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GMail e a ameaça aos direitos civis

Hudson Lacerda

Publicado no Observatório da Imprensa em 15 de março de 2005.
Versão revisada em 19/03/2005.

Existem hoje inúmeros Provedores de Serviços de Internet (PSIs). Vários deles oferecem alguns serviços gratuitos, tais como acesso discado à rede, contas de e-mail e hospedagem de sítios. Mas o que exigem dos usuários como contrapartida nem sempre está claro e justo. Algumas formas de retorno na verdade são bem conhecidas, como inclusão de anúncios publicitários nas mensagens de e-mail e nas páginas hospedadas, e a promoção desse serviço publicitário através do aumento do número de acessos/visitantes/usuários. Mas em certos casos parece que os usuários pagam ainda de outras maneiras por esses serviços.

O conhecimento de dados pessoais e do comportamento dos usuários comuns de Internet (ou seja, seu perfil) passou a ser, ao que consta, um dos principais focos de interesse dos serviços on-line. Se assim não fosse, porque tantos cookies, programas `discadores' especiais (alguns, estranhamente, de uso compulsório), toolbars para navegadores e recursos similares? Acontece que a coleta das informações muitas vezes é realizada de maneiras que põem em risco a privacidade, a segurança e direitos civis dos usuários, e os coloca em posição desfavorável na balança do poder, poder que está cada vez mais ligado ao controle sobre a informação.

Para exemplificar minhas preocupações quanto a serviços desse tipo, apresento aqui minhas observações com relação ao GMail, serviço gratuito de e-mails fornecido por Google (http://gmail.google.com/gmail/help/about.html). (Note-se que vários dos problemas aqui referidos não são exclusivos do GMail ou de serviços gratuitos: há PSIs bem-pagos que não demonstram muito respeito pela privacidade de seus clientes.)

Embora tenha sido lançado ainda em 1o. de abril do ano passado, vim saber da existência do GMail apenas no final do ano (acho que foi em novembro), quando um colega me enviou uma curta e entusiasmada mensagem na qual oferecia, se eu quisesse, um de seus últimos convites para o GMail. Minha ação imediata foi pesquisar na Internet por `gmail', e o que li do próprio sítio do serviço me fez declinar o convite: 1.000 MB (praticamente 1GB) de dados pessoais `inapagáveis' em poder de terceiros.

No início de fevereiro recebi, de outro conhecido, um convite para me subscrever no GMail (vários outros convites me foram remetidos até o presente). Então enviei a esse conhecido uma breve mensagem, na qual deixei claro que acho o GMail uma péssima idéia, e ele ficou muito surpreso com minha opinião, me pedindo para explicá-la.

Vi-me motivado a pesquisar novamente e com mais profundidade o assunto, e terminei chocado com o que encontrei (http://gmail.google.com/gmail/help/privacy.html, http://gmail.google.com/gmail/help/terms_of_use.html):

Observando o fato de os CMIs (Centros de Mídia Independente) serem de tempos em tempos alvo de serviços como FBI -- o que os levou a não armazenar os IPs dos seus visitantes (http://prod.brasil.indymedia.org/pt/blue//2004/11/293546.shtml), o que se percebe é que grandes bancos de informações pessoais como o do GMail (e do Orkut, seu `grande irmão') representam uma ameaça aos direitos civis e criam uma estrutura favorável a abusos de poder.

Diante do quadro apresentado, lanço então algumas questões:

Apesar de ainda existir polêmica quanto à adoção preferencial de software livre para uso governamental (polêmica gerada por uma minoria interesseira), especialmente se disposta em lei, fico imaginando como o software livre e protocolos abertos poderiam ajudar a minimizar os problemas de privacidade no meio digital:

Gostaria de terminar este artigo com uma comparação. No início da década de 80 poucas pessoas dariam e deram importância ao então novo modo de comercialização de software, com código-fonte secreto, hoje conhecido como `software proprietário': ele não parecia danoso aos usuários. Mas ``Saint IGNUcius'' tinha visão ampla, e então graças a Richard Stallman e seu projeto GNU (http://www.gnu.org) podemos hoje gozar, usando software livre, de considerável liberdade e autonomia no uso de computadores, no momento em que as garras do software proprietário se tornaram mais cortantes. De fato, software proprietário tornou-se agora (talvez com raríssimas exceções) uma maneira indigna e degradante de usar computadores.

De maneira similar, questões como essas suscitadas pelo GMail talvez ainda não pareçam alarmantes a boa parte dos usuários de e-mails (quiçá, até, a situação não esteja perigosa demais ainda). Mas se não nos mantivermos em alerta, como poderemos defender nossos direitos em um mundo no qual a informação é cada vez mais importante e está cada vez mais centralizada, tornando-se um meio de detenção de poder?


Links

Seguem-se mais alguns links sobre o GMail.

Críticas:
http://www.epic.org/privacy/gmail/faq.html

Crítica irreverente:
http://www.google-watch.org/gmail.html
http://www.google-watch.org/sergey.html

Defesa do GMail:
http://www.templetons.com/brad/gmail.html
http://www.libertaddigital.com/opiniones/opi_desa_18153.html


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