Parto Normal: Por Que é Melhor

    Em Brasília, inicia-se um movimento a favor do parto normal, movimento este que já existe no mundo inteiro. Por enquanto, o índice de cesárias é de 50% a 70% nos hospitais privados, enquanto nos hospitais públicos a taxa é de 20% a 30%. A Organização Mundial de Saúde diz que uma boa taxa e cesáreas deveria girar em torno de 10% a 15%. A preferência dos médicos pelas cesáreas é que um trabalho de parto dura em média doze horas enquanto uma operação dura duas horas.
    De acordo com o ginecologista e obstetra Dr. Neniomar Nenio de Carvalho, a cesariana é indicada quando o bebê não tem como nascer de parto normal. Nestes casos, a operação evita sofrimentos tanto para a criança quanto para a mãe. Segundo o Dr. Neniomar "quando existe a desproporção entre o tamalho do feto e a bacia (canal de parto da peciente) ou quando o trabalho de parto é destruído por alguma intercorrência obstétrica, como, por exemplo, má posição, prolapsos, sofrimento fetal, estafa e outros, ou ainda, quando o obstetra experiente prevê um desenlace final desvantajoso para mãe e o bebê como quando há necessidade de um parto fórcipe", que é a retirada da criança através de uma pinça específica para este tipo de situação.
    A mãe de Carlos Cunha Takamatsu, Rúbia Cunha de Mendonça, 26 anos, conta que seu parto foi um dos mais rápidos do hospital no dia em que seu filho nasceu mesmo sem ter feito exercício de preparação. Ela diz que "depende de cada mulher" ter um parto ser longo ou curto. Com ela não pôde fazer exercícios físicos por ter tido um início de gravidez complicado, o médico recomendou que ela tivesse muita calma e tranquilidade. "Assim como eu, ele optou pelo parto normal, por achar que eu me recuperaria mais rápido. Eu só fiquei sabendo que estava em trabalho de parto porque minha bolsa arrebentou", completa. Para Rúbia "no final das contas, a sensação de se ter um filho de parto normal é maravilhosa!".
    Beatriz H. Figueira, 38 anos, mãe de duas meninas, não pôde optar pelo parto normal. Suas duas filhas nasceram de cesárea. "A primeira nasceu de cesárea porque o cordão umbilical estava enrolado no pescoço da criança e o médico ficou receoso de que a criança pudesse morrer. Já na segunda, preferi a cesárea por não querer ficar fazendo força por causa da minha idade". Ela achou melhor a cirurgia porque conheceu uma moça que teve uma infecção devido ao corte do períneo. "Corte por corte, a cesárea é melhor", conclui Beatriz.
    A cesárea deve ser utilizada com consciência pelos médicos, porque, afinal, ela é muito mais problemática que o parto normal. A recuperação é mais lenta, a dor no pós-operatório é muito grande e as chances de complicações pós-parto, como hemorragias, infecções e morte aumentam. O Dr. Neniomar de Carvalho complementa: "Os riscos para a mãe são de maior chance de infecções, maior agressão física com comprometimento estrutural da pélvis, possibilidades de processos aderenciais, as quais podem trazer dores e mal estar tardios". Ele diz ainda que " para os bebês, o risco de aspirar o líquido amniótico é maior. Existe um menor estímulo neurológico, um maior risco de prematuridade".
    O risco de infecção e hemorragia é cinco a dez vezes maior na cesárea que no parto normal. Em 1994, a taxa de mortalidade materna no Brasil entre mulheres que fizeram o parto normal foi de 22 mortes a cada 100 mil nascidos vivos; entre as que fizeram cesariana, foi de 64 mortes por 100 mil nascidos. Outro aspecto negativo é que 25% das mulheres que recebem a anestesia peridural, que serve para impedir a dor durante a procedimento cirúrgico, sofrem duas vezes mais de dores nas costas, dores de cabeça e formigamento nas mãos até nove anos após a cirurgia. Outras práticas médicas comuns no Brasil e que não têm nenhum fundamento científico, de acordo com o documento "Tecnologia Apropriada para o Nascimento", da Organização Mundial de Saúde, são: a raspagem do pêlo, lavagem intestinal antes do parto e episiotomia (corte do períneo).
