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Flashes de um cerceamento digital da sociedade
Hudson Lacerda (22 de dezembro de 2004)
[Última revisão em: 23 de dezembro de 2004]
À medida em que recursos tecnológicos digitais ocupam mais espaço em nossas vidas, através do uso de computadores, acesso à Internet, contas de e-mail, senhas bancárias, urnas eletrônicas, identificação biométrica, corremos enorme risco de perder – e de fato estamos pouco a pouco perdendo – direitos pessoais e sociais básicos.
Deve-se ter em mente que os novos recursos tecnológicos, por si mesmos, representam enorme avanço, com benefícios potenciais e concretos à sociedade. Porém, quero alertar aqui sobre riscos que corremos se acreditarmos na tecnologia digital como panacéia, e em especial sobre os riscos que corremos ao confiarmos nossas vidas a máquinas controladas por outrem.
Esses riscos não são decorrentes dos recursos tecnológicos, mas são planejados por aqueles que têm como manter o controle sobre sua produção e uso: empresas de software (programas de computador) e hardware (computadores e outros equipamentos digitais), além de empresas de “conteúdo” (produtores, editores, estúdios), que têm constituído lobbies para colocar em lei seus objetivos.
Senhas eletrônicas são seguras? Você escolhe por que processo sua senha de banco é definida e processada? Foi aprovada no Brasil uma lei que reza que a autenticação digital pode ser realizada por qualquer processo que seja escolhido de comum acordo entre as partes (isso inclui, é claro, débitos em conta corrente através de cliques com o mouse).
Fato é que a grande maioria de nós não tem a mínima condição de avaliar métodos de criptografia, e fica refém dos métodos escolhidos pelos bancos, lojas virtuais, governos etc. Quando ocorre uma fraude, como comprová-la? Dizem que a senha bancária é de responsabilidade exclusiva do correntista: em caso de saques fraudulentos, cabe ao correntista comprovar que não foi ele quem realizou os débitos. Afinal, somente o correntista sabe sua senha, e o sistema é “seguro”. Faz-se vista grossa para o fato de que o processo de autenticação não se realiza magicamente ao digitar a senha. Será que não pode haver falhas no equipamento no qual a senha é digitada, ou durante a transmissão dos dados (impossível interceptá-la), ou no software que processa a autenticação? Ou ainda, o banco de dados dos correntistas é inviolável? Todas as pessoas que controlam esse processo são idôneas? Por quê deve-se confiar plenamente nelas?
Ver: http://www.cic.unb.br/docentes/pedro/trabs/oab.htm
As mesmas questões podem se aplicar à identificação através de biométrica. Pode ser fato que não há duas pessoas na Terra com um certo padrão de íris, o que é papagaiado na mídia como um argumento para a confiança total nesse processo. Novamente: e quanto ao equipamento (câmeras, processadores, softwares, [de]codificadores), ao processo de transmissão de dados (transmissores, cabos, rádio, satélites), ao banco e dados e seu gerenciamento (certamente feito por seres angelicais)? Não pode haver falhas e má-fé?
Ver: http://www.cic.unb.br/docentes/pedro/trabs/biometrica.htm
A cada processo eleitoral, representantes do TSE e dos TRE's afirmam que a urna eletrônica brasileira é 100% segura e confiável, pois pouquíssimas pessoas conhecem seu funcionamento. Essas incluem a empresa que criou o software e alguns técnicos do TSE.
Acontece que, com a urna eletrônica atual, o processo eleitoral se tornou inauditável, com os fiscais de partido ficando como palhaços na sua tarefa de “fiscalização”. O eleitor não tem como saber em quem realmente votou, devendo simplesmente acreditar que a urna eletrônica se comporta como deveria. O eleitor, cuja vontade é supostamente expressa através do voto eletrônico, não tem garantia de que sua ação de votar representa a sua vontade.
O TSE reservou para si o direito (poder) exclusivo de controlar e fiscalizar as eleições. Porém, como é o TSE quem as realiza, o TSE também deveria necessariamente ser fiscalizado, o que é impossível atualmente. De novo, temos que confiar que o TSE é composto exclusivamente por seres angelicais, e que as urnas eletrônicas são por eles abençoadas e, portanto, imunes a fraudes e falhas.
