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O Pequeno Tirano
Por Quetzal
O pequeno tirano é um conceito desenvolvido pelos novos videntes ou pelos xamãs toltecas (homens de conhecimento) que sobreviveram ao assalto terrível da invasão cultural promovido por outros povos . Esse conceito apesar de sua seriedade está envolto numa aura de irreverência humor que caracterizam os novos videntes.
Um exemplo de invasão cultural e dominação ideológica foi a invasão e conquista espanhola na América . Para sobreviver a tal opressão os xamãs viram-se na urgência de reformular o seu conhecimento . Tal acontecimento representou um marco para esses xamãs que a partir de então foram denominados de novos videntes, pois representam um novo ciclo dentro do que pode ser chamado de 'xamanismo guerreiro' .
Como sobreviver a opressão e a injustiça?
De que maneira aproveitar uma situação de opressão, destruição e invasão?
Como agir frente a um inimigo dotado de poderio bélico e tecnologia material superior?
Como fazer frente a um ditador extraindo de tal situação o melhor para o desenvolvimento de si?
O que permite a um guerreiro vencer numa situação de total desesperança?
A chave para tais questões está em algo que os Toltecas denominaram de Arte da Espreita .
As condições históricas criadas pela invasão espanhola na América foram o cenário ideal para que esses xamãs desenvolvem-se plenamente suas habilidades. Uma situação difícil torna-se um desafio para o crescimento do guerreiro . Gurdjieff costumava dizer que "quanto piores são as condições de vida, melhores serão os resultados do trabalho - contanto que nos lembremos continuamente do trabalho". Tais xamãs levaram isso as últimas consequências.
Um pequeno tirano é um atormentador . Alguém que colocado em uma posição de poder busca nos oprimir, nos irritar e nos conduzir à distração e ao sono da consciência pela identificação com a situação e pela auto-consideração quando nos deixamos levar pela condição de vítimas . O pequeno tirano é alguém que pode mesmo ter poder de vida e de morte sobre um guerreiro.
Um guerreiro usa um pequeno tirano para aperfeiçoar em si certas habilidades ligadas a Arte da Espreita . Dentre essas habilidades temos o controle, a disciplina, a paciência , o senso de oportunidade .
O objetivo de um guerreiro ao lidar com um pequeno tirano não é de ordem pessoal e sim de ordem transcendente . Seu objetivo ao lidar com o pequeno tirano é destruir sua vaidade, sua importância pessoal . Para um guerreiro seu maior inimigo é a sua própria vaidade . Não a vaidade considerada de um ponto de vista moral, mas a vaidade enquanto um fator psicológico que exaure a nossa energia de tal maneira que não nos deixa energia alguma para movermos o ponto de aglutinação de sua posição usual, e se não temos energia para tal empreendimento , ficamos presos a matrix perceptiva em que estamos inseridos, fato esse que torna todos os portais de energia passagens fechadas . A energia consumida pelos "eus" que tem como fundamento a nossa vaidade faz de nós criaturas miseráveis, máquinas que apenas reagem as circunstâncias e que são incapazes de efetivamente fazer e agir conscientemente.
Assim, as correntes que nos aprisionam estão dentro de nós mesmos . Ver essas correntes é a primeira tarefa de um guerreiro, de um espreitador . Ele observa em sim tais correntes e busca identificar seus padrões , rotinas e hábitos mecânicos . Ao observa-los pode então liberar-se deles pelo "não-fazer" adequado conseguindo um nível de energia cada vez maior.
O pequeno tirano permite ao guerreiro notar em si a cadeia principal de nossa prisão perceptiva e agindo de forma adequada e estratégica aproveita-se da situação para vencer sobretudo a si mesmo .
É interessante esse ponto. Gurdjieff também disse: "Já disse que o homem desejoso de despertar deve empregar um auxiliar que se encarregue de sacudi-lo por muito tempo."
No filme Gladiador, Maximus fez o que fez tangido pela pressão terrificante do ditador Comudus .
Durante o período da ditadura militar, nas épocas de 60, 70 e início dos anos oitenta, podemos perceber o "boom" criativo da cultura brasileira. Percebemos como músicos, compositores, escritores e artistas em geral usaram de toda uma criatividade para desenvolver uma estratégia para burlar a opressão política e militar em músicas como "Vai Passar", de Chico Buarque e tantas outras.
O trabalho para vencer a opressão continua, mas agora muito mais sutil pois a própria opressão disfarcou-se, readaptou-se e graças a inteligência de homens como o já falecido general Golbery do Couto e Silva. Os agentes da Matrix estão por aí, mas precisamos desvendar a Matrix dentro de nós mesmos.
Existem vários tipos de pequenos tiranos segundo Dom Juan . Eles são chamados de pequenos tiranos porque em sua irreverência e humor os novos videntes chamaram a Fonte Original de Energia do Universo de tirano e diante desse poder supremo tudo o mais não passa de pequeno, pequeno tirano . Se um guerreiro sai-se bem diante de um pequeno tirano então tem talvez as qualidades necessárias para fazer face a pressão gigantesca do que os novos videntes chamam de Desconhecido e de Incognoscível.
Para um guerreiro só existem desafios . Já que um guerreiro luta contra sua auto-importância, ao vencer essa batalha, ele torna-se invulnerável , pois torna-se indiferente a crítica ou ao elogio . Torna-se aberto a existência e transforma-se em seu conduto . Em seu Vazio pode expressar a plenitude de Ser.
