junto aos adultos com esse argumento.
Escola é um filão rico nas artes. Ele está presente
tanto no romance O Ateneu, de Raul Pompéia, como nas histórias
em quadrinhos de Charlie Brown e em filmes como Ao Mestre com Carinho (alguém
ainda lembra de Sidney Poitier no papel de professor?) e Sociedade dos
Poetas Mortos.

Carrossel, por tudo isso, conquistou um naco do público, apesar dos seus defeitos de dublagem. O fato de se passar no México não chega a ser um empecilho, e pode até estar funcionando como um atrativo. Se o público brasileiro é capaz de se encantar com personagens de filmes americanos, também pode se enternecer com os mexicanos do SBT — aliás, porque o México é muito mais parecido com o Brasil do que os Estados Unidos. É possível portanto acompanhar Carrossel com interesse quando a professora Helena, interpretada por Gabriela Rivero, resolve consolar um menino em dificuldades. Um dos dramas da novela é o amor não correspondido do pequeno Cirilo, negro e pobre, pela malvada Maria Joaquina, loira e rica. Num determinado momento, Cirilo se aproxima da menina para lhe dar flores de presente. Ela rejeita e diz com todas as letras: “Vá se meter com os de sua cor”. Em outra passagem, Maria Joaquina diz que os negros são como macacos e vivem “cheios de pulgas”. Sem saber o que fazer, Cirilo vai reclamar com a professora. “Sou rejeitado porque o pai dela é médico e o meu é carpinteiro”, diz Cirilo. A compreensiva Helena dá um sorriso meigo e responde: “Você sabia que o pai do Menino Jesus também era carpinteiro?”
SEM PALAVRAS LEVES — O cotidiano dos personagens de Carrossel não
tem angústias existenciais nem ginásticas psicológicas,
mas é composto de problemas palpáveis. Um aluno, David, passou
uma jornada dolorosa, às voltas com a doença da avó,
que acabou se recuperando. “Na vida não há dor que não
passe e nem alegria que não termine”, afirma. Outra menina, Marcela,
tem uma dificuldade em casa. Seus pais resolveram se separar. Em Carrossel,
não se fala do divórcio com as palavras leves dos adultos
das novelas da Globo, que se julgam preparados para enfrentar a experiência
de um casamento desfeito, mas com a crueza das crianças que têm
muita dificuldade para entender o que se passa. Para professores e alunos
da Escuela Mundial, o divórcio não é uma contingência
da vida — é desgraça. Outro menino, Jaime, é maltratado
pelo pai, que o considera “muito burro”. Na escola, no entanto, Jaime é
um exemplo de solidariedade, sempre disposto a ajudar os amigos que têm
algum problema. O tom geral de Carrossel é austero. Existem adultos
bondosos, como o bedel Firmino, e adultos autoritários, como dona
Oliva, a diretora da Escuela Mundial. Não existem, no entanto, adultos
problemáticos, daqueles que não sabem por que vieram ao mundo.

