Raízes da

Nossa Religião

 

 

Por Merlyn

Tradução: André Corrêa aic@microlink.com.br

Originalmente publicado na revista Connections.

 

 

Parte I: Wicca Gardneriana e Magia popular Americana

 

Introdução

Quanto Gerald Gardner escondeu ou maquiou na Wicca que ele apresentou ao público? Muitos estudiosos Pagãos incluindo Isaac Bonewits, James W. Baker, e Aidan Kelly, afirmam que a Wicca de Gardner é amplamente baseada em práticas criadas por ele ou copiadas da tradição Ocidental de magia cerimonial dos séculos XIX e XX.

Em contraste à Wicca Gardneriana, remanescentes de uma autêntica magia popular (folk magic) sobrevivem no século XX. Esta magia popular, cujos praticantes foram Cristãos por séculos, podem ser os verdadeiros remanescentes sobreviventes das antigas religiões Européias. Neste artigo, descreverei o que é sabido sobre as origens da Wicca Gardneriana, e então descreverei duas tradições mágicas populares Americanas, A Southern Appalachian magic, e a Pennsylvania Dutch hexcraft ou "pow-wow."

 

Wicca Gardneriana:

O renascimento da bruxaria moderna pode ser largamente atribuída a publicação do livro de não-ficção de Gardner Witchcraft Today (Bruxaria Hoje) em 1954. A anulação da ultima lei inglesa contra bruxaria em 1951 tornou possível para Gardner, um funcionário público aposentado com uma longa carreira no leste, divulgar abertamente sua religião "bruxa".

Witchcraft Today descrevia uma religião pré-cristã sobrevivente que celebrava as mudanças sazonais com Sabbats e os ciclos lunares com Esbats. O modelo de coven Gardneriano consistia de treze pessoas que trabalhavam juntos nus ("skyclad" no original) em rituais bastante elaborados. A Alta Sacerdotisa e o Alto Sacerdote participavam d’O Grande Rito" de sexo ritual pelo menos de forma privada, quando não em eventos do coven. Gardner chamou esta religião "Wica". Mais tarde outro "c" foi adicionado à Wica para formar a palavra Wicca, comumente utilizada nos dias de hoje. Wicca é a palavra anglo-saxã para um bruxo macho de acordo com Baker, que aponta que este termo esteve fora de uso durante séculos antes de Gardner adotá-lo.

Nos treze anos que se seguiram após a morte de Gardner em 1964, Wicca teve um crescimento espantoso. Esta religião obviamente preencheu uma necessidade na vida de pessoas que buscavam espiritualidade mas que rejeitavam o patriarcalismo e as alternativas anti-sexuais. Wicca, ou A Arte, é o caminho mais seguido pelos membros da comunidade neo-Pagã, atualmente estimada em 500.000 por Aidan Kelly, que acredita que Wiccans devem saber destinguir entre a "mitologia" da Wicca Gardneriana e sua verdadeira história.

A fonte de informação de Gardner sobre Wicca veio, segundo ele, do coven de New Forest na Inglaterra onde ele foi iniciado como witch em 1939 pela "Velha Dorothy" Clutterbuck ("Old Dorothy", no original). Ele também traçou as raízes do coven de New Forest até antes do cristianismo, e afirmou que um Livro de Sombras ("Book of Shadows" no original) era a fonte de seus antigos rituais.

Entretanto, começando com a vida de Gardner e continuando até hoje, muitos críticos persistentes desafiaram sua afirmação de que a Wicca era uma antiga religião sobrevivente. Seus críticos primeiramente apontam o fato de que nenhuma pesquisa independente validou a existência da Wicca. Baker, por exemplo, aponta que Gardner foi membro da Sociedade de Folclore da Inglaterra, mas membros desta sociedade, entrevistados após a sua morte, disseram nunca ter ouvido falar do secto Wicca que Gardner afirmara ter descoberto.

 

As Quatro Críticas:

Agora irei examinar em detalhes quatro das críticas levantadas à Wicca por aqueles que acreditam que Gardner a fabricou totalmente. A primeira crítica é a que afirma que o coven de New Forest seguia o modelo de Witchcraft que Margaret Murray descreveu em seu livro de 1921, The Witch Cult in Europe. A tese de Murray era de que uma religião universal, pré-cristã, baseada em uma Deusa existiu por toda a Europa. Esta idéia foi recebida como ridícula por seus colegas acadêmicos e feriu sua credibilidade como uma respeitada Egiptologista. Hoje, poucos estudiosos consideram que suas interpretações de tais fatos como tendo sido acurados. Entretanto, Murray trouxe a idéia do culto à Deusa, que a Wicca Gardneriana praticava, de volta ao centro das atenções após uma longa ausência.

A Segunda crítica é a de que a "Velha Dorothy" Clutterbuck e o coven de New Forest realmente nunca existiram, exceto na mente de Gardner. Entretanto, Doreen Valentine, que nos idos de 1950 pertenceu ao coven de Gardner (que não era o coven de New Forest), localizou as certidões de nascimento e morte de Dorothy Clutterbuck no início dos anos 80.

Clutterbuck nascera na Índia em 1881 e morrera na Inglaterra em 1951. Ela deixou um montante de 60,000 libras, que mostrou ser razoável para ela ter possuído a grande e antiga casa perto de New Forest onde Gardner disse ter sido iniciado.

Um terceiro desafio é o que afirma que o ocultista Aleister Crowley foi pago por Gardner para escrever seus rituais. Valiente, que é o autor de vários livros sobre bruxaria moderna, é a fonte de vários fatos sobre Gardner. Após unir-se ao coven de Gardner, ela diz ter ajudado-o a escrever ou rescrever alguns de seus rituais originais. A cópia do Livro de Sombras que Valiente primeiramente viu realmente tinha semelhanças com os trabalhos de Aleister Crowley, assim como incluíam uma adaptação do poema de Rudyard Kipling chamado "A Canção da Árvore". Quando ela confrontou Gardner, ele admitiu ter copiado livremente algum material dos escritos de Aleister Crowley para preencher lacunas nos originais de New Forest. Valiente, entretanto, desmente a acusação de que Aleister Crowley que morreu em 1947, vários anos antes de Witchcraft Today ter sido publicado, tenha escrito os rituais de Gardner.

Valiente acredita ainda que os termos de maçons como "the working tools", como referência aos candidatos estarem devidamente preparados para a iniciação, assim como o sistema de três graus de iniciações, foi incorporado da ritualística Maçônica por Gardner, que era também Co-Maçon.

A quarta crítica, feita por Isaac Bonewits, é a de que a Wiccan Rede é também de origem moderna. Bonewits é um Druida erudito independente, e crítico de Gardner de longa data. Ele apontou que Crowley escreveu "Do what thou whilt, that is the whole of the Law", no início do século XX. Esta afirmação é bastante similar à segunda parte da Wiccan Rede "Do as thou whilt" A primeira parte da Wiccan Rede "Na ye harm none", pode ter sido adicionada por Gardner, Bonewits acredita, para evitar acusações de que a Wicca era uma religião negativa envolvida com maldições.

Nos idos de 1960 e 70, era muito importante para alguns bruxos se era verdade ou não que Gardner havia descoberto um verdadeiro coven sobrevivente, ou se havia criado a religião Wiccan baseado em seus vastos conhecimentos sobre o oculto. É verdade que Gardner gabou-se de seu vasto conhecimento sobre o oculto em Witchcraft Today. Baseado nas críticas feitas por Bonewits, Baker, Kelly e outros, hoje em dia a maioria dos Wiccans aceitam que Gardner adicionou livremente material de outras tradições ocultistas em sua descrição da Wicca.

A Wicca Gardneriana nos proporciona uma mitologia positiva de uma religião pré-cristã que gostaríamos que tivesse sobrevivido. Mas sobre isto não há praticamente nenhuma evidência histórica. O culto à Deusa e ao Deus Cornífero da Natureza em celebrações sazonais e lunares são autenticamente muito antigas/ Apenas os rituais e ferramentas Gardnerianos utilizados por nós são de origem moderna.

Na Segunda parte desta série, eu descreverei as raízes medievais da Wicca, incluindo aquelas derivadas do Hermetismo, da Qabala, e do Tarot.

 

Referências:

James W. Baker, "White Witches: Historic Fact and Fantasy," in Magical Religion and Modern Witchcraft, James. R. Lewis, ed., SUNY Press, 1996.

Farrar, Janet and Stewart, A Witches Bible Compleat, Magickal Childe, 1984.

Gardner, Gerald, Witchcraft Today, 1st edition, Ryder and Co, U.K., 1954; this edition, 7th paperback printing, Magickal Childe, 1991.

Guiley, Rosemary Ellen, The Encyclopedia of Witchcraft and Witches, Facts On File, 1989. Hopeman, Ellen Evert and Lawrence Bond, People of the Earth: the New Pagans Speak Out, Destiny Books, 1996.

McCoy, Edain, In a Graveyard at Midnight, Llewellyn, 1995.

RavenWolf, Silver, HexCraft, Llewellyn, 1995.

Valiente, Doreen, The Rebirth of Witchcraft, Phoenix Publishing, 1989.

Este artigo foi originalmente publicado em Lady Letter, uma publicação de Our Lady of the Woods, um coven Wiccan.

