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Baú
Arquivo das curiosidades da HISTÓRIA
Selecção de Março/2001
Durante o movimento renascentista praticava-se a dissecação de cadáveres. A igreja católica proibia essa prática, mas nas cidades-Estados da Itália, onde a autoridade papal era mais reduzida, as autoridades fechavam os olhos ao roubo de cadáveres nos cemitérios, sobretudo quando se tratava de corpos de criminosos executados na forca.
Nesse mesmo século, alguns estudantes de Medicina, na cidade de Bolonha, roubaram um morto do cemitério e um professor fez a dissecação para eles verem. Foram presos, julgados, mas absolvidos. Um professor da Universidade de Bolonha, Berengário da Carpi, da mesma época, dissecou mais de uma centena de cadáveres. No século seguinte, o Papa Sixto IV autorizava oficialmente as dissecações, inclusivé na escola papal de Medicina de Roma!
Houve desde o início da Renascença um grande número de anatomistas: uns aceitavam a autoridade de Galeno, tão cegos estavam pelo seu prestígio; outros inventavam novas teorias para explicar os batimentos cardíacos, a circulação do sangue e o movimento respiratório; mas a maioria repudiava os conceitos do velho doutor de Pérgamo e agarrava-se à realidade que tinha diante dos olhos. Francis Bacon, um inglês, do século XVI, contribuiu muito para a fixação desse estado de espírito, dizendo que o objectivo da ciência não era chegar a uma verdade abstracta e metafísica (sobrenatural) a respeito das coisas, mas sim o de levar-nos ao domínio do mundo.
Leonardo Da Vinci, além de inventor, cientista e pintor, foi um grande estudioso de Anatomia, deixando-nos excelentes desenhos. Há provas de que Leonardo dissecou mais de trinta cadáveres, pois só mesmo um conhecimento material e íntimo dos nervos e músculos lhe permitiria elaborar aqueles desenhos. Como ele, foi grande conhecedor de Anatomia o arquitecto, pintor e escultor Miguel Ângelo, imediatamente posterior a Leonardo, e cujas figuras pintadas ou esculpidas demostram a segurança que adquirira no estudo de vários detalhes do corpo humano.
Mas a maior contribuição para a Anatomia da Renascença foi dada pelo belga André Vesálio, no século XVI, que se revoltou contra os ensinamentos de Aristóteles e Galeno e, procedendo à dissecação de muitos cadáveres, rectificou pontos errados naqueles autores. A sua obra "Estrutura do Corpo Humano", publicada em 1543, foi uma descrição essencialmente exacta da formação interna do corpo humano e do seu funcionamento (tendo em conta que se desconhecia o microscópio).
Outro grande conhecedor do corpo humano foi o francês Ambroise Paré, que nem médico era. Simples homem do povo, artesão competente, cheio de bom senso e espírito prático, salvou-se, graças a isso, do excesso de erudição. Foi o primeiro a imaginar como localizar e extrair os projécteis dissimulados, em função da postura do paciente quando atingido; advogou a substituição do ferro quente, nas hemorragias, pela ligadura das artérias; inaugurou o processo de desarticulação do cotovelo e de amputação da coxa; e repudiou o bárbaro costume de cauterizar os ferimentos de bala com óleo fervente e ferro em brasa.
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Selecção de Abril / 2001
VIAGEM PARA O ALÉM
COMO OS CELTAS SEPULTAVAM OS SEUS GUERREIROS
O guerreiro celta era objecto de um sumptuoso ritual funerário. Jazia em mantas de crina, lã e pele de texugo sobre uma camada de bronze decorada com figuras dançantes e cavalos.
Usava um colar de ouro ao pescoço. Os sapatos eram cobertos com tiras de ouro e a seu lado sobressaía um punhal de ouro trabalhado. As vestes eram da mais fina seda.
Na câmara exterior do seu túmulo de dois aposentos, edificado cerca de 550 a.C. na orla da Floresta Negra (Sul da Alemanha), aguardava-o um carro de madeira, preparado para a jornada até ao mundo das trevas. Além das peças de carne e do vinho para o sustento do guerreiro na viagem, havia um corta-unhas de ferro e um pente de madeira, para que o defunto tivesse um ar digno à chegada. A estrutura tumular, completada com uma camada de pedras e recoberta com terra, atingia 7 m de altura. O local era assinalado por um círculo de pedras cuidadosamente dispostas.