Ver:
http://www.cic.unb.br/docentes/pedro/trabs/jcsbc4.htm#1
http://www.cic.unb.br/docentes/pedro/trabs/analise_setup.html
http://www.cic.unb.br/docentes/pedro/trabs/catsumi.html
http://www.cic.unb.br/docentes/pedro/trabs/queda.htm
http://www.votoseguro.org/index.htm
Hoje em dia é comum pessoas que possuem computador colocarem nele informações importantes (pessoais, profissionais, financeiras etc.). Mesmo aquelas que não possuem computadores têm informações armazenadas em computadores alheios (da escola, do banco, do governo, do provedor de e-mail etc.). Algumas dessas informações deveriam ser confidenciais, inacessíveis a terceiros. Porém isso já não ocorre em muitas situações. As pessoas vêm perdendo o direito de ter o controle exclusivo sobre seus dados, sob a alegação de “proteção de Copyright”.
Ver: http://www.gnu.org/philosophy/copyright-and-globalization.html
Equipamentos eletrônicos têm sido projetados para que o usuário tenha acesso restrito a dados, mesmo que ele tenha direito de acessar esses dados. Isso ocorre, por exemplo, com gravadores de MD, que contêm entradas de dados digitais, mas não têm saídas digitais. Assume-se que o usuário fará uso ilegítimo do aparelho (violação de direitos autorais), e, como resultado, mesmo os dados que o usuário tem direito legal de controlar são restringidos pelos aparelhos: o direito de uso existe na lei, mas não pode ser exercido na prática.
Ver: http://www.toad.com/gnu/whatswrong.pt.html
Um outro exemplo, muito mais preocupante, é o da política atual da empresa Microsoft, cujos produtos de software dominam o mercado. A Microsoft, através dos Contratos de Uso de seus programas (EULA's), impõe aos usuários – freqüentemente sem que eles saibam – o controle sobre seu sistema e seus dados, alegando “proteção” de Copyright.
O Windows XP é programado para acessar computadores da Microsoft e transmitir informações sobre o computador do usuário, podendo inclusive inutilizar o sistema operacional se a informação (programas, arquivos, e mesmo componentes de hardware) for considerada incompatível com os interesses da empresa. Há pelo menos 16 maneiras de o sistema Windows XP acessar a Microsoft, inclusive enviando dados sobre quais vídeos e músicas o usuário assiste com o Windows Media Player.
Ver:
http://www.dcc.ufmg.br/solar/documentos/winxp2.html
http://www.cybersource.com.au/cyber/about/comparing_the_gpl_to_eula.pdf
Tal tipo de controle sobre o computador do usuário, realizado em software pelo Windows XP, planeja-se realizar em hardware (tal como nos aparelhos de MD). O TCPA (Trusted Computing Platform Architecture - Arquitetura de Plataforma para Computação Confiável) é um projeto de lei proposto nos EUA, que obriga todos os equipamentos de acesso a informação sujeita a Copyright (computadores, aparelhos de DVD, CD etc.) a conter um dispositivo de controle de acesso. Esse dispositivo deveria entrar remotamente em contato (através da Internet) com um controlador de Copyright, que autorizaria ou bloquearia o uso do aparelho para acessar a informação.
Como disse John Gilmore em http://www.toad.com/gnu/whatswrong.pt.html:
“TCPA não é sobre avisar a VOCÊ se você pode confiar em seu próprio PC (por exemplo, se ele tem um vírus), ele não inclui esta função. Ele existe para relatar a gravadoras se você tem instalado qualquer software que permite que você faça cópias de MP3s, ou qualquer software livre que permita passar por cima de qualquer sistema fraco de proteção que a companhia de gravação use.”
Somente empresas de publicação (mediadas ou autorizadas pelo governo) teriam o direito de dizer o que poderíamos ou não acessar. Além disso, o dispositivo de controle não seria livre, mas cada empresa de hardware deveria obter direito de conhecer e usar o processo, pagando royalties e mantendo segredo sobre seu funcionamento.
Em caso de problemas, o usuário não conseguiria nem mesmo iniciar seu computador. Uma outra conseqüência terrível do TCPA é que ele impossibilitaria (criminalizaria) o uso de software livre. Embora seja uma proposta para os EUA, existe o risco de sua expansão geográfica por meio de acordos e associações internacionais, como a ALCA, por exemplo.
Ver:
http://www.gnu.org/philosophy/can-you-trust.html
http://www.toad.com/gnu/whatswrong.pt.html
http://www.gnu.org/philosophy/copyright-and-globalization.html
Recentemente ouvi dizer sobre um projeto de computador por aluguel por acesso remoto: o usuário contrataria um serviço, alugando um terminal de computador, que não faria processamento nem armazenaria dados: isso seria feito em uma máquina remota, sob controle da empresa que prestaria o serviço. Essa idéia é apontada como uma possível solução para a inclusão digital (acesso a tecnologia digital por todas as pessoas).