 

Parte II: Elementos da Tradição da Magia (k) Ocidental

 

Introdução:

Neste segundo artigo sobre as raízes da Wicca, irei examinar algumas práticas mágicas e religiosas (Hermetismo, a Qabala, e o Tarot) incluídas na Tradição da Magia (k) Ocidental, também chamado de Mistério Ocidental, Tradição Oculta, ou Caminho Ocidental. Todas estas práticas foram introduzidos na Europa Ocidental durante o final da Idade Média e Renascença. Organizações fraternas secretas como os Maçons e os Rosacruzes ajudaram a preservar estas práticas e conhecimentos ocultos através dos séculos, Muitos dos feitiços, charmes e elementos (convocar os quatro pontos cardiais, por exemplo) comumente utilizado por wiccans originaram-se na Tradição Ocidental de Magia (k).

Francis King, autor de Ritual Mágico na Inglaterra (Ritual Magick in England), afirma que esta tradição mágica é baseada em 1) na crença em um sistema de correspondências operando no universo e no ser humano individualmente; 2) na crença de que a vontade humana devidamente treinada é praticamente capaz de qualquer coisa e a força motriz em todas as operações mágicas é a vontade (will) do mago treinado; e 3) a crença de que outros planos de existência (a Luz Astral, por exemplo) e outras inteligências fora das encarnações físicas podem ser contactadas pelo mago treinado.

Os tempos entendidos entre os séculos XIII e XVII foram tempos de sublevação política e cultural no Oeste Europeu, enquanto que a Igreja Católica lentamente perdia seu praticamente completo poder de dominação sobre as vidas cultural e intelectual das sociedades. Velhas idéias, há muito suprimidas como heresias puníveis com a morte, começaram a ressurgir abertamente incluindo àquelas pertencentes a Tradição Mágica (k) Ocidental.

A Tradição Mágica (k) Ocidental começou a se coligar depois das Cruzadas, enquanto estas retornavam do meio oriente trazendo idéias gnósticas sobre como alcançar a salvação pessoal obtendo-se conhecimento ou gnosis, ao invés de na crença de escrituras "reveladas". Os Cavaleiros Templários foram a maior e mais rica das sociedades secretas cristãs fundada por Cruzados que retornavam do oriente, mas foram declarados hereges e brutalmente suprimidos pela Igreja Católica Romana no começo do século XIV. A Tradição Mágica (k) Ocidental sobreviveu, entretanto, porque começou a ser eventualmente tolerada pela Igreja Católica. Em um exemplo, a Cabala Judaica foi "cristianizada" e confundida com uma certa extensão do Velho Testamento.

Nas sessões seguintes, descreverei como o Hermetismo, o Tarot, e a Qabala contribuíram para a Wicca moderna.

 

Hermetismo – Salvação Através da Sabedoria Eterna

Hermetismo, baseado no antigo gnosticismo grego, proveu quase a totalidade do racionalismo para a prática da magia ocidental. No gnosticismo Hermético nenhuma figura de um Salvador como Jesus é necessário, porque cada indivíduo deve alcançar sua salvação com a sucessiva obtenção de gnosis.

A filosofia mágica Hermética é mais claramente vista na alquimia, que pode ser vista como uma alegoria da transformação dos humanos incompletos (os metais básicos) em criaturas mais divinas (o ouro) através da aquisição de gnosis. O Hermetismo é também baseado na crença de que, ao contrário das afirmações da Igreja, poderes ocultos não são uniformemente malévolos. Ao contrário, eles podem ajudar no retorno da alma à Deus provendo o conhecimento de feitiços protetores, palavras de poder, e palavras-chave necessárias para que a alma possa seguir a jornada pós-morte com sucesso.

As maiores idéias Herméticas foram encontradas no Corpus Hermeticum (originalmente quarenta e dois livros em extensão), que foi escrito em Alexandria, Egito, nos séculos II e III A. C. Estes livros foram originalmente atribuídos a Hermes Trimegistus, uma figura legendária possuidora dos atributos positivos de Thoth e Hermes.

Em 1460, Cosimo de Medici, o governante de Florença, obteve um fragmento grego do Corpus Hermeticum. Seu escriba clerical, Marsilio Ficino, traduziu o texto para o latim, linguagem compreendida pela elite educada. Esta versão em latim e outras traduções dos textos sobreviventes foram de extraordinária importância, pois incluíam tratados em astrologia, medicina astrológica, alquimia, magia e o sistema de correspondências ocultas que formam a base da Tradição Mágica (k) Ocidental.

A Tábua Esmeralda é um documento de uma página que resume todo o conhecimento Hermético. Ela circulou pelo Ocidente durante a Idade Média, e começa com o conhecido ditado "O que está em cima é como o que está em baixo e o que está embaixo é como o que está em cima" (N. do T: tradução livre minha. No original: "That which is above is like that which is below and that which is below is like that which is above."). Muitos dos rituais e do simbolismo esotérico encontrados na bruxaria neo-Pagã hoje em dia são baseados em práticas Herméticas. Por exemplo, eram os Herméticos, e não os antigos Celtas, que chamavam pelos quatro pontos cardiais correspondendo aos clássicos elementos do ar, fogo, água e terra.

 

A Qabala – Influência Judaica nas Tradições Ocidentais

Não é difícil encontrar uma bruxa qabalista, apesar do fato que a maioria dos qabalistas não são bruxos. Em Uma Bíblia das Bruxas Completa (A Witches Bible Complete), Janet e Stewart Farrar descrevem o uso de um jogo de cartas de Tarot na forma da Árvore Qabalística e fornecem uma interpretação Qabalística. Will Parfit define que a palavra Qabala significa "revelar" em Ebreu. A palavra Qabala é também escrita como Cabala, Kabala, e Kabbalah. Muitos ocultistas preferem escrever "Qabala", que eu utilizarei.

A história da Qabala consiste em uma história "mística" e uma "mundana", segundo Parfit. De acordo com a história mística, Moisés recebeu os ensinamentos esotéricos da Qabala junto com os Dez Mandamentos. Após a morte de Moisés, um grupo de homens sábios preservou em segredo os ensinamentos da Qabala através de gerações.

Os registros históricos da Qabala começam com os Judeus vivendo na Espanha no século XIII. Nesta época estudos Cabalísticos, baseados no material Judaico datando dos últimos séculos Antes de Cristo, sofreram um renascimento popular. A Qabala tornou-se disponível para os místicos cristãos que rapidamente adotaram-na. À partir do século XV seu uso passou a ser visto como uma prática cristã aceitável. Dois livros Qabalistas hebreus deste período, o Sephir Yetzirah (Livro da Formação) e o Zohar (Livro do Esplendor) formaram a base de todos os ensinamentos Cabalísticos subseqüentes.

Ambos os livros enfatizavam que o propósito maior da Qabala é reunir a Deusa deposta Shekina com seu marido (JHVH) para assim restaurar a totalidade de Deus. Barbara Walker aforma mais enfaticamente que a premissa básica da Qabala é a de que todos os males do mundo derivam da perda de contato de Deus com a Shekina. A união sexual humana representa a união do Deus com sua Deusa e isto é um "ato sacramental" que visa a harmonia universal. A Qabala ainda enfatiza um balanço entre pensamentos e sentimentos.

A filosofia Qabalista é representada esquematicamente por um complexo diagrama chamado de "A Árvore da Vida". Este diagrama é uma representação simbólica compreendendo dez esferas (embora uma seja geralmente invisível) ou sephirot (o singular é sephirah). Vinte e dois caminhos interconectam as sephirot. Cada sephirah representa a obtenção de um tipo de conhecimento divino. A sephirah Hod, por exemplo, representa pensamentos e é oposta a Netzach, que representa sentimentos.

Wiccans ecléticos que trabalham com tradições fora daquelas originadas no noroeste europeu podem encontrar na Qabala um sistema para desenvolvimento pessoal e individual altamente desenvolvido, afiado por centenas de anos de prática.

 

O Tarot – Sabedoria Cósmica das Cartas da Fortuna

Para algumas bruxas, as cartas de Tarot são o método mais comum de divinação e o mais profundamente associado à Tradição Oculta Ocidental.

Ninguém sabe onde, como ou porque as cartas de Tarot apareceram na Europa no final do século XIV. Barbara Walker afirma que "livros não encadernados (folhas soltas) de cartas de figuras foram largamente utilizadas no oriente para o ensino de doutrinas místicas para pessoas que não podiam ler". O mais antigo Tarot é formado pelas cartas de Baldini, atribuídas por tradição a Andrea Mantegna. A data do deck original é por volta de 1470. Cartas de Tarot foram banidas de várias localidades entre 1378 e 1441 por autoridades da Igreja, que corretamente suspeitaram de que elas representavam um caminho espiritual "herege". As cartas de Tarot são também os ancestrais prováveis de nossos modernos baralhos de jogo.

Ciganos provavelmente tiveram sua origem na Índia e por volta do século X eles partiram para o oeste. Começando no século XV, eles começaram a espalhar o Tarot pelo curso de suas viagens pela Europa. Os Ciganos, que não discordam de serem falsamente rotulados como egípcios, ajudaram a perpetuar a teoria popular de que o Tarot é de origem egípcia. Em 1784, Antoine Count de Gebelin, um arqueologista francês, publicou um livro que afirmava que os símbolos do Tarot derivavam do antigo Egito e eram uma versão degenerada do Livro de Thoth.