UMA LONGA VIAGEM PARA A PLANÍCIE DAS DELÍCAS
Os rituais funerários variaram de lugar para lugar desde os primórdios da cultura celta (c. 700-500 a.C.) até ao fim do domínio celta na Europa, no século I a.C.
Outra forma de zelar pelos mortos consistia na cremação. O cadáver era colocado numa pira de madeira e rodeado de lenha e palha. Quando se deitava fogo à pira, os servos favoritos do defunto mostravam por vezes a sua devoção, lançando-se às chamas, para seguirem o amo até ao além.
As cinzas, transferidas por parentes e amigos para uma urna de bronze ou cerâmica, eram sepultadas junto ao carro e outros artigos funerários do guerreiro, a que poderiam juntar uma peça de carne de porco e pão.
Todo o celta esperva reencontrar-se no além com os familiares e amigos, o que, segundo um escritor romano daquela época, explicava um costume curioso: assim, era aceitável pedir dinheiro emprestado a um vizinho com a intenção de só pagar a dívida quando voltassem a
encontrar-se no outro mundo.
Nas lendas irlandesas, os mortos iam para um outro mundo, a que davam o nome de "Terra dos Jovens" ou "Planície das Delícias". Nunca ali a doença, a velhice ou a morte perturbavam a felicidade dos habitantes, que permaneciam sempre jovens e 100 anos passavam tão depressa como um só dia.
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Selecção de Maio / 2001
"Uma pequena impressão no pescoço"
COMO ERAM EXECUTADAS AS VÍTIMAS NA GUILHOTINA
Os relógios de Paris batiam as 3 e meia da tarde de 25 de Abril de 1792 quando o salteador Nicolas- Jacques Pelletier se tornou a primeira vítima da guilhotina. Foi conduzido ao cadafalso, erguido na Place de Grève, onde o aguardava o executor público Charles-Henri Sanson. Entre os milhares de cidadãos que se apinhavam na praça encontrava-se o Dr. Joseph-Ignace Guillotin, responsável pela introdução em França deste novo instrumento de execução.
Dr. Guillotin
Para ter a certeza de que o aparelho funcionava bem, Sanson testou-o com cadáveres de criminosos cedidos pelo Hôpital de Bicêtre, próximo de Paris. Finalmente, como ensaio geral para a decapitação de Pelletier, as cabeças de três cadáveres "de dimensões hercúleas" foram impecavelmete cortadas pela lâmina.
A execução do salteador decorreu sem o menor transtorno e Sanson cumpriu a sua missão com "a destreza e o amor dignos de um artista". E o Dr. Guillotin comentou: "A vítima nada sofreu. Apenas sentiu uma ligeira impressão no pescoço."
Justiça pelo cadafalso - No século XVII, na cidade têxtil de Halifax, no Yorkshire,os ladrões eram decapitados num cadafalso
de madeira erguido numa base de pedra.
Cabia aos habitantes puxarem a corda que permitia soltar a lâmina, com cerca 3,5 kg.
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UMA MORTE RÁPIDA PARA TODOS
A guilhotina era formada por dois postes verticais encimados por uma travessa e eram sulcados, por forma a poder descer por eles uma pesada lâmina de gume oblíquo. O condenado era amarrado a uma tábua, a bascule, que era depois inclinada para diante, ficando o pescoço da vítima preso entre duas peças de madeira situadas por baixo da lâmina. Esta estava suspensa de uma corda, cuja extremidade o carrasco segurava. Quando este soltava a corda, a lâmina caía rápida e pesadamente, cortando o pescoço do supliciado. A cabeça caía então para dentro de um cesto e o corpo era empurrado para outro.
Até então, só os nobres condenados haviam sido decapitados por um carrasco munido de um machado. Ainda assim, algumas execuções corriam de forma desastrada, o que provocava grande sofrimento aos supliciados. Os criminosos "comuns" eram habitualmente supliciados na roda.
O Dr. Guillotin, professor na Faculdade de Medicina de Paris, procurou tornar as decapitações tão compassivas quanto possível e estender o "privilégio" a todos os condenados à morte, independentemente da sua condição social. As suas reformas foram incorporadas como uma emenda humanitária à anterior cláusula do Código Penal francês, segundo a qual "todo o condenado à pena de morte deve ser decapitado".