Me pergunto que benefícios isso poderia trazer aos clientes, e se esses benefícios compensariam os riscos e restrições envolvidos. Seria seguro usar um tal serviço? Que restrições seriam impostas aos usuários? Já é difícil (lembre-se do Windows XP) confiar em software proprietário instalado em máquina própria (mesmo podendo-se controlar ainda quando ela será ou não conectada à Internet); quem ficaria satisfeito em confiar seus dados a máquinas remotas controladas por outrem? Ou, dito de outra maneira, quem teria a opção de não precisar colocar seus dados nessas máquinas, se esse serviço se tornar popular e formos forçados a utilizá-lo?
Empresas fornecedoras de software freqüentemente oferecem algumas licenças de uso de software gratuitamente. Algumas vezes argumentam que com essa atitude contribuem para a inclusão digital e para a redução da “pirataria de software”. O que obtêm com esse suposto altruísmo é publicidade e mais usuários (se esses usuários se tornarem dependentes do software, constituirão uma massa crítica funcionando como uma reserva de mercado). Programas e formatos de arquivos, se amplamente utilizados, tendem a se tornar padrões de facto, gerando dependência tecnológica e favorecendo monopólios.
Inclusão digital deve libertar as pessoas de limitações impostas por exemplo por situação econômica desfavorável, e mesmo superar essa situação. Programas de inclusão digital que usem software não-livre geram dependência, não cidadania.
Ver: http://www.cic.unb.br/docentes/pedro/trabs/eucaristia.html#ameaca
Aprender a usar computadores tem sido confundido com aprender a manipular um mouse. Muitos programas não-livres têm interfaces fáceis de usar (“amigáveis”), associadas à proibição de estudar como o programa funciona. Não é necessário aprender, basta (comprar e) usar! Embora seja desejável que programas sejam fáceis de usar, deve ter clareza sobre a natureza de um computador. Daí a pergunta: “para que serve um computador”?
Existe a tendência de responder a essa pergunta listando diversas utilidades específicas para essa máquina: “serve para escrever textos, desenhar, calcular, mandar mensagens eletrônicas, navegar pela Internet etc. etc. etc.” Embora isso não seja falso, desloca a questão. Em realidade, escreve-se com um programa de edição e formatação de texto, desenha-se usando um software de gráficos, calcula-se com programas matemáticos e de planilhas, navega-se na Internet por meio de um “browser” e assim por diante: essas funções são dos programas, não exatamente do computador. Um computador serve para realizar tarefas para as quais for programado.
Dados os numerosos softwares livres disponíveis atualmente, não é necessário, por exemplo, escrever um programa de edição de textos para cada texto a escrever: já há “inteligência potencial” armazenada como código-fonte (e executável) de programas existentes. É improdutivo reinventar a roda: para acrescentar um recurso, escreva apenas o código necessário (ou peça a alguém para fazê-lo). Mas o mercado de software proprietário, com código secreto e novas “facilidades” (geralmente dispensáveis) a cada versão lançada, se beneficia da ignorância dos usuários e por isso a estimula, criando necessidades artificiais e forçando-os a satisfazê-las.
Acredito que usar plenamente um computador implica ser capaz de programá-lo, ou de, no mínimo, controlar de forma precisa sua execução. Para isso é necessário algum conhecimento sobre seu funcionamento, o que parece se tornar cada vez mais difícil, especialmente com alguns desses “novos recursos” que tiram do usuário seu controle sobre sua máquina: “Não se preocupe, apenas confie: você não precisa saber como, mas nós iremos tomar conta de seus dados: basta clicar OK”.
Nossa salvação são os hackers. Ou melhor: nossa salvação é nos tornarmos hackers. Mas o que é um hacker? Esse é um termo que tem sido muito utilizado nos meios de comunicação em um sentido pejorativo. O sentido original da palavra hacker é lenhador, ou alguém que constrói móveis usando apenas um machado. Seu uso em informática foi iniciado por programadores do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusets) para referirem-se a si mesmos, significando programador de computadores (muito) habilidoso.
Esse sentido foi deturpado, e mesmo que muitos programadores hoje em dia – geralmente envolvidos em desenvolvimento de software livre ou de código acerto – se considerem hackers, o termo é usado como se significasse “piratas da Internet” (como noticiários da TV Rede Globo insistem em repetir). Aqueles que praticam crimes por meio de computadores são crackers (pessoas que quebram), não hackers (pessoas que constróem). A confusão é aumentada pelo uso do termo hacker por muitos crackers (referindo-se a si próprios).