Produzida entre 1988 e 1990 nos estúdios da Televisa mexicana, um dos gigantes da indústria de televisão no mundo inteiro, com uma fábrica de novelas e programas mais produtiva que a da Globo, Carrossel é um sucesso latino-americano que muitas pessoas imaginam que só pode acontecer com produtos globais. Foi vendida para duas dezenas de países e depois de explodir na América Latina inteira chegou à Turquia, à China e ao Japão. No Brasil, em apenas quinze dias já se transformou numa mania entre meninos de 7 a 10 anos. Normalmente, os programas bem-sucedidos do SBT recolhem a maior quantidade de matéria-prima para sua audiência junto às chamadas classes C e D, que habitam as fatias menos remuneradas da população. Em se tratando de Carrossel, existem motivos para se acreditar que a escolinha da professora Helena também faz sucesso junto a crianças de outras camadas.
No Externato Aldeia, freqüentado por alunos de classe média de São Paulo, a novela é campeã de preferência. ‘Termos uma atividade em que os alunos contam as novidades que lhes dizem respeito”, diz a pedagoga Heloisa Reuter. “Sempre se falava de uma ida ao dentista ou a um passeio. Pois agora só se discute Carrossel. As crianças contam os capítulos e até fazem desenhos dos personagens.” No Helena Lubienska, no Recife, a novela também agrada. “Carrossel é boa porque nela a gente vê tudo o que pode acontecer”, aflnna Rafada Costa Campos, 9 anos, aluna da 3ª série do Lubienska. “Até a tristeza de menina cujos pais se separaram apareceu num capítulo”, acrescenta a garota, referindo-se ao drama de Marcela. “Mesmo que Carrossel seja um dramalhão, e é mesmo, é nessa novela que as crianças estão identificando valores como respeito, amor, companheirismo, coisas que a humanidade não encontra freqüentemente no seu dia-a-dia nem na TV”, afirma Maria Antonieta Cavalcanti, coordenadora pedagógica do Helena Lubienska. “Logo no primeiro dia, em casa, começou a briga. Nós queríamos ver o jornal e nossa filha queria ver Carrossel”, conta Maria Elizabeth Leite Soares, coordenadora do 1º grau do Colégio Oswald de Andrade, de São Paulo, mãe de uma menina de 6 anos. “Depois, pensamos: temos outras opções de telejornal, e ela só pode contar com essa novela infantil. Conclusão: não estamos mais vendo o Jornal Nacional. Agir de outra forma seria egoísmo”.
O sucesso de Carrossel já rendeu muitas especulações sociológicas e trouxe a público diversas famílias de piruetas mentais. Condena-se a novela por ser um dramalhão mexicano de baixo nível, cheio de situações piegas, demagógicas e inverossímeis. Pode ser. Mas em matéria de verossimilhança é difícil encontrar uma professora tão inacreditável quanto a virgem Márcia (Malu Mader) de O Dono do Mundo. Em matéria de demagogia, conhecem-se poucos exemplos como o do personagem Beija Flor (Angelo Antônio), que já disse no ar que até poderia virar um assaltante porque o salário mínimo “está baixo”. E, em matéria de inverossimilhança, é difícil acreditar na rapidez com que Felipe (Antônio Fagundes) consegue embarcar para o Canadá em companhia da noiva de um funcionário que mal conhece e levá-la para a cama antes do marido.
O debate é estéril e preconceituoso. Estéril porque
é impossível descobrir a fórmula do sucesso. Se a
pobreza digna de Carrossel, em contraponto com a riqueza de O Dono do Mundo,
fosse a chave da explicação do sucesso, os bons índices
teriam batido mais cedo à porta do SBT. Há menos de um mês
a rede de Silvio Santos exibia a novela Brasileiras e Brasileiros, drama
da estirpe realista-socialista, com heróis e bandidos pobres, dirigida
pelo competente Walter Avancini. A novela de Avancini naufragou e foi motivo
de chacotas na Globo. O debate é preconceituoso, também,
em dois sentidos. Primeiro porque se considera o dramalhão mexicano
o ápice da apelação de mau gosto — como se o Brasil
também não fosse um país do Terceiro Mundo e a televisão
brasileira só levasse ao ar novelas escritas por Shakespeare, Marcel
Proust e Machado de Assis. Em segundo lugar porque sempre que alguma emissora
consegue pontos a mais de audiência há uma enorme torcida
em setores da imprensa e nos meios supostamente intelectuais para que o
ibope da Globo deslize para as profundezas do inferno — como se a Globo
não apresentasse boa parte dos melhores programas da televisão
brasileira.