A cabeça de Luís XVI é exibida à
multidão depois de o rei ter sido
guilhotinado em Paris, em 1793.
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Selecção de Junho / 2001
UMA MEDIDA PARA OS TEMPOS MODERNOS
COMO FOI ESTIMADO O METRO
Revolução no Calendário
"Liberdade, Igualdade, Fraternidade ou morte", proclamava o calendário decimal de 10 meses de 36 dias, além de 5 dias excedentários no fim do ano. Os nomes dos meses derivavam das condições meteorológicas das estações do ano: por exemplo, Brumaire (Nevoento) ou Ventose (Ventoso).
À medida que as noites se tornavam maiores com a aproximação do Inverno de 1789, os topógrafos Jean Delambre e Pierre Méchain chegavam ao fim de um penoso trabalho de seis anos e meio. Tinham sido submetidos a demorados interrogatórios e passado alguns dias em diversas prisões francesas, tudo em resultado do desempenho da sua missão: definir uma unidade de medida adequada à França revolucionária.
Pondo fim à velha ordem
Em 1790, a Assembleia Nacional francesa estava decidida a livrar-se de tudo o que estivesse associado à monarquia. A Academia das Ciências foi incumbida de elaborar um novo sistema de pesos e medidas e nomeou para isso uma comissão.
Após alguma controvérsia, a comissão escolheu um sistema proposto em 1670 pelo padre Gabriel Mouton. Este preconizara que a unidade básica de comprimento fosse uma fracção da circunferência da Terra e que o sistema se baseasse em unidades decimais para facilitar os cálculos.
Na Assembleia Nacional, em 1791, foi recomendado o metro, do grego metron, "medida", que deveria ser um décimo milionésimo da distância do pólo norte ao equador, ou seja, um quarto do meridiano terrestre.
Calculou-se então um metro provisório, baseado na distância estimada.
Tornou-se assim necessário fazer o levantamento de um arco de meridiano para o cálculo da distância total do pólo ao equador. Foi escolhido o arco entre Dunquerque e Barcelona do meridiano que passa por Paris.
Fechados em prisões de província
Delambre e Méchain fizeram as malas, pegaram no material topográfico e partiram para o campo. Delambre e a sua equipa trabalhavam de Dunquerque para sul, Méchain e a sua equipa de Barcelona para norte. Além do difícil trabalho de medir e calcular distâncias, os topógrafos deram com um problema inesperado. De facto, as bandeiras brancas e os faróis do seu equipamento levantaram suspeitas nos revolucionários locais, pois o branco era a cor da realeza. Ambos foram repetidamente presos como espiões.
Quando, em Novembro de 1798, terminaram o seu levantamento, os topógrafos extrapolaram o comprimento do arco que tinham medido - cerca de 1/9 do total - para o do quarto de meridiano terrestre. Dividiram depois o número por 10 milhões para calcular a medida do metro, que apresentava uma diferença de apenas 0,35 mm do metro provisório antes calculado.
Gramas e Litros
Folhetos informativos mostravam ao público como funcionavam os novos sistemas de pesos e volumes.
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Selecção de Julho / 2001
CRIME E CASTIGO
UM SISTEMA DE JUSTIÇA COM 4000 ANOS
«Olho por olho, dente por dente, mão por mão...». O conceito do Antigo Testamento de um castigo correpondente ao crime era fundamental na lei judaica de Moisés e também no código de Hamurabi, o governante da Babilónia de 1792 a 1750 a.C.
Os babilónios tinham uma gama de castigos que, embora agora pareçam draconianos, limitavam a vingança pessoal: cortavam os dedos aos filhos que batiam nos pais e arrancavam os olhos aos homens culpados de cegar alguém.
Não acreditavam em castigos compassivos - tal como a maioria dos povos antigos. Mas houve uma excepção. Cerca de 2050 a.C. _ 300 anos antes de Hamurábi e talvez 750 anos antes de Moisés _ o rei sumério Ur-Namu elaborou um conjunto de leis surpreendentemente modernas na abordagem do crime e do castigo, as quais estipulavam uma tabela de indemnizações a pagar às vítimas pelos autores dos crimes. Por exemplo, um homem que cortasse um pé a alguém teria de pagar 10 ciclos de prata à vítima; a multa era 1 ciclo por quebrar um osso, dois terços de uma mina de prata por cortar um nariz, etc. O código de Ur-Namu é o primeiro exemplo conhecido de multas monetárias em vez de castigos físicos.