Penso que essa campanha de difamação de hackers nos meios de comunicação está associada à campanha contra software livre. Como muitos desenvolvedores de software livre consideram-se hackers, difamar esse termo (e conseqüentemente essas pessoas) é uma forma de publicidade negativa contra programas livres como o Linux, por exemplo.
Mas, repito, os desenvolvedores de software livre – os hackers – têm um papel crucial na defesa dos direitos e liberdades sociais que empresas têm procurado restringir através de meios tecnológicos cada vez mais sofisticados. Como diz a letra da “Free Software Song”, quando tivermos suficiente software livre, poderemos chutar para longe essas licenças de uso sujas.
Ver:
http://en.wikipedia.org/wiki/Hacker
http://pt.wikipedia.org/wiki/Hacker
http://www.elsewhere.org/jargon/html/entry/hacker.html
http://www.cic.unb.br/docentes/pedro/trabs/hackers.htm
http://www.cic.unb.br/docentes/pedro/trabs/hackers2.htm
http://www.gnu.org/music/free-software-song.html
Bem, o software livre não resolve todos os problemas, mas resolve uma boa parte dos problemas relacionados a abusos efetivados através de tecnologias digitais.
Software livre não é um tipo diferente de software. O que o distingue de software não-livre é sua licença de uso. De acordo com a Free Software Foundation, software livre é distribuído de modo a garantir aos usuários quatro formas de liberdade:
Liberdade de executar o programa para qualquer propósito;
Liberdade de estudar como o programa funciona e de adaptá-lo segundo as necessidades;
Liberdade de redistribuir cópias do programa de modo a ajudar o próximo;
Liberdade de aprimorar o programa e tornar os aprimoramentos disponíveis para outras pessoas.
Para pleno exercício dessas formas de liberdade, o código do programa deve ser acessível. Por esse motivo, a forma preferencial de distribuição de software livre é como código-fonte.
Software livre é confiável (pode-se estudar o quê ele faz e como o faz), aprimorável (mesmo que o autor não esteja mais desenvolvendo o programa, outras pessoas podem desenvolvê-lo), compatível (não há “obsolescência programada”, isto é, necessidade de obter um novo computador ou nova versão do programa devido a incompatibilidades artificiais), adaptável (pode-se personalizá-lo em sua funcionalidade, e não apenas “cosmeticamente”), compartilhável (pode-se copiá-lo à vontade), reutilizável (não há limites ao seu uso; partes de um programa podem ser usadas para criar novos programas) e muito mais.
Ver:
http://www.gnu.org/philosophy/free-sw.pt.html
http://www.gnu.org/philosophy/categories.pt.html
FUD (Fear, Uncertainty and Doubt – Medo, Incerteza e Dúvida) é um termo para expressar uma forma de propaganda “terrorista”. FUD (que se pronuncia como fudge – borrão) é divulgado para obscurecer e amedrontar pessoas de modo que tenham receio de mudanças. FUD é usado como propaganda contra software livre, com objetivo de deter o aumento de seu uso, para que algumas empresas possam manter o monopólio sobre seus “produtos”. Eis alguns exemplos de boatos relacionados a software livre:
Nos Estados Unidos da América do Norte, empresas de software proprietário conseguiram explorar brechas na lei de patentes, possibilitando que algoritmos e softwares (uma forma de codificação de um procedimento) pudessem ser patenteados.
Diz-se que o kernel (núcleo de sistema operacional) Linux violaria mais de 200 patentes. Ameaçam-se empresas que utilizam Linux de processo por violação dessas patentes. Porém não há informação sobre quais trechos do código do Linux violariam patentes, de modo que seus desenvolvedores não têm como substituir esses trechos.
Soluções banais têm sido patenteadas, tornando a programação uma atividade comparável a caminhar em terreno minado.
O problema das patentes de software não é apenas a criminalização do Linux: algoritmos são formulações matemáticas, e não poderiam ser patenteadas. A lei brasileira não permite a concessão de patentes de algoritmos e procedimentos técnicos.
Microsoft têm investido maciçamente em propaganda “anti-Linux”, argumentando que o TCO (Total Cost of Ownership – Custo Total de Propriedade) de sistemas operacionais baseados em Linux seria mais alto que o TCO de sistemas Microsoft. Esse custo envolveria não apenas custo de aquisição e licenciamento de software mas também custos de treinamento, atualização e “migração” de software.