Atingida no centro nevrálgico de sua programação,
a Globo armou um contra-ataque profissional. No domingo dia 2, Gilberto
Braga reuniu-se com Leonor Brassères e Angela Carneiro, que o auxiliam
a escrever a novela, e deu uma garibada em dez capítulos numa só
tacada. Outras mudanças serão feitas a curto prazo. Em suas
linhas gerais, como o conflito da moça de subúrbio com o
cirurgião plástico rico, bem-sucedido e inescrupuloso, O
Dono do Mundo fica como está. O que muda é o tom. A viúva
Márcia, que até há pouco levava sua vida numa boa,
irá passar por uma jornada de sofrimentos cruéis, que terá
início com sua expulsão de casa. “Quando a heroína
é mal compreendida, tem que sofrer para purgar seu crime e ser aceita
pela sociedade”, diz Fernanda Montenegro, que faz a cafetina de luxo chamada
Olga.

ESTAFA — No início da semana passada, o diretor de O Dono
do Mundo, Denis Carvalho, telefonou aos atores para informá-los
das mudanças. Sua instrução foi que ficassem de sobreaviso
e, de imediato, parassem de decorar os capítulos de 25 a trinta,
pois seria perda de tempo. Os novos capítulos só foram distribuídos
na quarta-feira, obrigando o elenco a um esforço incomum para decorá-los
antes da gravação. Em algumas ocasiões, foram gravadas
36 cenas num único dia — mais que o dobro da produção
normal. Na manhã de quinta-feira, Antonio Grassi, o garçom
Darci da novela, que vai expulsar a Márcia de casa, precisou levar
o script para a capela do cemitério São João Batista,
no Rio de Janeiro, onde estava sendo velado o amigo Chiquinho Brandão,
ator da minissérie O Sorriso do Lagarto, que dias antes morrera
num acidente de automóvel. “Com a mudança de todos os scripts,
tivemos que levar os papéis para o velório para terminar
de ler as falas. Ainda assim, Dênis Carvalho deixou os atores entrarem
no estúdio com scripts para colar suas falas”, diz Grassi. Nessa
fase atual, Malu Mader tem sofrido mais que mocinha americana raptada por
bandidos mexicanos. Mal consegue dormir. Sua estafa é tamanha que
na quinta-feira foi obrigada a gravar a mesma cena em cinco oportunidades.
“Tenho que decorar 26 páginas de um dia para o outro”, diz Malu.
“O ritmo de gravações se intensificou e eu não paro
de correr.” Esse esforço da Globo em promover uma reforma geral
na novela é uma tradição em toda emissora que luta
desesperadamente para recuperar pontos no ibope. Mas a outra tradição
é que essas operações quase nunca dão certo.
Às voltas com o erotismo ecológico de Pantanal, a Globo chegou
a mostrar os seios de Cláudia Raia em Rainha da Sucata — o sucesso,
mais que merecido, só durou uma noite. O próprio SBT já
viveu uma experiência semelhante com Brasileiras e Brasileiros. Dizia-se
que uma novela em que heróis e vilões integravam um mesmo
bando de descamisados não seria capaz de chamar a atenção
de ninguém e estava mesmo destinada ao fracasso. Improvisaram-se
os milionários de plantão em escritórios luxuosos
e mansões cheias de novidades eletrônicas. Com sua opção
exclusiva pelos pobres, Brasileiras e Brasileiros chegou a ter 8 pontos
no ibope. Com os milionários, acabou em 5. Em 1967, no exemplo mais
radical de recauchutagem das novelas brasileiras, a falecida Janete Clair
promoveu um terremoto que provocou a morte de 35 dos quarenta personagens
da novela Anastácia. O maior resultado prático foi a economia
com os cenários e cachês de atores e os figurantes dispensados
do serviço.


