POEMA CLÍNICO
(Amor-Taquicardia)
 
 
Seu amor me dá taquicardia
Disritmia
Tome o meu pulso
Quem já tomou meu coração
Escute o meu peito
Veja quanta emoção!
 
O seu amor penetra todo o meu sistema
Sem problema
Com as agulhas hipodérmicas
De suas caricias térmicas
Do contágio dos seus beijos
À febre de meus desejos
 
Você é a minha saúde e a minha dor
Meu amor
É você que me transtorna
Você é o meu caso clínico
De amor.
 
(1985)
 
 Poema Morfossintático
(A Um Amor Impossível)
 
 
O que era anacoluto 
Hoje é um termo essencial 
Na minha estrutura oracional
 
O que era um realce 
Hoje é um termo integrante 
De um sirrema importante
 
O que nem era ADN
É mais que termo acessório
Em um sintagma provisório
 
Você quebrou
A regularidade de meus verbos
Você inverteu
A ordem direta de meus termos
 
Você é o lindo desvio
De minha linguagem padrão
Você é a minha silepse
Que a Norma Culta não aceita
Como discordância perfeita
 
(1985)
 
 
 
Poema Morfossintático
(Amor Intransitivo)
 
 
Não devia aceitar você
Assim como o particípio
Não aceita a ênclise
 
Sou o seu adjetivo
Mas eu não a modifico
Eu que queria em você
Uma mudança radical
 
Mas você não muda
Você é invariável
É um verbo intransitivo
Jamais terá voz passiva
 
Portanto, vamos viver insensatos
Como termos não-cognatos
Até o fim do período
Sem virgulas e ponto-e-vírgulas
Até o ponto-final
 
(1935)
 
POEMA CIBERNÉTICO  
(Sê Meu Outro Dígito)  

 
 

Bit bit ... bit, bit 
Bate o meu coração 
Em ritmo binário 

Quero penetrar no teu sistema 
Quero digitar o teu corpo todo 
Falar a linguagem das mãos 
Que é a linguagem do amor. 
Numa mensagem sinestésica, 
Muito além da linguagem COBOL, 
Muito mais forte que a FORTRAN, 
Pois o canal é tátil, gustativo, olfativo. 

Vem 
Analisa o meu sistema 
Numa base emocional 
Extracomputacional 

Bit,bit . bit bit 
Dar e receber amor: 
Um eterno feedback 

input   --  amor entra 
Output - amor sai 
Ninguém sabe o que acontece 
Entre um input e um output. 
Nem mesmo a máquina das máquinas 
O computador 
Não computa a dor. 

Vem 
Sê meu outro dígito 
E eu te mostrarei o êxtase cibernético 
De uma programação a dois. 

(1985) 

 
 
 
POEMA MATEMÁTICO
(A Matemática do Amor)
 
 
Na matemática do amor
Sou um conjunto vazio
Uma alma solitária
Quero um denominador
Mas sem fração ordinária
Quero a parcela correta
Para ter minha adição
Quero a coeficiência
Da minha parte literal
Não quero um zero à esquerda
De uma seqüência banal
 
Quero amar ao quadrado
Quero ver a conseqüência
Da relação de pertinência
Surgindo com toda a emoção
Como um ser reacionário
Do ponto de intersecção
De dois conjuntos unitários
Na matemática do amor
Um mais um podem ser três
 
(1985)
Amor de Arquivo
 
 
 
Microfilmei sua imagem
Arquivei-a no meu coração
O tempo há de passar
Mas nunca você há de entrar
Para o meu arquivo morto
Ficará lá, na letra "M"
Na primeira pasta suspensa
Segundo a ordem alfabética
Ditada pela emoção
Contrariando a razão
Podem quebrar nosso sigilo
Podem tentar nos destruir
Nós dois fomos programados
Para viver arquivados
Um no coração do outro
Seja qual for a tecla que apertem
Jamais apagarão nossas memórias.
 
(21.06.86)