O TCO é utilizado como argumento em contrapartida à gratuidade de uso dos sistemas livres, que implica em significativa economia em licenças de uso.
Mesmo que os custos de migração e manutenção possam ser altos na adoção de sistemas livres, o TCO tende a se reduzir a médio e longo prazo, e com certeza compensa os ganhos em segurança, autonomia e soberania. É por isso que diversos governos (França, China, Venezuela, Brasil – e mesmo EUA) vêm adotando sistemas baseados em Linux na administração pública.
Diz-se que programas distribuídos como software livre seriam menos eficientes e produtivos que os programas proprietários disponíveis. Enquanto isso pode ser verdade em algumas áreas, tem-se exagerado sobre a suposta “imaturidade” de programas livres. Atualmente sistemas GNU/Linux dispõem de interface amigável e numerosos e flexíveis recursos para uso eficiente. Há pacotes de escritório livres (OpenOffice.org e Koffice, por exemplo), browsers (Mozilla, Konqueror), clientes de e-mail (Mozilla), ferramentas de desenvolvimento e muito mais. Se a produtividade é ainda em algumas áreas, trata-se de uma questão de tempo o aprimoramento dos programas.
(Certamente, reiniciar o sistema algumas vezes por dia deve ser algo considerado muito produtivo por usuários de Windows. A propósito, sistemas GNU/Linux podem ficar ligados ininterruptamente por anos a fio, sem necessidade de reiniciá-los. De minha parte, considero-me no paraíso ao usar somente software livre.)
“Software livre não abre arquivos em formato X ou Y.” Trata-se de uma falácia de confusão de causa e efeito. Software livre é altamente compatível com formatos de arquivos abertos (como os protocolos de Internet, HTML, RTF, PostScript, WAV, MIDI, PDF, SQL etc., padrões com especificação aberta), e parcialmente compatíveis com alguns formatos fechados (DOC, PPT etc., formatos arduamente estudados – de forma legal – com técnicas de engenharia reversa, tornando possível abrir tais arquivos com o OpenOffice.org, por exemplo).
O problema é que os formatos fechados são feitos para que a empresa criadora detenha o poder sobre seu uso, o que é claramente incompatível com software livre, em que tudo é feito “às claras”, com código-fonte aberto.
Existe ainda o acréscimo por empresas de software proprietário de “recursos especiais” para formatos abertos em seus programas: com isso criam-se “dialetos” de formatos abertos, com o objetivo de tornar seus arquivos incompatíveis com programas concorrentes. Por outro lado, em sua maioria, softwares livres aderem fielmente aos padrões abertos, garantindo plena compatibilidade com outros programas.
Qual servidor é mais seguro: IIS ou Apache? Qual sistema respeita os dados de seus usuários: XP ou GNU? “Por ser de código aberto, o Linux está mais sujeito a crackers.” Alguém já ouviu falar de vírus para Linux?
Não se deve confundir segurança com ilusão de segurança. Um anti-vírus atualizado pode dar essa ilusão, mas não torna o computador imune a vírus e invasões.
Falhas de segurança em software livre são com freqüência corrigidas rapidamente, logo que sejam identificadas. Milhares de programadores podem analisar o código e corrigir os problemas (“Todos os erros são banais se há olhos suficientes”).
Em contraste, falhas em software proprietário com freqüência são corrigidos somente após divulgação ampla, que ameace a imagem da empresa. Além disso, somente um número pequeno de pessoas tem acesso ao código-fonte, o que dificulta sua correção, que pode ser de baixa prioridade – especialmente se considerarmos que há empresas de software que “não estão no negócio de corrigir bugs, mas de adicionar funcionalidade”.
“Como o software livre é obtido gratuitamente, não há garantia nem suporte.” Isso pode ser verdadeiro. Mas não significa que licenças de uso de software proprietário incluem suporte e garantia. As garantias nesse caso são limitadas, e não há necessariamente suporte técnico. Também isso não significa que não pode haver garantia ou suporte para software livre: de fato há empresas que oferecem esses serviços (Conectiva, MandrakeSoft etc.).
Ver:
http://en.wikipedia.org/wiki/FUD
http://www.cic.unb.br/docentes/pedro/trabs/mandarino3.htm
http://www.cic.unb.br/docentes/pedro/trabs/ssi2001.htm
http://www.cic.unb.br/docentes/pedro/trabs/freesoft.htm
http://www.cic.unb.br/docentes/pedro/trabs/fisl2003.htm
http://www.cybersource.com.au/cyber/about/comparing_the_gpl_to_eula.pdf
http://www.goldmark.org/netrants/no-word/attach.html
Certamente alguns leitores ficarão surpresos com o motivo que foi a gota d'água para a escrita deste texto.