Em meados do século XIX, o ocultista francês Eliphas Levi associou os vinte e dois trunfos dos Arcanos Maiores com os vinte e dois caminhos da Árvore da Vida Qabalística. Will Parfitt acredita que é altamente significativo que hajam vinte e dois trunfos no baralho do Tarot que podem ser relacionados com os vinte e dois caminhos da Árvore da Vida da Qabala. Em contraste, Francis King sugere que isto não passa de uma coincidência.

Pessoalmente, eu acredito que o Tarot é a ferramenta de divinação mais popular entre os Wiccans e outros. Nas décadas recentes, dezenas de baralhos de Tarot diferentes e muitas diferentes interpretações ficaram disponíveis para leitores de várias tradições, como a Qabalista, a Cristã, Cigana, Hermética e agora Wicca, para citar apenas alguns. A cada momento os baralhos se multiplicam, os leitores podem escolher entre várias interpretações possíveis. A carta da Morte, por exemplo, pode representar um abandono do passado, novo começo, e o nascimento de novas idéias em adição à visão da morte física.

 

As Maçonarias e os Rosacruzes – Sociedades Ocultas Secretas

O papel das Sociedades Secretas na perpetuação do conhecimento oculto não deve ser superestimada. Gnosticismo, incluindo Hermetismo, assumem que apenas uma pequena elite de indivíduos avançados estão prontos para receber a sabedoria eterna. Este conhecimento deve ser mantido escondido das massas ignorantes, que podem não o entender, ou pior, utilizá-lo para propósitos mundanos, como obter vantagens pessoais ou colocar maldições em seus inimigos. Muitos ocultistas acreditam ainda que seus rituais ou feitiços perderão seu poder se revelados para pessoas descrentes. Sendo assim, sociedades secretas fraternas foram formadas para guardar e perpetuar o conhecimento oculto. A Maçonaria teve seu início no século XV como uma guilda de trabalhadores que trabalhavam em pedras. Com o passar dos séculos, a Maçonaria desenvolveu-se em uma sociedade fraternal secreta independente do trabalho em pedras.

Tanto Gerald Gardner quanto sua Alta Sacerdotisa Dafo foram membros dos Co-Maçons, uma ramificação da Maçonaria que admitia mulheres, um contraste agudo em relação à muito maior "English United Grand Lodge Of Masons", que proibe estritamente membros mulheres. Foi provavelmente Gardner quem introduziu elementos Maçons na Wicca.

Estes elementos maçons pegos emprestados pela Wicca incluem as palavras "Arte" ("Craft" em inglês) e "cowan", assim como a frase "So mote it be" (traduzida geralmente como "Que assim seja"). Os Farrars acreditam que o ato de se amarrar um postulante (Dedicant) pelo pulso com uma corda durante a Iniciação de Primeiro Grau (Tradições Gardneriana e Alexandriana) corresponde à iniciação Maçônica, assim como a apresentação de um ponto para o peito do postulante durante esta cerimônia. Uma versão recente da Iniciação de Terceiro Grau Gardneriana inclui a frase "Sagrados Pilares Gêmeos B & J" aparentemente referindo-se aos nomes maçônicos Boaz e Jachin aplicados aos Pilares Gêmeos do Templo de Salomão. As letras B & J marcam os pilares na carta da Alta Sacerdotisa do deck de Tarot de Rider-Waite, que apareceu pela primeira vez em 1910.

A Lenda Hirâmica, o cerne da lenda Maçônica, conta a história de Hiram que foi Rei de Tyre, um reino vizinho à antiga Israel. Seu mestre construtor era Chiram Abiff, o Grande Mestre dos Arquitetos de Dionysius, e o mais astuto e talentoso trabalhador que já viveu. Com a permissão de Hiram, Chiram supervisionou a construção do Templo de Salomão. Chiram foi morto por três assistentes invejosos chamados de Aprendizes Admitidos (Entered Apprentices). Seu corpo foi eventualmente encontrado e mais tarde ressuscitado por um Mestre Maçon com o "agarro forte de uma Pata de Leão" ("strong grip of a Lion’s Paw", no original). Manly Hall, ou Rosacruz escrevendo em 1920, acreditava que esta lenda maçônica era modelada na lenda egípcia da morte e ressurreição de Osíris.

Os Mistérios Maçônicos pretendem ensinar o iniciado como se preparar dentro de sua alma um poder milagroso que pode transmutar a ignorância humana, perversão e discordância em um uma liga de ouro espiritual e filosófico. Esta afirmação claramente descende da alquimia Hermética.

Hall acreditava, apesar das afirmações contrárias, que a Maçonaria é uma religião que busca a união entre Deus e homem através da elevação de seus iniciados a um nível de consciência mais elevado, de onde eles poderão observar as criações do Grande Arquiteto do Universo. Se Hall estiver correto, os Maçons são uma religião gnóstica remanescente.

 

A Irmandade Rosacruz:

Os Rosacruzes sempre foi mais místicos e esotéricos do que os Maçons. A histórica Irmandade Rosacruz anunciaram-se primeiramente sua existência em uma série de panfletos entre 1614 e 1616. Um trabalho chamado Reforma Geral do Mundo continha um tratado, o Fama Fraternitatis, que descrevia um nobre alemão chamado Cristian Rosenkreuz (traduzido do alemão para o inglês como Rosy Cross ou Rosycross) que fundara os Rosacruzes em meados de 1390. De acordo com o tratado, Rosenkreuz viajou pela Arábia e estudou no Egito quando era ainda um jovem. Após retornar à Alemanha formulou a sabedoria que havia adquirido durante suas viagens em um sistema para salvar a humanidade. Em A História das Sociedades Secretas, Daraul Arkon concluiu que nenhuma documentação independente prova que a Ordem Rosacruz é do século XIV.

Os Rosacruzes afirmam que eles não sentem nem fome nem sede, podem atrair pedras preciosas e jóias para si, comandar espíritos e ficarem invisíveis.

Uma conexão entre Rosacrucianismo e Maçonaria foi feita em 1638, King afirma. No meio do século XVIII um rito supostamente Rosacruz Maçônico foi praticado por Jacobitas Escoceses exilados. Este rito é provávelmente o ancestral do grau Maçônico contemporâneo conhecido como Rose-Croix of Heredom.

O Rosacruz Manly Hall acreditava na provável existência de dois corpos Rosacruzes distintos: uma organização interna (a sociedade original de Rosenkreuz) e uma externa, mais pública operando sob a supervisão do grupo interno. Ele teorizou que os Rosacruzes podem ter criado os Maçons e então desaparecido dentro deles, ou possivelmente podem ainda existir como uma ordem secreta independente.

No final do século XIX, três dos quatro membros fundadores da influente Ordem Hermética da Aurora Dourada ("Hermetic Order of the Golden Dawn") eram também membros da Societas Rosicruciana in Anglia. Foi no Primeiro Teatro Rosacruciano na Igreja de Cristo, Inglaterra, que abriu em 1938, que Gerald Gardner contactou pela primeira vez os membros do Coven de New Forest. O Coven Gardneriano tradicional é padronizado de acordo com os Maçons e Rosacruzes no sentido de só revelar segredos do grupo para os iniciados.

 

Conclusões:

Uma vantagem de se estar à par de que praticantes da Wicca são parte da Tradição Mágica (k) Ocidental é a de que você pode pesquisar mais profundamente estas práticas para desenvolver uma autêntica prática mágica pessoal baseada em uma tradição centenária.

O desenvolvimento da Wicca durante os últimos cinqüenta anos representou um novo passo na evolução da Tradição Mágica (k) Ocidental. Wicca é uma fusão das idéias de Gardner sobre a Bruxaria Pré-Cristã européia com Maçonaria e outros elementos ritualísticos da tradição ocidental.

Na parte 3 desta série, descreverei como o renascimento ocultista do final do século XIX e início do século XX. Organizações chave como a Golden Dawn e a Ordo Templi Orientis serão descritas assim como os ocultistas Aleister Crowley, Dion Fortune e outros.

 

Referências:

Arkon, Daraul. A History of Secret Societies. A Citadel Press Book, 1994; 1st edition, 1961.

Cavendish, Richard (editor). Encyclopedia of The Unexplained. Arkana Penguin, 1989; 1st edition, 1974.

Farrar, Janet and Stewart. A Witches Bible Compleat. Magickal Childe, 1984.

Guiley, Rosemary Ellen. The Encyclopedia of Witchcraft and Witches. Facts on File, 1989.

Hall, Manly P. An Encyclopedic Outline of Masonic, Hermetic, Qabbalistic, and Rosicrucian Symbolical Philosophy. 19th Edition.

The Philosophical Research Society, Inc., 1973; 1st edition 1928.

Holroyd, Stuart. The Elements of Gnosticism. Element, Inc., 1994.

King, Francis. Ritual Magic in England. Neville Spearman Ltd., 1970.

Lachman, Gary. "The Renaissance of Hermetic Man." Gnosis, No. 40, Summer 1996.

Matthews, Caitlin and John. The Western Way Omnibus. Arkana Penguin, 1994.

Parfitt, Will. The Elements of the Qabalah. Element, Inc., 1991.

Smoley, Richard. "The Esmerald Tablet." Gnosis, No. 40, Summer 1996.

Valiente, Doreen. The Rebirth of Witchcraft. Phoenix, 1989.