HISTÓRIA DE UM GALO E DE UM TOURO
ANIMAIS NO BANCO DOS RÉUS
Não havia dúvidas da culpabilidade do réu. No ano de 1314, matara voluntariamente um homem no condado francês de Valois. Várias pessoas tinham testemunhado o ataque sangrento e selvático e o réu foi condenado à morte e enforcado por ordem do parlamento provincial. Só que... o réu era um touro!
A lei moderna não reconhece a ideia de que animais podem cometer um crime e "pagar" por isso, mas, na Europa medieval, era vulgar os animais serem acusados e julgados por toda a espécie de crimes - desde feitiçaria a assasínio.
Gado e porcos eram as vítimas mais frequentes, mas outros iam também a julgamento. Os Suiços, por exemplo, acusaram muitas vezes minhocas de destruírem as colheitas e, em 1487, as autoridades francesas do ducado de Sabóia processaram escaravelhos que lhes haviam saqueado as vinhas.
Quase um século depois, as ratazanas de Autun, no centro da França, foram intimadas a comparecer no tribunal, acusadas de infestarem casas e celeiros. Elas não compareceram e o advogado alegou que as suas vidas corriam perigo devido à quantidade de gatos nas imediações. O tribunal deveria garantir a segurança das suas clientes na ida para o julgamento e no regresso. O caso foi adiado indefinidamente.
No século XV, um galo da cidade suíça de Basileia não teve tanta sorte. Foi acusado de ter posto um ovo, o que aquela gente supersticiosa considerou indicação de que ele era feiticeiro. Depois de julgado, o galo foi atado a uma estaca e queimado com o ovo.
No mesmo século, em Lavegny, França, uma porca que matara e comera parcialmente uma criança foi enforcada por assassínio. No entanto, os seus 6 leitões cúmplices foram poupados, por serem muito novos para saber o que faziam.
Porca culpada
Na Europa medieval, até os animais podiam ser condenados por crimes. Os advogados levavam os casos a sério, mas eram ridicularizados, como mostra esta gravura, do século XIX, do julgamento de uma porca e seus leitões.
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Selecção de Agosto / 2001
OS SONS DA TERRA
A LINGUAGEM UNIVERSAL DA MÚSICA NO ESPAÇO
Como se conseguirá fazer com que um extraterrestre compreenda o que significa um ser humano? Esta questão foi posta a uma comissão de peritos em 1977, quando as naves espaciais americanas, Voyager 1 e 2, transportando mensagens destinadas a qualquer forma de vida inteligente que pudessem encontrar, estavam prestes a ser lançadas para o espaço.
Com surpresa de muita gente, a opinião desses peritos é que uma das melhores maneiras de comunicar com um extraterrestre, em vez de palavras ou imagens, era a música. E, assim, essas mensagens comportam 87 minutos dedicados a uma selecção dos «maiores êxitos musicais da Terra».
"The Sounds of Earth"
Porquê escolher a música? Primeiro, porque a sua estrutura - dos simples blues de oito acordes às complexas fugas de Bach - é baseada em números e a harmonia musical pode ser analisada em termos matemáticos. Os cientistas também concordaram que a matemática é a língua mais universal e que os eventuais extraterrestres talvez compreendessem melhor a estrutura matemática da nossa música do que qualquer outra coisa.
A música, segundo estes cientistas, também exprime os sentimentos humanos melhor do que outros meios e representa a variedade total da cultura humana. Nunca houve uma sociedade sem a sua música específica para exprimir a tristeza e a dor, a felicidade e a paz.
Quando chegou a altura de seleccionar, foram escolhidas árias aborígenes da Austrália, o canto nocturno dos índios Navajo e uma canção nupcial do Peru, acrescentando-se música javanesa, flautas das ilhas Salomão e do Peru, uma raga da Índia, música ch´in da China, gaitas-de-foles do Azerbaijão, flautas de bambu do Japão e instrumentos de percussão do Senegal. Havia também canções da Geórgia, Zaire, México, Nova Guiné e Bulgária, bem como Dark was the Night, interpretada pelo cantor de blues Blind Willie Johnson, o trompete de Louis Armstrong a tocar Melancholy Blues e Chuck Berry a cantar Johnny B. Goode.