A gota d'água foi o recebimento por mim de uma mensagem de e-mail que não continha nenhum texto, mas trazia consigo três arquivos anexos, em formato HTML contendo links para arquivos SWF (Macromedia ShockWave-Flash). O conteúdo desses arquivos me é inacessível, pois eles requerem um programa específico, produzido e distribuído unicamente pela empresa que criou esse formato de arquivo. Alguém me dirá, com toda probabilidade: “Mas, o programa é disponível gratuitamente para download a partir do site da empresa e todo mundo o usa.”
Flash tem se tornado um formato para multimídia (especialmente animações) muito difundido na Internet. Muitos sítios hoje assumem que os visitantes têm o plug-in para leitura desse formato, forçando-os a obtê-lo desse fornecedor único, constituindo assim um padrão de facto.
Existem alguns projetos de desenvolvimento de software livre para manipulação de arquivos SWF, mas como o formato é fechado e a empresa dificulta o desenvolvimento de programas alternativos, dificilmente se conseguirá (embora seja parcialmente possível) atingir um grau de compatibilidade satisfatório com as versões recentes do formato.
A Internet se desenvolveu com formatos de arquivos e protocolos abertos, além de software livre. Utilizar como padrões de comunicação formatos de arquivos fechados, que somente podem ser interpretados por programas proprietários (de fornecedor único) é prejudicial à transmissão e compartilhamento de informações. Se o remetente da referida mensagem quisesse realmente que eu a lêsse, deveria ter usado os formatos amplamente acessíveis, possivelmente apenas texto escrito com caracteres ASCII no corpo da mensagem. Mas, muito provavelmente, o remetente não tinha consciência das conseqüências de sua atitude.
Eu visitei o sítio da Macromedia. O programa (Macromedia Flash Player 7) está mesmo disponível gratuitamente. A ação de “apertar um botão” para iniciar o download do programa implica aceitação dos termos de uso (que felizmente pode ser lido previamente). Um item do contrato de uso (EULA) foi suficiente para que eu desistisse de fazer o download (http://www.macromedia.com/shockwave/download/license/desktop):
“2. You agree that Macromedia may audit your use of the Software for compliance with these terms at any time, upon reasonable notice. In the event that such audit reveals any use of the Software by you other than in full compliance with the terms of this Agreement, you shall reimburse Macromedia for all reasonable expenses related to such audit in addition to any other liabilities you may incur as a result of such non-compliance.”
Embora eu não esteja interessado em usar o programa a não ser para acessar informação na Internet, isso me fez lembrar da “auditoria” realizada pelo Windows XP (http://www.dcc.ufmg.br/solar/documentos/winxp2.html), prevista sob “nota razoável” apresentada quando da instalação do sistema (http://www.cybersource.com.au/cyber/about/comparing_the_gpl_to_eula.pdf). De fato, a maneira mais eficiente de realizar tal auditoria (especialmente em um programa feito para Internet) é remotamente, através de algum recurso embutido no programa para acessar a empresa e informar quando, onde e como o programa está sendo usado. Não posso afirmar que exista tal recurso na versão atual, mas, existindo, a observação de dados do computador do usuário poderia ser iniciada a qualquer momento, anunciada por uma “nota razoável” no sítio da empresa.
O programa, por ser distribuído apenas em forma binária (um amontoado de “zeros” e “uns”), não pode ser analisado (isso é expressamente proibido na EULA). Não se sabe o que ele realmente faz, somente deve-se confiar nele. E é aqui que está o problema da adoção (ou reconhecimento) do formato Flash como um padrão de facto. Eventualmente nos tornaríamos dependentes da Macromedia, assim como muitos são dependentes da Microsoft e reféns de sua política empresarial.
Software livre é diferente de software gratuito. Software livre protege a liberdade do usuário; Software (não-livre) gratuito freqüentemente é como uma droga oferecida por um traficante: não se paga pela primeira dose, mas através dela cria-se uma dependência, que é então utilizada como meio de exploração.
Não instalo software não-livre em meu computador. Nem aceito ser induzido a fazê-lo.
Hudson Flávio Meneses Lacerda
Sobre os malefícios de formatos de dados proprietários, ver:
http://www.podval.org/~sds/data.html
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