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Um Pouco Sobre O
Xamanismo Peruano
No Andes Peruano o que caracteriza a medicina tradicional/natural que chamarei de medicina nativa é a natureza "espiritual" das estruturas de pensamento em que sua teoria e práticas se fundamentam. Devemos sempre lembrar que o que chamamos de sobrenatural ou invisível é coração e alma do mundo visível e entre os dois aspectos da mesma realidade existe uma relação estreita que nos permite falar de um cotidiano mágico. Porém ao falar em sobrenatural, invisível e mágico, estamos falando de um pensamento ocidental. Porém nas tradições xamânicas nativas existe somente uma natureza que é espiritual e material ao mesmo tempo.
A medicina nativa pressupõem uma antropologia distinta da medicina oficial, considera o efeito de enfermidade e de saúde de acordo com o quadro holístico que abarca e interpreta os fenômenos fisiológicos dentro do não-fisiológico, o natural dentro do não-natural. Para os nativos, não existe uma separação física de corpo e mente.
A medicina nativa reconhece uma ativa e imprescindível rede de inter-relações entre as desordens físicas e causas que poderiam definitivamente como psicológicas. Atua com o rito sobre o mundo mítico (numinoso) e com a terapia sobre o paciente através de símbolos e ações carregadas de simbolismo, ou através da visualização de símbolos significativos, lograda por meio de substâncias psicotrópicas, para interpretar e explicar a enfermidade, a origem da mesma e sua possível cura através de uma perspectiva cultural. Neste caso, as medicina nativa utiliza-se do constante e imprescindível contato com as entidades do mundo mítico realizado por meio da ação ritual, a mesma que ao mesmo tempo controla o perigo do contato com o numinoso, e logrado pelo meio da visão. Qualquer um desse meios necessita da intervenção de um especialista cuja função, é ver entre os mundos, que tem um carisma especial, estamos falando do xamã, um mestre curandeiro que se diferencia do homem comum.
A medicina nativa não distingue entre eficácia cultural e farmacológica, entre a terapia ritualística e a por meio de remédios materiais e práticas fisiológicas. Para a cura das enfermidades "culturais", remédios e práticas não servem fora de um contexto ritual apropriado. Em outras palavras, a medicina nativa considera igualmente ritos terapêuticos e farmacológicos dentro de um contexto sinergético. Neste contexto, a eficácia do rito e dos remédios atuam conjuntamente e inseparavelmente sobre uma unidade psico-física cujos níveis do ser não são inseparáveis e devem ser alcançados conjuntamente com as práticas terapêuticas ao paciente.
Os níveis fisiológicos e culturais, formam parte de um vasto campo de ação da medicina nativa. É por isso que um médico nativo ou curandeiro nunca é só um expert em ervas, um doutor que só prescreve remédios, ao mesmo tempo, o curandeiro é um psico-terapeuta e sacerdote do mundo mítico ancestral.
Por outro lado os remédios, minerais ou vegetais, constituem uma unidade complexa cuja existência abarca o material e o espiritual; o poder de uma planta medicinal, ou de uma psicotrópica, é uma manifestação de um espírito que dá vida a planta, o mineral, ou o lugar do qual foi recolhido.
O poder de uma planta medicinal depende de sua espécie botânica, como também de como se colhe a planta, pois existem ritos para fazê-lo, tais como as fases lunares que tem que se observar, se faz parte de um lugar sagrado, fora a pureza ritualística de que colhe.
O conceito de medicina nativa, portanto, abarca um campo que compreende práticas médicas e farmacêuticas para o que concerne ao aspecto fisiológico. Ao mesmo tempo inclui sistema míticos, um conjunto de símbolos e execuções de práticas ritualísticas que trabalha o lado psicológico e propriamente o cultural dentro do qual temos que considerar particularmente o aspecto espiritual e religioso.
Geralmente um Mestre escolhe um aprendiz para ensinar-lhe o ofício. Durante todo o aprendizado, o aprendiz vai aprendendo os passos necessários para tornar-se um xamã. No início ele apenas exerce a função de auxiliar, como separar o material ser usado no rituais e trabalhos, auxiliar no trabalho de limpeza e aprender a recolher as ervas. Porém não deve executar o trabalho de sucção de energia intrusas até o Mestre autorizá-lo, fato que demora alguns anos.
O aprendiz tem que aprender a interpretar o significado que aparece nas visões propiciadas no San Pedro, conhecer os encantados (seres e entes dos outros mundos) e os tipos de oferendas que tem que ser feitas para a natureza. Também tem que conhecer a fenomenologia dos ataques vindo por parte dos maleros. Ele deve aprender para que serve cada objeto da Mesa do Mestre, e aprender a entrar em contato com lugares sagrados.
Mas a coisa mais importante que ele precisa aprender, é viajar entre os mundos e saber como agir e se defender nessas dimensões da realidade. Pois e geralmente lá que é realizada a cura do paciente que vem lhe pedir auxílio. Mas para tornar-se um xamã, o aprendiz terá que passar pelo ritual da morte através das mãos do seu Mestre que o levará até o mundo inferior, simbolizado pelo Corvo e pela cor negra, para que o jovem aprendiz possa comprovar a sua capacidade de controlar suas visões, esta experiência não é passiva, o aprendiz deve estar dormindo e ao mesmo tempo acordado para livrar-se dos perigos e viajar além do tempo e do espaço, ao mundo do mito.
Nessa fase se efetua uma transição de consciência, além das águas das correntes psíquicas, no mundo mítico e da cultura tradicional. Nessa fase o mito adquire um significado mais profundo de história real, uma história sagrada que se faz numa visão sagrada onde o que se vê e se vive, e não uma raiz com sua própria tradição.
