Trabalho

Ancestral

 

 

Por Maura McHugh - © Maura McHugh 2000

Tradução, © Claudio Crow Quintino 2001

 

Quando consideramos a palavra "ancestral", por vezes ela evoca a imagem de nossos predecessores megalíticos, aqueles que construíram grandes monumentos como os de Newgrange ou Loghcrew. Nós pensamos na vida que eles levavam em proximidade com a Natureza, em comunidades tribais que honravam a passagem das estações. Há uma tendência de se elevar nossos ancestrais desconhecidos a posições do mais alto prestígio, bem como de romancear suas vidas. Temos também, em paralelo, o hábito de constantemente criticar a nós e a nosss vidas presentes, geralmente denegrindo-nos por nossas vidas menos trabalhosas, menos tribais, mais urbanas e, obviamente, mais limpas!

Nossos ancestrais eram pessoas. Pessoas cometem erros e podem ser chatas, podem ser divertidas e disponíveis, ou sisudas e arrogantes. Nem sempre eles estão certos, e por vezes podem desenvolver uma visão entrincheirada de como as coisas devem ser feitas, porque para eles aquele é o modo ideal. Elevá-los a um pedestal é um erro. Eles desejam Ter seus pés no chão, como nós, onde possam estender suas mãos e nos tocar! Uma coisa que devemos sempre Ter em mente é que vivemos esta vida, neste mundo. Não podemos reviver as vidas de nossos ancestrais, mas certamente podemos ser auxiliados e informados por seus ensinamentos e conhecimentos.

Uma vez que se comece a trabalhar com os ancestrais, provavelmente surgirá algum tipo de dificuldade com a família, em especial com seus pais e irmãos. Como em todos os casos, tais assuntos podem ser deixados de lado ou ignorados, mas um trabalho espiritual sério implica que tais negligências tornam todo o assunto mais difícil de ser trabalhado posteriormente. O Trabalho Ancestral nos força antes a olharmos para nós mesmos, e para nossa vida familiar, e também para os relacionamentos imediatos. Apenas quando tivermos limpado o nosso quintal poderemos olhar para a vizinhança. Para que formemos uma imagem mais clara de nós mesmos, um dos primeiros passos é reconhecer os padrões de pensamento ou comportamento em que caímos por força de nossa educação e condicionamento. Obviamente, nem todos os padrões são destrutivos, mas hábitos conscientes costumam indicar com precisão as áreas que devemos investigar, e talvez seja necessário uma certa reprogramação. Em momentos como esses, nossa visão global de nós mesmos e do universo pode ser posta em risco ou mesmo destruída; se por um lado este épode ser um processo doloroso, por outro pode destacar uma complacência ou acomodação em nosso pensar, oferecendo assim percepções antes desapercebidas. As mudanças que operamos em nosso interior reverberam em nossa família, círculo de amigos e na comunidade como um todo, por causa de nossa interconexão básica.

Os Ancestrais podem ser uma fonte útil a ser acessada se houver uma determinada cerimônia ou rito que deseje investigar, seja ele previamente existente, seja um que deseje criar. Eles podem não lhe passar as informações passo a passo, mas podem indicar a direção certa ou mesmo indicá-lo um outro Ancestral que conheça mais sobre o assunto. Nossos ancestrais também são bons intermediários entre nós e os Espíritos ou Entidades que podemos cruzar em nosso trabalho. Eles podem dialogar com um Espírito que não seria normalmente receptivo, e atuar como garantia de seu valor – dizer que "está aqui para ajudar" nem sempre é o bastante. Com o passar do tempo, e quanto mais se trabalha com os Ancestrais, mais eles tendem a se fazerem presentes de forma constante. Isso fica mais claro mesmo quando Espíritos truculentos não questionam sua habilidade, uma vez que sua "autoridade" ancestral está visível a todos. Algumas Entidades não vêem apenas você, mas sim toda a sua linhagem Ancestral, e não fazem as mesmas distinções que nós fazemos entre os indivíduos. Isto vale para Espíritos que gostam de trabalhar dentro de uma certa linha genética. Você pode lidar com eles, mas eles podem não ver diferenças entre você e sua bisavó Maria, que costumava aplicar "a cura" às pessoas da Comunidade. Ademais, a percepção de Tempo, como visto por nós, pode nem existir. Esse tipo de conexão a um grupo Espiritual particular é bem interessante, e geralmente muito profunda; se descoberta, deve ser mantida e honrada.

O Trabalho Ancestral costuma trazer um interesse renovado pela nossa genealogia. Tais pesquisas geralmente revelam alguém em nossa família que lia borras de chá, ou praticava alguma forma de cura, ou era considerada meio "esquisita." As estórias que descobrimos podem ser surpreendentes se mergulharmos nos círculos familiares certos. Tais traços de família são geralmente tratados com medo, e podem ser difíceis de serem abordados livremente. Algumas perguntas discretas podem levá-lo ao menos a uma dica sobre alguém em sua família que trabalhava de forma parecida. Essas conexões são importantes, pois são um forte lembrete de nossa herança. Crianças adotadas não estão desamparadas: Jornadas Xamânicas permitem que contatemos nossos ancestrais mesmo que não os conhecemos.

Samhain é uma fase do ano durante a qual as pessoas honram ativamente seus Ancestrais. Existem muitas formas de fazê-lo, e cada um deve considerar o modo como deseja que isso ocorra. Pode ser um telefonema a um irmão afastado, um jantar em honra de seus ancestrais mortos, ou uma visita a um cemitério. Nossos Ancestrais estão em nós mesmos, portanto crer que devemos viajar para longe ou que contatá-los dá muito trabalho é um erro. Eles estão conosco, no modo como rimos como nossa mãe, em nossos olhos que parecem os do tio Tommy, ou nosso amor pelas artes, herdado por muitas gerações, ou nossa habilidade em contar estórias. Honrar nossos Ancestrais também significa honrar a nós mesmos.

Saber quem somos é o primeiro passo a ser completado em qualquer trabalho espiritual. É o alicerce sólido de que precisamos quando trabalhamos em áreas que nos desafiam e testam. O Trabalho Ancestral é um dos modos de obtermos essa compreensão.