Waite, Arthur Edward. The Pictorial Key to the Tarot. Interstate Book Manufacturers, 1983; 1st edition 1910.

Walker, Barbara. The Woman's Encyclopedia of Myths and Secrets. Harper San Francisco, 1983.

 

Parte 3: Uma breve história da Golden Dawn

e Outros Grupos Ocultos do Século XIX

 

Nenhuma organização representa melhor o final do século XIX e início do XX falando-se sobre magia cerimonial ocidental do que a Ordem Hermética da Aurora Dourada (Hermetic Order of the Golden Dawn, doravante chamada neste texto somente de Golden Dawn ou OGD). A Golden Dawn fazia parte de um grande renascimento ocultista que ocorreu após vários intelectuais Iluministas, como o filósofo David Hume, terem espalhado desprezo por todas as religiões e crenças ocultistas por mais de um século. Uma visão mágica do mundo, no entanto, se encaixava perfeitamente na mentalidade Romântica do final do século XIX.

Duas outras organizações bem diferentes que promoveram este renascimento ocultista foram a Sociedade Teosófica (Theosophical Society), que precedeu a Golden Dawn em alguns anos e em certos termos serviu como seu modelo, e a Ordo Templi Orientis, um grupo do início do século XX que se focalizava em magia sexual Tântrica. Três ocultistas influentes a serem abordados neste artigo são Aleister Crowley, Israel Regardie e Dion Fortune. Cada um deles ajudou a preservar muito do que sabemos sobre a magia da Golden Dawn. Também falarei sobre o que se é sabido sobre a influência de Aleister Crowley em Gerald Gardner.

 

O Começo do Renascimento Mágico – Barrett e Levi

O retorno da magia à uma posição de respeito entre as classes educadas começou em Londres, 1801, quando Francis Barret publicou seu livro O Magus (The Magus). Ele descrevia extensivamente magia e ocultismo, cobrindo tópicos como magia natural de ervas e pedras, magnetismo, talismãs mágicos, alquimia, numerologia, os elementos, e magia cerimonial, e ainda fornecia biografias de Adeptos famosos. Por ser uma única fonte de informação sobre ocultismo no início do século XIX, O Magus se tornou bastante influente. Barrett escreveu pela perspectiva de um devoto Cristão que afirmava abominar Bruxas, mas seu livro capturou muito da informação ainda conhecida sobre a Bruxaria Tradicional (Traditional Witchcraft). Portanto, de acordo com Doreen Valentine, seu livro foi muito valorizado pelos Bruxos literatos o bastante para lê-lo.

Duas gerações depois, Eliphas Levi, o mais influente ocultista francês de seu tempo, glorificava enormemente O Magus. Levi, cujo nome de nascimento era Alphonse Louis Constant, tentou à princípio uma carreira eclesiástica mas nunca completou seus votos clericais. O primeiro e mais importante livro de Levi foi Dogma e Ritual de Alta Magia (The Dogma and Ritual of High Magic), publicado primeiramente na França em 1856. Em Dogma ele liga os vinte e dois Arcanos Maiores do Tarot às vinte e duas letras do alfabeto Hebráico. Ele ainda enfatiza a importância da força de vontade dos praticantes de magia para alcançarem seus objetivos. Levi atraiu um grupo de seguidores incluindo alguns ocultistas ingleses. Uma década após sua morte em 1875, sua teoria mágica foi incorporada à Golden Dawn por seus fundadores.

 

A Sociedade Teosófica – Os Mestres do Leste vão para Oeste.

Helena Petrova Blavatsky (1831-1891), russa, foi a fundadora da Sociedade Teosófica. Coronel Henry Steel Olcott, um proeminente advogado de Nova York, uniu-se a Blavatsky para iniciarem a sociedade em 1875. Olcott e Blavatsky se encontraram pela primeira vez na fazenda do irmão de Eddy em Chittenden, Velmont, em 1874. Olcott estava profundamente envolvido na defesa do movimento espírita, que estava povoado por vários médiuns fraudulentos e Blavatsky foi levada à fazenda pelas notícias de jornal de Oscott que reportavam aparecimentos de parentes mortos dos participantes das sessões. Blavatsky e Oscott logo tornaram-se grandes amigos, e, apesar de logo estarem dividindo um apartamento em Nova York, eles nunca foram amantes.

Blavatsky seguiu os modelos ocultistas das escolas, ou "lodges" asiáticas, que tinham uma linhagem inquebrável que se estendia por milhares de anos. Seus Adeptos ou Mestres, que viviam no plano astral, permitiam que apenas os neófitos merecedores os conhecessem e recebessem seus ensinamentos. Seu primeiro livro, Ísis Desvelada (Isis Unveiled), foi escrito, ela afirmou, enquanto ela estava sob a influência dos Mestres. No jargão da Nova Era atual, este foi um livro psicografado.

A Teosofia literalmente significa "Conhecimento de Deus", mas foi a sociedade oculta de Blavatsky que veio a representar completamente este termo. Ela sentia que a Sociedade Teosófica fora selecionada pelos Mestres para trazer uma nova mensagem para uma nova era. Seu segundo livro, A Doutrina Secreta (The Secret Doutrine), descrevia uma doutrina Teosófica distintiva, incluindo a descrição dos controversos Mestres guias. Na Teosofia o ritmo de evolução pessoal de cada indivíduo até um status Divino (God-like, no original) é determinado pelo tipo de karma (bom ou mal) acumulado após diversas reencarnações. Muitos Teosofistas acreditavam ainda em viagens astrais e comunicação com seus Mestres orientais.

Blavatsky viveu em Londres à partir de 1887, e foi amiga do Dr. William Wyn Wescott, um dos fundadores da Golden Dawn. Após sua morte, em 1891, a Sociedade Teosófica dividiu-se em uma seção Norte Americana e uma Européia.

A Sociedade Teosófica foi o mais ativo grupo ocultista de 1880 até 1920. No entanto, sua ênfase nos Mestres orientais afastou muitos membros em potencial. Alguns destes fundaram a Golden Dawn, baseados na tradição Hermética ocidental, por ser um caminho espiritual mais confortável.

 

Golden Dawn – A Grande Organização de Magia Cerimonial

Muito do conhecimento válido sobre a magia cerimonial ocidental foi desenvolvido ou compilado de outras fontes pela Golden Dawn original ou por um dos seus grupos descendentes. Muitas escolas esotéricas modernas podem traçar sua descendência da Golden Dawn. Em suas palavras o propósito da Golden Dawn nas palavras de Israel Regardie era "levar a diante o Grande Trabalho" (to prosecute the Great Work), que significa que cada membro deveria obter controle da natureza e do poder de seu próprio ser com o objetivo de se tornar mais Divino (God-like). Dentro da Golden Dawn a primeira ordem consistia de dez graus, cada um correspondendo à uma Sephirah na Árvore da Vida Qabalística. Como na Teosofia, a Golden Dawn também afirmava comunicar-se astralmente com Chefes secretos, também conhecidos como Mestres secretos (hidden Masters).

Três dos quatro membros fundadores da Golden Dawn eram também membros da Societas Rosicruciana in Anglia (a sociedade Rosacruz Inglesa) cujos membros tinham que ser Mestres Maçons. Estes eram Dr. William Wynn Westcott, um magistrado londrino; Samuel Lidell MacGregor Mathers, um notável erudito ocultista; e Dr. William Robert Woodman, um médico aposentado.

A história da Golden Dawn começa em 1885 quando o Ver. A. F. A. Woodford obteve um manuscrito escrito em linguagem cifrada entre os papéis outrora pertencentes ao ocultista Fred Hockley. Woodford, um Maçon ancião, mas não um Rosacruz, deu a Wescott aproximadamente sessenta folhas deste manuscrito. Ele aparentava ser antigo, mas provávelmente havia sido escrito por volta de 1870 por um autor desconhecido. Sua chave foi encontrada na Poligrafia de Abbot Johann Trithemius (1462-1516). O manuscrito decodificado resumia cinco rituais de uma desconhecida "organização Golden Dawn". Wescott então convidou Mathers a compor rituais completos baseados nos resumos do manuscrito cifrado. Seus rituais completos seguiam claramente àqueles da Maçonaria.

Uma página do manuscrito cifrado mencionava uma certa Anna Sprengel de Nuremburg, Alemanha, que era citada como uma Rosacruz de alto grau. Wescott aformou ter contactado Sprengel pelo correio. Ela respondera conferindo graus honorários de Exempt Adept à Wescott, Mathers e Woodman, e fornecendo-lhes uma carta patente permitindo a fundação do Templo da Aurora Dourada na Inglaterra. Estes homens inauguraram o Templo de Ísis-Urania em Londres, 1888, e em pouco tempo, três Lojas (Lodges) Golden Dawn operavam na Inglaterra e Escócia.

Em 1891 Wescott afirmou que Sprengel morrera. Porém, atualmente sua existência é questionada por Francis King e muitos outros eruditos da Golden Dawn. No ano seguinte, Mathers afirmou ter restabelecido a ligação com os Mestres secretos, quebrada com a morte de Sprengel. Ele então supriu os rituais para o segundo nível (ordem) dos graus da Golden Dawn, que foram chamados de Rosa Vermelha e Cruz da Ordem Dourada (Red Rose and Cross of Gold Order). O terceiro nível, ou ordem, consistia somente dos Chefes Secretos. Mathers, uma personalidade arrogante e vistosa, era financeiramente dependente da pensão que a herdeira do chá Annie Horniman pagava a ele e sua mulher, Mina, após sua mudança para Paris em 1894. Ele logo se desentendeu com Horniman e ela cortou sua pensão. Mathers retribuiu expulsando-a da Golden Dawn em 1896, afirmando que estava agindo sob as ordens dos Mestres secretos. Muitos membros protestaram contra sua expulsão, sem sucesso.