De entre a tradição clássica ocidental, foram escolhidas músicas da Renascença para flauta, três composições de Bach, duas de Beethoven, uma ária de A Flauta Mágica, de Mozart, e A Sagração da Primavera, de Stravinsky.
São realmente os maiores êxitos da Terra? Pelo menos, agora, são os que mais tempo durarão. O disco, de cobre chapeado a ouro, foi fabricado para tocar por 1000 milhões de anos!
Disco de ouro. O disco Sons da Terra (em cima), incrustado num prato de cobre chapeado a ouro, foi instalado na nave Voyager 2. No espaço, esperam os cientistas, será ouvido por inteligências não humanas.
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Selecção de Setembro / 2001
"EUREKA! EUREKA!"
COMO ARQUIMEDES PROVOU QUE UM REI FOI BURLADO
O ourives tremeu de terror. Ao princípio desse dia, fora arrancado da cama e arrastado até ao palácio de Hierão, rei de Siracusa, colónia grega na Sicília. Tratava-se de algo relacionado com a coroa que tinha feito para o rei, avisara-o um dos guardas. Horrorizado, o ourives concluiu que a sua tentativa de burlar o rei fora descoberta.
Para comemorar uma batalha vitoriosa em 212 a.C., Hierão prometera manifestar aos deuses a sua gratidão depondo uma coroa de ouro no templo da cidade. Para se assegurar de que não haveria falcatrua no fabrico da coroa, o rei pesou a quantidade certa de ouro. Ao receber a coroa, verificou que o peso estava correcto. No dia seguinte, porém, um informador contou no palácio que uma parte do ouro fora substituída por prata. Sem demora, o rei incumbiu Arquimedes de apurar, sem danificar a coroa, se o ouro fora realmente adulterado.
Durante os dias seguintes, o sábio concentrou-se na resolução do enigma do rei, tendo deixado de se alimenter e de se lavar. Quando o cheiro do seu corpo se tornou insuportável, Arquimedes dirigiu-se ao balneário público. Ao mergulhar na piscina, a água transbordou, o que representou para ele uma verdadeira inspiração. Arquimedes saltou da piscina e correu, nu, pela rua, gritando: "Eureka! Eureka!" ("Achei! Achei!")
Banho inspirador - O maior matemático do mundo antigo aliou a matemática à física ao comparar a massa dos objectos com o seu volume.
Arquimedes apercebera-se de que o seu corpo deslocara um volume de água igual ao volume deste. Se a coroa fosse de ouro puro, deslocaria a mesma quantidade de água que um pedaço de ouro não trabalhado de peso igual ao da coroa. Todavia, se o ouro estivesse ligado com outro metal, a coroa podia pesar o mesmo que o pedaço de ouro, mas teria de ser maior, deslocando mais água.
Arquimedes não perdeu tempo a verificar a sua hipótese. Colocando um jarro num prato, encheu-o de água até à borda. Ao mergulhar no jarro o pedaço de ouro, este fez transbordar a água para o prato, que Arquimedes pesou. Repetindo a experiência com a coroa, verificou que transbordava uma maior quantidade de água. A coroa era maior do que devia ser. Como o ourives adulterara o ouro com prata, teve de fazer uma coroa maior para compensar a diferença de peso. Enquanto Hierão agradecia a Arquimedes, os guardas do palácio levaram o ourives e degolaram-no.
Fim inglório - Absorto em cálculos complexos, Arquimedes não deu pelo saque de Siracusa pelos Romanos em 212 a.C. Foi assassinado por se recusar a obedecer às ordens de um soldado, pois insistiu em acabar primeiro os seus cálculos.
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Selecção de Outubro / 2001
ARMAS E ARMADURAS - SÉCULOS XV/XVI
Protecção do Besteiro
Enquanto carregavam e disparavam as suas armas, tanto archeiros como besteiros costumavam proteger-se atrás dum enorme escudo chamado «pavês», que era aguentado na vertical por outro soldado.
Utilizados na guerra de sítio dos séculos XIV ao XVI, os paveses eram feitos de madeira recoberta con canhamaço (tecido grosseiro de fio de cânhamo).
Besta lançadora de pedras, do século XVI
CAVALEIRO ALEMÃO
Cavaleiro em ordem de batalha - gravura desenhadapor volta de 1500.
Usa uma armadura maximiliana, mais pesada e arredondada que os modelos couraçados anteriores.