Quais são os nossos desafios atuais na luta contra a opressão e a destruição?
O que ou quem nos tiraniza?
Qual nossa estratégia de ação?
Como vemos, essas questões são mais do que atuais.

O Pequeno Tirano
e Gladiator
Por Quetzal
"O que fazemos em vida ecoa na Eternidade."
A função do pequeno tirano é dar-nos um impulso tal no ponto de aglutinação capaz de tornar-nos controlados, disciplinados, pacientes e oportunos na luta contra a vaidade . Vaidade que é o maior fator consumidor de energia que há em nós . Os guerreiros o fazem, portanto, não por princípios, mas como estratégia para uma manobra muito sofisticada da percepção . O pequeno tirano é um treinador psicológico que permite ao guerreiro treinar-se na arte que conduz a compreensão de que o que realmente conta no caminho é a impecabilidade .
Sob uma certa ótica o filme o Gladiador é a estória da luta de um guerreiro contra um pequeno tirano . A luta do gladiador contra o imperador de Roma, o pequeno tirano perfeito, com poderes ilimitados que matou o próprio pai e desejava destruir o Senado romano para governar absoluto.
Maximus, o general que tornou-se gladiador e por fim herói-redentor do povo de Roma contra a tirania.
Durante o filme vemos bem delineado as qualidades que formam um guerreiro.
Controle - Disciplina - Paciência - Oportunidade.
O personagem Maximus espelha bem essas quatro qualidades ou quatro posições do ponto de aglutinação.
Demonstra controle quando, por exemplo, segue o conselho de não matar rápido demais quando em combate na arena, afim de conquistar o público e ter a chance de aproximar-se do imperador ao dar um espetáculo feito de sangue e morte.
Como general e militar vitorioso possuia a disciplina necessária para agir estrategicamente e perceber os pontos fracos e fortes do inimigo. Na primeira batalha no Coliseu de Roma, o domínio da arte da guerra e da disciplina militar deram-lhe uma vitória surpreendente e esmagadora naquela encenação da Batalha de Cartago.
Quando então o imperador veio conhecer e cumprimenta-lo como gladiador, agiu de forma perfeita humilhando e colocando o pequeno tirano contra a parede na frente de todos e ao revelar sua identidade, despindo-se de sua máscara, desferiu um poderoso golpe. O imperador não podia mata-lo pois a plebe adorava-o e tornou o escudo de Maximus contra o tirano . A manobra muito lembra a manobra de Dom Juan que humilhou o capataz na frente de todos e da senhora, dona da propriedade, quando descreve sua luta contra o pequeno tirano no Fogo Interior.
Várias vezes durante o filme o personagem dizia : "Somos apenas sombras e pó". "Vivo apenas para abraçar minha mulher e meu filho", mas até isso lhe foi tirado, então Maximus tinha apenas a vingança como seu motor. Mas não era uma vingança pessoal. Não era vingança apenas pela morte do filho, da mulher e do César morto tido como um pai. Era a luta por um sonho, por um ideal, por justiça. Maximus era um homem de princípios, mas Comudus destruiu esse alicerce nele e morreu o general romano para nascer o gladiador, o guerreiro que age pela estratégia, pelo ideal, pela abstração, o guerreiro que sabe que nada mais tem a perder. Comudus, pequeno tirano, tirou-lhe a última vaidade, a de ser um homem de princípios, um homem moral.
A paciência fica muito bem demonstrada quando Maximus vence novamente no Coliseu de Roma, lutando contra os tigres e um outro gladiador de nome Tigris (sugestivo, não?) quando então o imperador humilhado pela segunda vez desce para falar com o gladiador, pois apesar de autorizar a morte do adversário de Maximus, Maximus não o faz (demosntrando senso de oportunidade tremendo) e a plebe delirante o chama de Maximus, o misericordioso. Desenvolve-se o seguinte diálogo:
- Dizem que seu filho chorou e gritou como uma menina ao ser crucificado e queimado e que sua mulher gemeu como uma prostituta ao ser violentada por diversas vezes sem fim - disse o imperador Comudus , com olhar ferino e meio sorriso nos lábios .
- A hora de homenagea-lo e reverencia-lo não tarda, Alteza - disse Maximus, inclinando o corpo de forma reverente e olhar implacável , para logo retirar-se .
Maximus ainda tira do pequeno tirano a irmã e o sobrinho, obrigando-lhe ao ato final de duelo na arena do Coliseu , já que sua única chance era matar o mito do gladiador com as próprias mãos.
A morte do pequeno tirano indica o triunfo do guerreiro que então pode seguir sua viagem.
No final, o gladiador vê o portal para o outro mundo e vai por ele ao encontro dos seus.
De fato, um belo filme! Muito mais ainda pode ser dito, mas vale ver o filme e traduzi-lo em termos da realidade de vida de cada um.
"Perceber os pontos fracos e fortes de um pequeno tirano enquanto ele está nos oprimindo chama-se disciplina ."
" Dominar o espírito quando alguém está pisando em você chama-se controle ."
" Paciência siginifica reter com o espírito algo que por justiça o guerreiro sabe que deve fazer."
" O sentido de oportunidade é qualidade que governa a liberação de tudo o que está contido."
" O que fazemos em vida ecoa na Eternidade . " - frase do personagem Maximus diante da batalha iminente.