Toda vez que uma emissora consegue emplacar um programa de sucesso, começa
a circular a teoria de que o país estaria vivendo a aurora de uma
nova fase televisiva, na qual se assistiria ao fim do império da
Globo, capaz de se banquetear com as fatias mais gordas da audiência
e deixando apenas migalhas para seus concorrentes. Seria a famosa pluralização
da TV no Brasil. Que a perspectiva real é que um dia a Globo não
terá mais uma audiência massacrantemente majoritária
é um fato admitido com tranqüilidade pela própria família
Marinho. Há cinco anos os diretores da rede fizeram uma bateria
de reuniões para debater o assunto e concluíram que o conforto
no Ibope não era eterno. Elaborou-se ali mesmo uma estratégia
para enfrentar a nova situação, optando-se pela diversificação
dos negócios do grupo. Também se decidiu que a Globo não
iria acomodar-se à ascensão de concorrentes, mas mobilizaria
os imensos recursos de que dispõe para conservar a faixa de campeã
de audiência onde fosse possível. O azar dos concorrentes
da Globo é que essa situação não chegou, ainda
que se tenham dado passos nesse sentido.

A Globo é uma máquina cara que investe muito mais que seus
rivais, e necessita de um retomo bem maior. Cada capítulo de O Dono
do Mundo, por exemplo, custa 30.000 dólares em média, ou
três vezes mais que os de Carrossel. Mesmo as grandes emissoras dos
países desenvolvidos preferem funcionar como uma espécie
de supermercados de atrações, que adquirem seriados, filmes
e novelas de produtoras independentes, pagando suas contas com a publicidade.
A Globo só não produz os filmes que exibe — e mais de 80%
de sua programação sai de seus estúdios, um caso raríssimo
no mundo. Para tranqüilidade da Globo, a mesma recessão que
está lhe dando prejuízos neste ano pegou suas concorrentes
numa situação muito pior. Sem recursos financeiros de porte,
não há como Manchete, Bandeirantes e SBT montarem uma programação
inteira capaz de enfrentar seriamente a Globo. Elas podem aceitar com Pantanal
ou Carrossel, mas fazer programas de sucesso da manhã até
a madrugada, todos os dias, requer dinheiro, talento e experiência.
Requer tudo aquilo que a Globo tem.

Além de exibir Carrossel, o SBT entra na briga com a Globo pelo horário nobre com uma terceira arma. Junto com a novela estreou há três semanas Aqui Agora, um programa jornalístico que, com freqüência, traz mais surpresas do que notícias. A começar pela equipe de apresentadores. Em vez de Joelmir Beting ou Lilian Witte Fibe, o especialista em assuntos econômicos é o boxeador peso pesado Adilson Maguila. Vestido com smoking e luvas de boxe, ele mostra sua indignação com a recessão econômica desfechando golpes no ar. “O povo não agüenta mais passar fome”, diz. O programa é uma adaptação dos jormais de grande circulação, que carregam nas tintas em se tratando de sexo, violência e noticiário policial. Apresentado de segunda a sexta no horário das 6 e meia da tarde, Aqui Agora tem obtido uma média de audiência acima dos 10 pontos, significativa para o horário.
Além de Maguila, participam da equipe de comentaristas e repórteres
figuras conhecidas, como Gil Gomes, uma das grandes audiências
dos programas radiofônico-policiais de São Paulo, e Jacinto
Figueira Jr., o Homem do Sapato Branco, que já entrevistou um cafetão
no ar. Do alto de sua barba, anunciando-se como representante do povão,
o cardiologista e ex-candidato à Presidência da República
Enéas despeja o seu discurso de Robin Hood da TV. Uma das presenças
de maior destaque é o locutor Luiz Lopes Correa, que durante décadas
marcou sua voz nos microfones da Rádio Globo e responde pelos comentários
internacionais. Sua bossa: uma gravatinha-borboleta sempre presa ao colarinho.
Aqui Agora é inspirado no programa argentino Nuevo Diario, que Silvio
Santos conheceu há cinco anos. Desde então, ele esperava
o momento certo para produzir seu equivalente nacional. Antes de levá-lo
ao ar, Silvio Santos despachou Marcos Wilson e Albino Castro Filho para
Buenos Aires, onde passaram quinze dias acompanhando a cozinha do original.
Fonte:
Revista
VEJA, nº 1.186, de 12 de Junho de 1991