Couraça de Peito, c. 1570
Feita por um famoso armeiro italiano, esta couraça de peito de uma só peça, leve e forte, é um exemplar tecnicamente perfeito de couraça matálica (até ao século XIII, o tipo de armadura era a cota de malha). O seu estilo imita um gibão so século XVI (colete justo).
MANOPLA, de cerca de 1580 (em baixo), feita no Norte da Alemanha - a manopla era a peça da armadura que protegia a mão e o pulso.
ESCARPIM (em cima), de cerca de 1550 - tal como a manopla, a parte da armadura que protegia o pé tinha de proporcionar ampla liberdade de movimentos, sendo por isso feita de placas articuladas ao longo do pé.
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Selecção de - Novembro/Dezembro/2001
A GRANDE MURALHA DA CHIna
No norte da China, um dos maiores países da Ásia, um imperador mandou construir um enorme muro de pedra para evitar invasões. De um lado a China, do outro Mongólia.
A Grande Muralha da China é um dos maiores projectos de construção da história. A muralha ,incluindo todas as suas ramificações, tem cerca de 6400 Km, desde Po Hai, no leste, até ao deserto central da Ásia. A muralha propriamente dita tem 9 metros de altura na maior parte do seu comprimento, com torres de 12 metros de altura. Se quiséssemos percorrê-la toda, levaríamos pelo menos uns três meses a andar (parando para comer e dormir, claro).
A maior parte da muralha foi construída no século III a.C.,quando reinava na China a dinastia Chin.
Shih Huang-ti, o primeiro imperador da China unificada, iniciou a construção da muralha em 214 a.C., unindo vários muros já existentes e formando um único sistema de defesa contra as tribos nómadas originárias do noroeste. Durante a construção, muitos homens morrerram de fome, febre e cansaço.
Esta primeira muralha era feita, em parte, de tijolo e pedra, e, em parte, de argila, com a face leste revestida de tijolo. A muralha foi reconstruída ao longo dos anos, principalmente entre os séculos XV e XVI.
O muro tinha função de defesa, pois os guerreiros da Mongólia e do Império Tártaro viviam em guerra com os chineses. A cada 100 metros existiam torres de vigilância, com soldados chineses observando a chegada dos inimigos. Os sentinelas de uma torre usavam bandeiras coloridas e sinais de fumo para comunicar com os outros soldados.
No século XV, os imperadores da dinastia Ming obrigaram o exército a retomar o trabalho, reformando a construção. Perto de Pequim, capital da China, os imperadores Ming mandaram construir um cemitério real, onde eles foram enterrados. Na estrada que leva a esse cemitério, colocaram grandes estátuas de guerreiros e animais, feitas para lembrar o poder e a bravura dos que serviram os imperadores.
De tão grande, a Muralha da China é a única construção humana que pode ser vista da Lua a olho nu, sem ajuda de binóculos ou telescópios.
Em 22 de Fevereiro de 2001, a agência de notícias Nova China divulgou que Grande Muralha da China mede pelo menos 500 km a mais do que se calculava até agora, segundo afirmaram pesquisadores chineses. Com esta notícia, constata-se que a muralha mede 7.200 Km!
Apenas a parte oriental da muralha é construída com tijolos, enquanto a parte ocidental se assemelha mais a um monte de terra.
Segundo Luo Zhewen, o maior especialista chinês nesta matéria, "não há dúvidas de que (o trecho que acaba de ser descoberto) faz parte da Grande Muralha, pois trata-se de uma fortificação com torres de vigilância, que pode emitir sinais luminosos, o que forma um sistema de defesa completo".
Um jornalista da Nova China que visitou o trecho complementar indicou que a altura do muro variava de 1 a 3 metros e que algumas secções teriam desaparecido completamente.
A construção desse prolongamento estava mencionada nos arquivos da dinastia Han (206 a.C a 220 d.C), época em que o imperador Wudi tinha mobilizado 600.000 operários para a construção. Segundo Luo, a Grande Muralha foi concebida nesta região como uma protecção para os comerciantes que circulavam pela "rota da seda", que unia a China ao Império Romano através da Ásia Central.
Os especialistas chineses acham que a nova secção não marca ainda o limite ocidental da Grande Muralha, pois foram encontradas ruínas de torres de vigilância até à actual fronteira noroeste da China
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