A transmissão oficial de poder se realiza quando acabou o período de aprendizagem, ou quando o Mestre esteja bem velho para aguentar as fatigas extenuantes impostas pelo ofício. A maneira oficial de fazer a transmissão é a entrega da "Mesa" e a vara de Chonta ao aprendiz, que geralmente é feito numa lagoa onde o Mestre renuncia seu poder e lava todos os objetos antes de passá-lo ao aprendiz. Esse momento trata-se da ruptura ritual do pacto do Mestre com os Encantados, as entidades do mundo mítico andino. Após a despedida de todos, ele passa a Mesa e a Chonta ao Aprendiz, que deverá então fazer seu pacto com os Encantado nessa lagoa, ou em outra vista em alguma visão anterior.
No caso da morte do Mestre que não a passado seu poder para um aprendiz, a Chonta deve ser retirada imediatamente da casa do Mestre, para que forças destrutivas não ataquem a família do defunto. Um outro Mestre deve levar a Chonta com ele. Caso não haja um, a Chonta deve ser entregue na Laguna Negra, o Gran Huarinja, considerada a mãe de todos os lagos, uma fonte de inesgotável poder.
Ao entregar a Chonta na lagoa, devem ser feitas oferendas ao Espírito que vive na Chonta, as oferendas são doces, frutas, perfumes, aguardente e tabaco. Depois da cerimônia, envolve a Chonta e lãs coloridas, adornada com flores e levada a lagoa. Ao chegar na lagoa, o outro Mestre que levou a Chonta, entrega aos espíritos do lugar as oferendas tradicionais, depois amarra uma pedra a Chonta, sepultando-a. Desta forma o "encanto' que mora na Chonta, não encontrando outro sucessor humano, regressa a sua Mãe, a Lagoa Sagrada, de onde conta os mitos foram conjuradas as forças do Sol e da Terra.
Depois é realizado uma cerimônia chamada "refresco" na casa do Mestre falecido, cuja finalidade é neutralizar o excesso de poder que satura a casa.
Falaremos agora da eterna luta entre o bem e o mal. Muitos devem estar se perguntando que diacho é um malero, pois bem, vamos a explicação.
Maleros são especialistas em fazerem o mal. Em todas as comunidades andinas, sabem-se que existe um malero, porém não se sabem está e que é. Dentro da magia cotidiana andina, o malero expressa e maneja o lado escuro e mortífero do poder, seu principal ofício é produzir enfermidades e desgraças por meio de seus espíritos auxiliares. Este, porém não são necessariamente entidades míticas negativas opostas ao encantados positivos que auxiliam o curandeiro, são os mesmos encantos utilizando suas potencialidades negativas. Pois o numinoso andino é positivo e negativo.
No Peru o termo Magista significa "quem usa a magia", ou seja, aquele que trabalha com a interpretação negativa da magia e do mágico e não a contra-parte positiva da mesma.
O curandeiros não trabalha com "magia", e sim com a "virtude", "poder", "arte" e "ciência", porém não é magia.
Aqueles que trabalham com malero, também são chamados de bruxos e também "ganaderos" pois visam o lucro financeiro para si próprio, pois ele lucra com as enfermidades e as mortes. Entres seus "talentos" eles procuram, obscurecer o progresso das pessoas, enfeitiçando-as com ossos ralados, transformando-os em pó, escrevem o nome da vítima e colocam na boca de um defunto, usam crânios e outras "cosistas mas", adoram trabalhar nos cemitérios e realizam ritos para capturar o corpo luminoso das pessoas transformando-as em verdadeiros vegetais. Chegam inclusive a matar.
Na eterna luta entre o bem e o mal, o curandeiro por seu lado, conhece e usa seu poder para contra-atacar e neutralizar a ações dos maleros. Nessa luta não esta descartada a possibilidade da destruição física do malero por aparte dos espíritos auxiliares do curandeiro. Na ética andina o que distingue o curandeiro do malero não são exclusivamente os rituais que eles fazem, e sim a intenção. O curandeiro jamais ataca, somente o faz para se defender e defender seus pacientes, porém para realizar esses ataques ele se utiliza de espíritos auxiliares, rituais, objetos empregado e até formulas praticadas idênticas as que utiliza seu inimigo. Inclusive, muitos curandeiro têm uma Mesa separada que chamam de Negra ou Ganadera que serve para esta finalidade.
Lembremos que todas as armas que conhecemos podem ser usadas para defender e para matar. Inclusive uma das etapas mais delicadas que temos como Orientador (prefiro essa palavra a Mestre), é colocar o aprendiz de curandeiro de frente ao dilema do uso de seu poder: se irá usá-lo para curar, ou para matar, e se usar ao último ter muito cuidado para não cair na sedução do lado obscuro.
A diferença crucial da intenção entre os dois, é que o malero não ataca para se defender e sim para ganhar dinheiro e pelo simples prazer de fazer o mal. Ataca sem ser provocado, para realizar os malvados desejos de seus clientes. O malero existe e tem a função de ser o catalisador da maldade, dos ódios, da raiva, das agressividades interpessoais e intergrupais.
A distinção entre curandeiros e maleros, é comum em todas as culturas, como também dentro do xamanismo em geral. Entre as culturas xamânicas dos Yakutes e outros povos da Sibéria, existe a distinção entre xamãs brancos e negros que se apoiam nas diferenças de seus espíritos auxiliares, respectivamente celeste e subterrâneos.
Devemos sempre nos lembrar que o poder é ambivalente, tanto pode ser usado para a cura como também para matar, tudo depende de quem o invoca.