    A mãe de João Pedro Figueiredo de Oliveira, Alethéia dos Reis Figueiredo diz que não optou pela cesárea porque "o parto faz parte de um processo que também envolve o bebê. A criança sabe a hora de nascer, a hora em que ela está realmente preparada para vir ao mundo. E, na minha opinião, nós (a mãe e o neném) temos que viver esse momento juntos, nos ajudando. Ela acrescenta "Não é só abrir e tirar. Imagine! Um belo dia, aparece uma mão e tira-o do lugar mais gostoso que ele ou ela já conheceu. Não, é no mínimo, estranho?" Ela também fala dos riscos para a mulher que podem ser "paralisia dos membros inferiores (por causa da anestesia), infecção hospitalar (para a mãe e a criança), inflamação e infecções nos pontos e o delicado pós-operatório".Ela lembra que "afinal de contas é uma cirurgia!".
    Muitas mulheres optam pela cesárea com medo do parto normal, pela dor que este possa causar. Entretanto, o parto normal é extremamente saudável e causa menos complicações que o pós-operatório. O Dr. Neniomar lembra que um outro aspecto do parto é que "a Promotoria Pública obriga o obstetra a discutir as opções de parto com a paciente, quando a cesárea não é uma opção da paciente, mas uma conduta obstétrica".
    Um dos grandes problemas do parto normal é quando o período expulsivo é muito prolongado, como atesta a Dra. Rachel dos Reis ao citar o caso de uma paciente:" ela queria muito um parto normal, entretanto, o bebê não estava na posição correta e o parto foi muito longo. Esperamos até um pouco mais do que se deveria para fazer a cesárea e a criança teve que ficar dois dias na UTI".
    Mulheres que tiveram o primeiro filho de cesárea podem ter o segundo de parto normal. Nos Estados Unidos, as mulheres que tiveram dois filhos de operações já podem ter o terceiro de parto normal, o que é extremamente benéfico tanto para a criança como para a mãe.
    O Dr. Neniomar de Carvalho afirma que "as vantagens do parto normal são: a mãe se recupara de 3 a 5 vezes mais rápido que na cesárea, as estruturas do corpo não são prejudicadas como na cesárea (em que oito planos são lesados com cortes e suturas, que são corpos estranhos). Enfim, é mais fisiológico".
    O parto normal pode ser realizado de quatro maneiras: parto de cócoras, estimulado por obstetras conscientes de que é uma posição muito confortável para a mulher; parto dentro da água, que é considerada a melhor forma de trazer bebês ao mundo, feito em uma banheira de água quente. A criança sai nadando e sobe sozinho até a superfície; parto de joelhos, muito utilizado pelas índias; parto de quatro; parto sentado, feito em uma cadeira especial em hospitais, mais rápido e menos dolorido; parto normal deitado, o mais praticado e mais sacrificante para a mulher, por ela ter de fazer mais força para empurrar o bebê.
    No entanto, os médicos que seguem uma linha humanizadora recomendam que a mulher deve ter o filho, ou filha, na posição em que lhe for mais confortável, como atesta o Dr. Neniomar: "Tudo é uma questão de cultura. A índia faz, praticamente, tudo na posição de cócoras. Nada mais justo e lógico que o parto de cócoras seja, para ela, mais natural. Já a mulher branca tem uma cultura de passar quase toda sua vida sentada. Obviamente, sua posição de parto seria "meio sentada", ou seja, deitada com o tronco levantado".
    De acordo com o Dr. Moysés Paciornik, "as índias chegam a ter quatorze filhos e os órgãos genitais permanecem em perfeitas condições; períneo normal, bexiga, uretra, reto, tudo no lugar". Ele conta que "uma das índias tinha três filhos e se queixava de problemas urinários. Uma enfermeira informou-me que ela havia cuidado da mulher durante o período de gestação. E quando lhe perguntei como fez o parto, ela respondeu que deitava a mulher de acordo com o procedimento hospitalar. As índias que tiveram parto de cócoras apenas com ajuda de uma mulher mais velha, não sofreram nenhum problema físico". Portanto, é preciso pensar com cuidado sobre as consequências das práticas obstétricas no Brasil. Infelizmente, por uma razão sócio-cultural, a propagação da cesárea parece ser uma boa coisa, quando, na verdade, pode significar "comprar gato por lebre".