Em 1899, muitos membros da Ísis-Urania estavam insatisfeitos com o governo autocrático de Mathers e sua crescente amizade com o jovem Aleister Crowley, que havia sido iniciado no ano anterior. Estes membros desejavam ainda contactar os Mestres Secretos ao invés de confiarem em Mathers.

Uma nova crise começou quando os oficiais da Ísis-Urania recusaram-se a iniciar Crowley, a quem eles consideravam mentalmente desequilibrado, como um Adepto-Menor (o mais baixo grau da Segunda Ordem). Crowley viajou então para Paris onde Mathers iniciou-o. Os oficiais da Ísis-Urania responderam à iniciação de Crowley feita por Mathers expulsando os dois. Crowley, que era nesta época um devotado discípulo de Mathers, viajou da França para Londres. Ele desejava tomar posse do Templo Ísis-Urania, mas foi expulso por alguns membros alertas, que foram ajudados pela polícia metropolitana de Londres.

Durante o ano seguinte, mais conflitos de personalidade floresceram entre os membros remanescentes. Em 1900, a irreversível explosão da Golden Dawn em facções hostis teve início. Os seguidores de Mathers, tanto dentro quanto fora da OGD, formaram o Templo Alpha et Omega (AO). A E Waite, um místico cristão e mais tarde autor do Tarot Rider-Waite, e alguns membros originais reformaram a Golden Dawn em um grupo que focalizava o misticismo cristão ao invés da Magia. Em 1905 outra grupo dissidente formou a Stella Matutina (Estrela da Manhã). Depois de brigas afiadas, Mathers e Crowley se separaram.

Em Magia Ritual na Inglaterra, Francis King escreve que muito do sistema da Golden Dawn não era original, pois partes componentes deste podem ser encontradas entre os escritos ocultistas com milhares de anos de história européia. Os fundadores da OGD, com Mathers como o maior contribuinte, construíram um sistema prático de ocultismo coerente e lógico com estes elementos.

 

Crowley Descobre a Magia Sexual na OTO.

Após sua expulsão da Golden Dawn, Aleister Crowley viajou pelo oriente e meio-oeste. Ele estava no Cairo em abril de 1904 com sua primeira mulher, Rose Kelly, quando entrou em três grandes visões em transes. Elas ocorreram em três dias sucessivos, e cada uma teve uma hora de duração. Quando em transe, escreveu Liber AL vel Legis, ou O Livro da Lei. Mais tarde, Crowley afirmou que este livro foi transmitido por uma entidade não humana chamada Aiwass. Sua mensagem era A Lei de Thelema, resumida como "Do what thou wilt shall be the whole of the Law" (N. do T: nem os Thelemitas sabem traduzir isso, eu não vou nem tentar.. :o)

Em 1907 Crowley começou a construção de uma ordem de estilo Rosacruz chamada Astrum Argentum (Estrela de Prata) consigo mesmo como cabeça. Sua revista oficial, o Equinócio (the Equinox), começou a ser publicada em 1909. Alguns anos mais tarde publicou alguns rituais da Golden Dawn resumidos no Equinox. Mathers foi à corte para evitar a publicação dos rituais da Segunda Ordem, que Crowley havia anunciado estar planejando publicar. O mandado da corte foi negado e Crowley publicou resumos dos rituais no Equinox de 1912. De qualquer forma, a distribuição da revista foi limitada.

Crowley então teve informações sobre e se uniu à Ordo Templi Orientis (OTO). Esta organização alemã fora inspirada pelas idéias do Dr. Karl Kellner, um Maçon alemão de alto grau, ocultista e industrialísta que possuía o conhecimento teórico da magia sexual Tântrica do oriente. Theodor Reuss na verdade fundou a OTO em 1906, um ano após a morte de Kellner. A OTO ensinava que a magia sexual era a chave para todos os segredos Maçons e Herméticos, e mais ainda, a explicação de todos os sistemas de religião. Entre os nove graus de iniciação da OTO, apenas os 7o, 8o e 9o incluíam a prática de magia sexual. Atividades sexuais específicas variavam desde "masturbação mágica" (um rito de 7o grau) até a copulação heterossexual completa (9o grau). O décimo grau cuidava apenas de assuntos administrativos. Crowley, um bissexual, mais tarde adicionou um décimo primeiro grau focalizando a magia homossexual. Ele também reescreveu os rituais de vários graus da OTO.

A OTO apontou Crowley como Supremo e Sagrado Rei (Supreme and Holy King) da Irlanda e ilhas inglesas após ter recebido sua iniciação de nono grau em 1912. Em 1915, durante a Primeira Guerra Mundial, ele deixou a Inglaterra e foi para os EUA, pois o governo inglês fazia oposição à sua posição pró-germânica. Em 1919 ele retornou para viver primeiramente na Sicília, de onde foi expulso por má conduta sexual, em seguida na França.

Em 1922 foi apontado o cabeça do que havia restado da OTO alemã. Pouco depois uma tradução alemã do Livro da Lei chocou muitos OTOs alemães e retiraram o reconhecimento de Crowley como seu líder. Crowley continuou como o cabeça da facção inglesa da OTO. Após 1924, Crowley focalizou primeiramente a magia heterossexual do nono grau e passou a ignorar os graus inferiores e não sexuais. Após 1929 viveu novamente na Inglaterra, e passou os últimos dois anos de sua vida vivendo calmamente em uma pensão em Hastings, onde foi visitado várias vezes por Gerald Gardner. Crowley morreu em 1947.

 

A Relação entre Gerald Gardner e Aleister Crowley.

De acordo com Doreen Valentine, Gerald Gardner foi apresentado pela primeira vez a Aleister Crowley em 1946 pelo ex-mago de palcos (stage magician) e bruxo Arnold Crowter. Antes de morrer, Crowley forneceu à Gardner uma autorização para operar uma Loja OTO (o que ele nunca fez) em troca de uma "taxa de iniciação" de 300 libras.

Valiente, que fora iniciada do Coven de Gardner em 1950, aponta que as correspondências Gardnerianas para direções e elementos são as mesmas da Golden Dawn e da tradição ocidental em geral. Além disso, o ato de afundar a ponta do Athame na Taça durante o Grande Rito simbólico da Wicca é derivado do ritual de sexto grau da OTO. Porém, Valiente acrescenta que os rituais de wicca gardnerianos possuem um sabor diferente daqueles da magia cerimonial da Golden Dawn, o que sugere outras origens além da Golden Dawn e da OTO.

Francis King, um crítico de Gardner escreveu em Magia Ritual na Inglaterra que "ele (Gardner) portanto contratou Crowley, por uma generosa quantia, para escrever elaborados rituais para a nova "Bruxaria Gardneriana". King afirma sem oferecer nenhuma evidência que Gardner já conhecia Crowley há algum tempo, e provavelmente o conhecera bem antes de 1946.

Quem está correto sobre a extensão da relação entre Gardner e Crowley? Valiente ou King? Eu acredito que não é necessária nenhuma relação secreta entre Gardner e Crowley para explicar a presença de algum material da Golden Dawn nos rituais da wicca gardneriana. Gardner era um prolífico plagiador, como Valiente afirmara mais de uma vez em seus livros. Seria mais surpreendente se ele não houvesse plagiado nada da rica tradição mágica da Golden Dawn.

 

Israel Regardie – O Cronista da Golden Dawn

O enorme livro de Israel Regardie, O Sistema Completo de Magia da Golden Dawn (The Complete Golden Dawn System of Magic) é a fonte de onde praticamente todos os rituais formais da atualidade foram adaptados, acredita Doreen Valentine.

Em 1928 com a idade de 21 anos, Regardie viajou dos EUA para a Europa para se tornar o secretário não assalariado e companheiro de Crowley. Ele aprendera sobre Crowley através da leitura de antigos volumes do Equinox. Durante os três anos seguintes Regardie adquiriu um minucioso conhecimento da tradição mágica de Crowley. Ele finalmente abandonou Crowley após sofrer demasiados abusos deste. Por exemplo, Crowley chamava-o de "serpente" ou "verme" (Ôthe Serpent or Ôthat worm) dependendo do seu humor.

Regardie uniu-se à Stella Matutina (um dos dissidentes da Golden Dawn) em 1934 e logo percebeu que ela estava em um avançado estado de declínio. Para preservar completamente o sistema mágico da Golden Dawn, ele deixou a Stella Matutina, quebrou seu voto de segredo, e publicou a maioria dos manuscritos da Golden Dawn em quatro grandes volumes entre 1937 e 1840. Ele escreveu ainda vários outros livros ocultistas.

 

As Novelas de Dion Fortune ainda Definem a Prática Mágica

As novelas de Dion Fortune, escritas entre 1920 e 1930 continuam a servir de modelo para a bruxaria moderna e o neo-paganismo. Fortune, no entanto, nunca foi uma bruxa e variava suas inspirações tanto de fontes cristãs quanto pagãs. Ela era uma ocultista avançada para o seu tempo e também conhecedora dos componentes psicológicos dos trabalhos ocultistas que hoje são também conhecidos pelos bruxos modernos. Suas duas ultimas novelas, A Sacerdotisa do Mar (The Sea Priestess) de 1938, e Magia da Lua (Moon Magic) de 1939/40 são as melhores novelas sobre magia já escritas, de acordo com Patrick Benham em Os Avalonianos (The Avalonians). No entanto, em 1938, ela teve que publicar A Sacerdotisa do Mar ela mesma, "porque ninguém mais queria tocá-lo", como Doreen Valiente conta em O Renascimento da Bruxaria (The Rebirth of Witchcraft).

Fortune nasceu como Violet Mary Firth em 1890 em Wales, filha de pais nascidos em Yorkshire que eram cientistas cristãos. Ainda criança possuía fortes poderes de visualização. Um evento chave em sua vida ocorreu quando ela tinha vinte anos, enquanto trabalhava no Colégio Stadley, um centro de treinamento agrícola. Lá ela foi sujeitada a um ataque psíquico lançado pela doutora que era sua supervisora. Como reação ela voltou-se para o estudo de psicologia para entender e curar seu ferimento psíquico. Após treinar como analista voluntária, ela começou uma proveitosa prática psicológica. Nenhum grau avançado ou licença era necessário nesta época.

Em 1919 ela iniciou-se no Templo Alpha et Omega (AO). Deo non Fortuna (Deus não Destino) foi o motto que adotou como seu nome mágico, mas logo o reduziu para Dion Fortune.

MacGregor Mathers morrera em 1918 e sua esposa Mina (posteriormente chamada Mona) Mathers seguiu como chefe da organização AO. Dion Fortune logo sugeriu que uma organização publica ou semi-pública modelada à partir da Sociedade Teosófica deveria ser formada. Seu plano era recrutar jovens para a AO, cujos membros estavam velhos. Moina Mathers concordou, e em 1922 Fortune deu início a Fraternidade da Luz Interior (Fraternity of the Inner Light), que operou por vários anos como parye da Loja Mística Cristã da Sociedade Teosófica. Logo, entretanto, Moina Mathers começou a invejar o sucesso de Fortune com a Fraternidade. Ela expulsou Fortune alegando que ela estava traindo os segredos internos da Ordem em seu livro Filosofia Esotérica de Amor e Casamento (Esoteric Philosophy of Love and Marriage). Fortune estabeleceu então seu próprio Templo AO, mas em 1929 ela tornou a Fraternidade da Luz Interior independente tanto da Loja Mística Cristã quanto da AO.

Fortune casou-se com o Dr. Thomas Penny Evans em 1927. Ele era um Galês fogoso e um cristão insignificante com uma forte inclinação para magia Pagã. Se separaram em 1938 após quase 12 anos de casamento tempestuoso. Dion Fortune viveu em Londres durante a Segunda Guerra Mundial e morreu de leucemia em janeiro de 1946.

Hoje a Fraternidade (agora Sociedade) da Luz Interior sobrevive em Londres, honra a memória de Fortune, e mantém uma cuidadosa distância do renascimento da Bruxaria.

Wicca possui diversas raízes e a tradição Golden Dawn é apenas uma delas. No entanto, os rituais wiccans praticados hoje em dia seriam bastante diferentes se o elaborado sistema de magia cerimonial da Golden Dawn não tivesse se tornado disponível para nós primeiramente através de Aleister Crowley e mais tarde através de Israel Regardie. Algumas tradições da bruxaria moderna incluem partes da magia sexual da OTO em seus rituais. O mais notável é o Grande Rito, que é baseado mais nos rituais da OTO revisados por Crowley do que na bruxaria de vila tradicional. As novelas de Dion Fortune a servir de modelo para a prática da bruxaria.

Na Quarta e ultima parte desta série, examinarei as influências do século XX na Wicca, incluindo a psicologia de Carl Jung (Deuses e arquétipos, animus e anima) e a literatura fantástica moderna (tanto ficção científica quanto fantasia).

 

Referências:

Benham, Patrick. The Avalonians. Gothic Image Publications, Glastonbury, 1993.

Cavendish, Richard, ed. Encyclopedia of the Unexplained. Arkana, Penguin, New York, 1989; 1st edition, 1974.

Crowley, Aleister. The Law is for All. New Falcon Publications, Phoenix, AZ, Sixth Printing 1993;

Fields, Rick. How the Swans Came to the Lake. Shambhala, Boston, 1992.

Guiley, Rosemary Guiley. The Encyclopedia of Witches and Witchcraft. Fact On File,Inc., New York, 1989.

King, Francis. Ritual Magic in England. Neville Spearman, London, 1970.

Matthews, Caitlin and John. The Western Way Ommnibus. Arkana, Penguin, New York, 1986

Valiente, Doreen. The Rebirth of Witchcraft. Phoenix Publishing, Inc., Custer, WA, 1989.

 

Parte IV: Mitos, Arquétipos, e Fantasia na Wicca

 

Introdução:

Durante a primeira metade do século XX, o psicanalista Carl Jung estudou o mundo de nossos pensamentos conscientes e inconscientes. Jung considerava a busca por experiências religiosas expressivas como a força motriz da psiquê humana. Ele ainda explorou o conceito de deuses e deusas como arquétipos.

A literatura de fantasia e ficção científica está numa fase de rápido crescimento. Novelas de fácil leitura situadas em sociedades pagãs do passado ou utopias futurísticas têm levado muitas pessoas a explorar os caminhos neo-pagãos e wicca. Infelizmente neste artigo, poderei revisar apenas uma pequena fatia da literatura de "ficção pagã". Trabalhos de Robert Heinlein, Marion Zimmer Bradley, Starhawk, Katherine Kurtz, e outros serão vistos de forma concisa. Estes e muitos outros autores nos presenteiam com histórias positivas sobre nosso passado pagão e histórias otimistas sobre um futuro onde o paganismo é novamente uma grande influência em nossa sociedade.

 

Psicologia Jungiana – Onde as Divindades Existem Apenas em Nossas Mentes.

Em "Drawing Down the Moon", Margot Adler escreve que muito da base teórica para uma defesa moderna do politeísmo vem da psicologia Jungiana, que afirma que os deuses e deusas dos mitos, lendas, e contos de fadas representam arquétipos, potências e potencialidades reais do fundo de nossas psiquês. Muitos neo-pagãos vêem os deuses de maneira Jungiana. Por exemplo, Adler ressalta que o falecido Gwydion Pendderwen, um conhecido bardo, que dizia que "os deuses são realmente os componentes de nossa psiquê. Nós somos os deuses". Jung examinou os arquétipos como um todo, desenvolveu o conceito de anima/animus (o lado feminino ou masculino não desenvolvido em cada um de nós), e acreditava que devemos explorar nossos lados negros (sombrio) para alcançar a totalidade psíquica ou "individuação (N do T: Como o original é "individuation", e não conheço a tradução exata deste termo, preferi utilizar o neologismo "individuação"). Ele define individuação como o amadurecimento que adquirimos a cada vez que os opostos psicológicos em cada um de nós são resolvidos. Para Jung, a psiquê é composta pelo consciente e pelo inconsciente. O inconsciente coletivo é aquela parte da psiquê que é universal e compartilhada por todos os indivíduos.

No início do século XX, enquanto estudava medicina na Universidade de Basel, na Suíça, Jung interessou-se pelo ocultismo. Como parte de suas pesquisas, visitou uma médium espírita, Senhora S. W., e leu vários volumes de literatura ocultista, de acordo com Richard Cavendish. Mais tarde Jung aplicou a terminologia psicológica aos insights descritos por oculistas e místicos. Em suas ultimas décadas, estudou ainda alquimia enquanto tentava entender a simbologia alquímica nos desenhos de um de seus pacientes, Kristine Mann. Em 1917 Jung escreveu o livro Sete Sermões para os Mortos (Seven Sermons to the Dead), que ele atribuiu a Basildes de Alexandria, um escritor gnóstico histórico que viveu em Alexandria, Egito no início da Era Comum. Neste livro ele igualava a importância de se obter gnosis (conhecimento) ao seu conceito de individuação. Os Sete Sermões e outros textos místicos escritos por ele no mesmo período resumem suas idéias criativas, escreve Stuart Holroyd em Elementos do Gnosticismo.

Deusas e deuses gregos como a personificação dos arquétipos Jungianos é o assunto de dois livros populares: Deusas em Todas as Mulheres (Godesses in Everywoman) e Deuses em Todos os Homens (Gods in Everyman), de Jean Shinoda Bolen, um experiente psiquiatra Jungiano. Na introdução do Deusas em Todas as Mulheres, Gloria Steinem escreve que "nós imaginamos os deuses e dotamos eles das qualidades que precisamos para sobreviver e crescer". De acordo com Bolen, esses poderosos padrões ou arquétipos interiores que representam estas qualidades podem explicar as principais diferenças observadas no comportamento das mulheres.

Deusas expressam padrões potências nas psiquês de todas as mulheres. Arquétipos diferentes são ativados em cada mulher a todo momento. A Grande Deusa dos tempos antigos é um poderoso arquétipo presente no inconsciente coletivo. Estereótipos de mulheres são baseados em imagens positivas ou negativas de arquétipos da deusa em nossa sociedade.

Exemplos incluem Perséfone como a donzela, Hera como a esposa ciumenta, Deméter como a mãe, e Afrodite como a prostituta ou tentadora. Enquanto pesquisava, Bolen encontrou ainda homens que identificavam parte de si mesmos com uma determinada deusa. Inversamente existem também "deuses" nas mulheres, como ela escreve em seu livro quando fala sobre Deuses arquetípicos gregos. Deuses e deusas representam várias qualidades da psiquê humana que podem ser expressas em um indivíduo, independente do sexo deste.

Deuses gregos personificam alguns dos seguintes arquétipos: Apollo é o tipo ambicioso, racional cujos lemas são "Conheça a si mesmo" e "Nada em excesso". Hefesto é o artesão treinado e uma pessoa intensa e introvertida. Hermes é o guia ou voz interior e a fonte do conhecimento Hermético. Dionísio é o deus da eterna juventude e das drogas. Muitas estrelas de rock imitaram este ultimo arquétipo, a maioria deles com resultados trágicos.

Jung ajudou a fazermos do mundo de nossa imaginação um estudo respeitável e acadêmico, e suas visões dos deuses como arquétipos têm sido adaptadas por muitos neo-pagãos.

 

Mitos, Lendas e Fantasias na Ficção Pagã.

Mitos (tanto novos quanto antigos) são histórias heróicas consideradas por muitas pessoas como eventos que nunca aconteceram realmente. Isto não significa que mitos são "falsos", mas apenas que para entendê-los precisamos separar suas verdades metafísicas da realidade literal, de acordo com Margot Adler.

Mitos e contos de fadas descrevem também os arquétipos populares de uma determinada cultura. Lendas são histórias que possuem alguma base em fatos históricos, ou podem ter sido verdade. Através dos tempos, lendas foram bastante adornadas. As muitas lendas do Rei Artur são um bom exemplo de como alguns poucos fatos documentados e muita imaginação puderam se combinar para produzir histórias duradouras.

De acordo com Margot Adler, ficção científica e fantasia se aproximam uma da outra mais do que qualquer outro tipo de literatura em termos de exploração sistemática de diversas crenças, a partir do momento em que os autores de ficção científica estão pouco presos pelas morais política, sexual e racial de suas sociedades. "Onde tudo pode ser verdade em algum momento, em alguma época, não pode haver heresia", Robert Scholes escreve em um ensaio sobre ficção científica citado por Adler. Todos os livros revisados aqui são baseados mais em mitos, lendas, ou fantasia do que em eventos históricos documentados.

 

Robert Heinlein Inspira uma Nova Religião Pagã:

A Igreja de Todos os Mundos (Church of All Worlds, CAW) é um grupo neo-pagão com uma história única, pois suas origens são baseadas nas idéias de um livro moderno de ficção científica, Estranho em uma Terra Estranha (Stranger in a Strange Land), de Robert Heinlein, e duas novelas, Atlas Shrugged e The Fountainhead (N. do T: Não consegui uma tradução ideal para os títulos) de Ayn Rand, um autor pró-capitalista e anti-ambientalismo popular em princípios de 1960. A origem da CAW remontam a 1961, quando um grupo de amigos de faculdade que incluíam Lance Christie em Tulsa, Oklahoma, começaram a discutir as novelas de Andy Rand. Quando Christie chegou ao Colégio Westminster, em Misouri, ele liderou um grupo informal que explorou os conceitos de auto-atualização de Abraham Maslow.

Mais tarde o grupo, que incluía um amistoso estudante chamado Tim Zell, leu Estranho em uma Terra Estranha, de Robert Heinlein, que conta a história de Valentine Michael Smith, nascido em Marte de pais Terráqueos e criado por marcianos. Smith vai à Terra e se sente um alienígena neste planeta. Ele cria a Igreja de Todos os Mundos, que é organizada em subgrupos chamados de ninhos que ensinam "grokking" ou a intuição de "plenitude" de todas as coisas e seres. Deus é imanente em todas as coisas, ensina Smith, e os membros da igreja cumprimentam-se um ao outro com a declaração "Vós sois Deus", uma declaração bastante pagã, aliás.

Enquanto ainda estava em Westminster, Christie e Zell formaram então um grupo chamado Atl, uma palavra Asteca para "água" que também significa "lar de nossos ancestrais". A cerimônia da partilha das águas de Estranho em uma Terra Estranha foi uma parte importante das práticas deste grupo. Atl permaneceu então como um grupo informal de amigos que viviam espalhados pelo país e compartilhavam um desejo comum de explorar o potencial humano e a estrutura social.

Em 1967 Zell fundou sua própria versão da Igreja de Todos os Mundos, que gradualmente transformou-se em uma religião neo-pagã enquanto ia se afastando das idéias de Ayn Rand, que odeia apaixonadamente todas as formas de reverência de expressão natural ou religiosa.

No final dos anos 60, a ITM foi o primeiro grupo ecologicamente consciente a aplicar a palavra "Pagão" a si mesmo e ajudou a definir o paganismo moderno como amante da natureza. Mais tarde, Tim (chamando-se então Otter) Zell começou a escrever sobre a terra como uma entidade, um único organismo vivo chamado Gaea. Esta idéia tornou-se o mito central da ITM. Oficialmente a ITM não possui credo, mas um endosso da hipótese Gaea é aceita por muitos membros.

 

A Utopia de Starhawk:

No início dos anos 90, Starhawk escreveu A Quintessência Sagrada (The Fifth Sacred Thing, publicado no Brasil pela Ed. Record), que descreve uma utopia pagã ameaçada no norte da Califórnia no ano de 2048. As Terras do Sul (Southlands) facistas (baseadas ao redor de Los Angeles, onde a água é valiosa e, consequentemente, a vida de muitos habitantes é miserável) estão planejando invadir seu pacífico vizinho do norte para apoderar-se de sua água e madeira. A utopia do norte carece de um exército e de armas para se defender, pois ao invés de se armarem, haviam usado seus escassos recursos para alimentar toda a população nos últimos vinte anos.

Bird, que está próximo dos trinta anos, passou os últimos dez anos na prisão nas Terras do Sul depois de ter sido capturado durante uma campanha para a destruição de um reator nuclear. Ele escapou da prisão próxima de Los Angeles e andou todo o caminho até a baía de San Francisco pouco antes da invasão. Maya, 98 anos de idade, vive na área da baía desde o Verão do Amor de 1967 e ainda é uma radical por natureza. Madrone, próxima da idade de Bird, cresceu com este na grande cooperativa de Maya, a "Dragão Negro".

Madrone é treinada tanto em medicina tradicional quanto alternativa (incluindo cura através de ervas e de mágicka). Quando Bird lhe conta sobre a necessidade de curandeiros nas Terras do Sul, ela decide ir para lá e ensinar cura natural para o povo, cuja saúde depende de drogas, fornecidas por seus governantes. O exército de invasão das Terras do Sul, composto em grande parte por recrutas das minorias que sofrem forte discriminação de suas classes governantes, também dependem destas drogas.

Enquanto o exército das Terras do Sul avança para o norte, os utopianos debatem em longas reuniões de comunidade sobre as melhores maneiras de se defenderem. Uns poucos querem direcionar imediatamente sua parca produção industrial para a manufatura de armas. A maioria, no entanto, concorda em praticar-se apenas condutas não agressivas enquanto ao mesmo tempo se recusam a cooperar com seus invasores. A maioria espera que demonstrando abertamente condutas amorosas e não discriminatórias a os recrutas logo questionarão sua sociedade injusta e desertarão do exército das Terras do Sul.

Em seu livro, Starhawk descreve tanto as vantagens de uma sociedade pagã futurista quanto os perigos de se tentar sobreviver desta maneira em um mundo habitado por governos hostis que lutam por objetivos opostos.

 

Uma Nova Lenda Arturiana nas Brumas de Avalon:

Marion Zimmer Bradley reconta a lenda do Rei Artur da perspectiva de Morgana, a meia irmã de Artur e mãe de seu único filho, Gwydion (mais tarde chamado Mordred). Desde sua infância, Morgana é treinada na Ilha de Avalon para se tornar uma Alta Sacerdotiza da Deusa.

Ela fica grávida de Artur depois de se acasalarem durante um ritual sagrado onde Artur, ostentando uma galhada, simboliza o cervo sagrado. Como candidato à coroa, Artur precisa acasalar-se com uma Alta Sacerdotiza virgem, representante da Deusa, antes de receber apoio de seus seguidores.

Pouco antes do acasalamento, Artur casa-se com Gwenhwyfar (Guinevere) que torna-se um rainha extremamente cristã. Artur tenta sem sucesso honrar tanto a antiga religião da Deusa, quanto o novo Cristianismo, mas Gwenhwyfar, com a ajuda do bispo Patricius (St. Patrick / São Patrício), prevalece e torna o Cristianismo exclusivo. Eventualmente Morgana perde seu status de Alta Sacerdotiza da Deusa e é casada com Uriens, um rei menor em Wales.

Ao final da história, porém, a Deusa vive para futuras gerações como a honrada Virgem Maria. Geoffrey Ashe, o renomado estudioso das lendas Arturianas, observa que Bradley criou uma nova mitologia sobre o Rei Artur. Eu conheço duas mulheres que afirmam que ter lido As Brumas de Avalon as trouxe para a Wicca. Sem dúvida muito mais pessoas se sentiram motivadas a buscar uma religião voltada para a Deusa após terem lido a popular novela de Bradley.

 

Outras Histórias Sobre Pagãos do Passado:

As próximas quatro novelas representam um exemplo da ficção com temas pagãos. Em cada história uma religião pagã (muitas vezes descrita como Wicca Gardneriana) é central na trama. Exceto por Noite de Lammas (Lammas Night), todas as tramas tratam das ações de uma forte heroína.

Em O Clã do Urso da Caverna (The Clan of the Cave Bear) – o primeiro de uma série de quatro livros – Jean Auel conta a história de Ayla, uma jovem Homo Sapiens adotada por um grupo Neandertal, o Clã do Urso da Caverna. A história rola entre as duas Eras do Gelo, 25.000 à 35.000 anos atrás em um local perto do Mar Negro. Os Outros, o povo nativo de Ayla, estão crescendo em influência e em número enquanto os Neandertais estão declinando. O Clã, composto por trinta indivíduos parentes entre si, cultua Ursus, o grande urso da caverna, como seu totem protetor especial. Apenas seu curandeiro, o aleijado Creb, realmente entende o mundo dos espíritos. Durante o transe ele os consulta antes de todas as ações importantes do Clã, como as perigosas caçadas de mamutes. O Clã tem ainda um rígido sistema social patriarcal. Apenas os homens caçam enquanto as mulheres colhem plantas e permanecem próximas das cavernas.

O nemesis de Ayla é Broud, o filho adolescente de Brun, o atual líder do Clã. Broud espera tornar-se o próximo líder do Clã e pretende comandar como o inquestionável patriarca do Clã. Broud tem um temperamento incontrolável e não agüenta a "orgulhosa" Ayla, que recusa-se a ser subserviente. Entrando na adolescência, ela cresce até se tornar mais alta que Broud e os outros homens, aprende mais rapidamente do que eles, e guarda em segredo o desejo de aprender a caçar com uma atiradeira (toda caçada é um tabu para mulheres sob a pena de exílio automático e provável morte).

O conflito entre Ayla e Broud leva a muitas experiências angustiantes para ela, variando de um exílio de um mês do Clã até uma gravidez precoce provocada por Broud. Enquanto ela ultrapassa cada obstáculo que Broud impõe a ela, ele se torna cada vez mais furioso com Ayla.

Em O Coração do Fogo (The Heart of the Fire) Cerridwen Fallingstar conta a história de Fiona McNair, uma garota escocesa que cresce em uma pequena vila rural durante a inquisição lançada pelo Rei James VI em torno de 1950. A avó de Fiona é uma Bruxa e lidera um coven de estilo Gardneriano. Enquanto vai crescendo, Fiona impacientemente aprende a Arte de sua avó.

Fiona e Annie, uma garota da vizinhança, são grandes amigas de infância e tornam-se amantes quando alcançam a puberdade. O pai de Annie era um cigano que passara pela região. Annie herdou seus cabelos negros e pele escura, o que faz dela uma pária em sua vila de loiros e ruivos. Annie sabe que ciganos são considerados Bruxos naturais pelos caçadores de Bruxas do Rei James e são os primeiros a serem pegos para tortura e para a fogueira.

Annie deixa Fiona e junta-se a um grupo de ciganos viajantes esperando misturar-se com eles e escapar dos caçadores de Bruxas. Fiona, agora sozinha em sua vila incrivelmente hostil, teme ser a próxima vítima dos caçadores de bruxas.

Os horrores da inquisição mostram-se mais reais para mim nesta história ficcional de duas jovens lutando para sobreviver, do que em numerosos livros de não-ficção lidos por mim e que falam de milhares de mulheres torturadas e executadas pela inquisição durante três séculos.

Clystra Kinstler conta a história de Yeshua (Jesus) sob o ponto de vista de Mari (Maria) Magdalena em A Lua Sob Seus Pés (The Moon Under Her Feet). Nesta versão da história, Mari não é uma prostituta comum de rua, como nos fez acreditar Bíblia patriarcal. Ela é, ao invés disto, a Magdalena que serve como Alta Sacerdotisa no Templo Judeu do Monte, em Jerusalém. Muitas outras sacerdotisas servem abaixo dela. Mas os fariseus a abominam e à sua Deusa e chamam Mari de "A Grande Prostituta da Babilônia".

Almath Mari (a mãe de Yeshua, ou seja, Virgem Maria) é a sacerdotisa aposentada do Templo Judeu da Montanha. Sharon, seu ultimo marido de uma noite apenas, é o pai de Yeshua. Ele havia sido sacrificado por vontade própria para findar uma estiagem. Seth, o jovem consorte de muitos anos de Mari, é também conhecido como Judas Iscariote. Ele deixa Mari para seguir o nômade Yeshua.

Em sua história, Kinstler iguala a crucificação de Jesus ao sacrifício de Osíris no antigo vizinho Egito. Consequentemente, Almath Mari age tanto como Virgem Maria e a deusa egípcia Isis. Seth ou Judas, o amante de Maria Magdalena, também aparece como o deus negro Seth que executou seu irmão Osíris. Aqui ele simplesmente trai Yeshua para as autoridades romanas que ocupam a região. Este interessante livro de Kinstler é o produto de sua imaginação, que extrai muito das idéias feministas de Merlin Stone e Barbara Walker.

Em Noite de Lammas (Lammas Night), Katherine Kurtz conta a história ficcional do grande coven do Lammas de 2 de agosto de 1940 (um encontro de Covens de Bruxas Inglesas ao mesmo tempo, mas em vários lugares diferentes) que ergueu um cone de poder de proteção sobre a Bretanha para protegê-la da esperada invasão de Hitler.

Sir John Graham é um agente do MI.6 e lidera a sua sessão de ocultismo, que tenta descobrir o que os astrólogos e magos negros de Hitler estão informando ao Fuhrer neste momento crucial. Graham é também um Bruxo Branco e membro do coven de Oakwood Manor liderado pelo Senhor e a Senhora Selwyn.

Ele é um bom amigo do Príncipe William, o irmão mais jovem do Rei George VI. William, que é mantido fora de perigo por ordens reais, sente-se inútil e entediado com seu papel puramente cerimonial como Príncipe Real, que é apenas o quinto na linhagem para o trono. Gradualmente Graham traz seu amigo real para o coven, onde William encontra um expressivo meio de contribuir para o esforço de guerra.

Kurtz mistura duas lendas wicca modernas em sua história. A primeira é a do encontro de um grande coven em 1940. E a Segunda é baseada na teoria insubstancial de Margaret Murray de que Reis Britânicos ou substitutos reais são sacrificados ainda nos tempos modernos.

 

Conclusão:

Meus primeiros três artigos examinaram fatos conhecidos sobre as raízes da Wicca: contribuições dos escritos de Gerald Gardner, Aleister Crowley e Dion Fortune; a história das importantes organizações precedentes (Golden Dawn e OTO); o papel das sociedades secretas (Maçons e Rosacruzes); e finalmente as práticas religiosas adotadas da Qabala Judia e da Teosofia Oriental. Este artigo descreve as contribuições da psicologia Jungiana e algumas ficções pagãs interessantes. Rituais e práticas da Wicca podem ser diretamente cruzadas com as práticas da Tradição Mágicka Ocidental ativa na Europa pelos últimos quinhentos anos.

Eu acredito que a Wicca continuará seu rápido crescimento devido às suas diversas raízes. Eu não acredito que a Wicca deva adotar um dogma ou credo rígido à ser guardado por um seleto grupo de sacerdotes. Gerald Gardner modificou seus rituais da maneira que desejou e teve prazer em ser o primeiro Bruxo Público Inglês.

A Wicca hoje é muito mais do que o culto semi-secreto que Gardner afirmou ter descoberto. Suas práticas são tão firmemente baseadas nas Tradições Herméticas Ocidentais quanto nos feitiços e maldições mágickos praticados por gerações de astutos homens solitários e sábias mulheres.

Wicca e religiões similares baseadas na terra continuarão a sobreviver enquanto elas ajudarem as pessoas a perceber que suas vidas são partes sagradas da do eterno ciclo de nascimento, crescimento e morte e renascimento de uma nova vida da Natureza.

 

Referências:

Adler, Margot. Drawing Down the Moon. Boston: Beacon Press, Second edition, 1986.

Auel, Jean M. The Clan of the Cave Bear. New York: Bantam Books, 1981.

Bolen, Jean Shinoda. Goddesses in Everywoman. New York: Harper and Row, 1984.

Gods in Everyman. New York: Harper Collins, 1989.

Bradley, Marion Zimmer. The Mists of Avalon. New York: Ballantine Books, 1982.

Cavendish, Richard, ed. Encyclopedia of the Unexplained. New York Arkana Penguin, 1989 edition.

Fallingstar, Cerridwen. The Heart of the Fire. San Geronimo: Cauldron Publications, 1990.

Guiley, Rosemary Ellen. Encyclopedia of Witches and Witchcraft. New York: Facts on File, 1989.

Holroyd, Stuart. The Elements of Gnosticism. Rockport: Element, Inc., 1994.

Kinstler, Clystra. The Moon Under Her Feet. New York: Harper, San Francisco, 1989.

Kurtz, Katherine. Lammas Night. New York: Ballantine Books, 1982.

Starhawk. The Fifth Sacred Thing. New York: Bantam Books, 1993.