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Os Esquisotéricos
Um Manual para a Sobrevivência na Nova Era
Desde 1987, quando me lancei no meio alternativo como consultor em Astrologia, pude observar, com os meus até então adolescentes todavia não menos críticos olhos, que a chamada "abertura" para temas esotéricos não apenas contribuiu para o acesso ao povo de conhecimentos em outras épocas "velados" e pertencentes a uma chamada "elite", mas que, de uma maneira bastante evidente, superficializava esses ditos conhecimentos de uma forma que os tornava cômicos, para não dizer ridículos. Como nada na vida é totalmente bom ou absolutamente mau, seria de se esperar algum patético efeito colateral para a abertura do esoterismo.
Seria no mínimo sinceridade dizer que houve momentos em que morri de vergonha de abrir a boca pra dizer que trabalhava com Astrologia, levando em consideração o que era divulgado como "Astrologia" até então. Não tínhamos, na época, os hilários disque-900s com suas propagandas de resposta fácil para os males da humanidade. Todavia, como uma entidade que se materializa sem avisar, que toma forma e salta da tela de sua TV como um poltergeist, observei o nascimento de uma peculiar mutação no seio dito "alternativo"...
Apenas em 1993, quando atuei como mediador de uma mesa redonda de medicina holística no I Congresso Brasileiro pela Consciência e Qualidade de Vida, realizado em Salvador, tive um iluminante insight ao assistir uma palestra proferida por Pedro Camargo, autor do livro "Iniciação ao Tarot", e na época editor da extinta revista Ano Zero, que, num momento de inspiração paranirvânica, falou da crescente fusão da imbecilidade com o esoterismo devido à visão simplista, de supermercado, que temos do mesmo. Já sentia a realidade de tal desagradável fusão, mas não havia parado para pensar sobre ela mais profundamente. Foi quando então ele batizou, com criatividade e vigor, os adeptos de tal chatice de "esquisotéricos".
Para mim o nome resumia tudo, e era excelente e brilhante por ser amplo; abrangia pretensos astrólogos, tarólogos de um livro só, quirólogos de cursinho de final de semana e outros "ólogos"; abarcava médicos & terapeutas que confundem "misticismo" com "holismo", envolvia um público de péssimo gosto literário, capaz de entupir a conta bancária de escritores simplistas, propagadores de respostas prontas, como naqueles manuais que prometem "fórmulas para ser feliz", "como encontrar sua alma gêmea", e outros entediantes etcéteras que a mente humana parece tanto apreciar por temer reflexões mais profundas.
A SANTIDADE DA IGNORÂNCIA
Eu, sinceramente, prefiro assumir minha Santa Inguinorância do que ficar atado à estagnação de verdades prontas, feitas. Esoterismo congelado, é só pôr no microondas de chamas violáceas (versão Germain), e voilá: conceitos absolutos, prontos para serem ingeridos, sem tempero algum. Engula, ou aguente!
Essa e outras tantas experiências sempre mexeram com minha veia teatral. Teria escrito uma peça, se tivesse saco pra teatro, teria representado numa peça, se tivesse saco para turmas de teatro, mas acho que preferi escrever sobre. Claro que escreverei mais, para desgosto eterno e kármico do gado simplório.
A questão não é e nunca foi o esoterismo em si, ou seus submovimentos. Mas, em essência, devo questionar... O que conduz as pessoas ao esoterismo? Necessidade de se sentirem diferentes, mais cheias de "conhecimento"? Busca por algo que neutralize seu profundo medo, tão antigo quanto o próprio homem? Poder para comer alguém após ler sua mão? Sinceramente, devemos estar sempre atentos para o que nos motiva na direção do ocultismo, do esoterismo ou de qualquer outro nome que se dê (hoje em dia gostam de dizer "holismo", mas é a mesma coisa com outra roupagem) para este aspecto do Grande Desconhecido Universal. Isso porque eu me lembro da Esfinge, pétrea e imponente, nos lembrando a todo momento, com uma voz que só consigo imaginar, no mínimo, sábia e irônica: "Decifra-me ou devoro-te". Brrr!
DEFINIRE CHATUM EST
Mas, e sobre os esquisotéricos, esta raça colorida, saltitante e ectoplásmica que nos invade os lares, os centros, os templos, as livrarias, a Internet, e que, de quebra, ainda nos enche o juízo?
Primeiramente, antes de tudo, não poderia deixar de citar o exímio filósofo Guilherme Figueiredo, falecido irmão de nosso ex-presidente João Figueiredo, em sua magnífica e esclarecedora obra "Tratado Geral dos Chatos", hoje em dia rara e difícil de encontrar. Realmente, uma coisa muito chata. Mas que se danem, EU a tenho em minha biblioteca. Ele diz:
"Chato é o indivíduo, ser, coisa ou evento cuja presença, existência, atitude, ação ou lembrança, continuadamente, tem a capacidade de inspirar sentimentos contrários à alegria de viver, à paz de espírito e à Paz Mundial."
O termo "chato" vem do grego "platus", e serve para designar tanto o indivíduo desagradável, inconveniente, como também o animal homônimo, que envereda por nossas íntimas regiões, chupando-nos o sangue e o juízo. Deste termo deriva "amor platônico", literalmente: "amor chato".
Segundo reza a lenda, a humanidade se dividiu, logo no início, em três partes: o gado, os Illuminati e os Chatos Ancestrais. Ainda na Atlântida, na capital de Poseidonis, na Cidade das Portas de Ouro, a guerra entre as três facções detonava consequências imprevisíveis que incorreram no fim do continente, cujo 1/3 afundou, 1/3 foi pra outra dimensão, e 1/3 é hoje em dia o que conhecemos como Xique-Xique do Igatú.
O gado, como é possível verificar, sobreviveu. Vivem sendo controlados pelas outras duas facções dominantes: os Chatos Remanescentes e os descendentes dos primeiros Illuminati. Sobre a história oculta da humanidade e sobre aquela bicha, o Melquisedek, discorreremos mais adiante.
A chatice é realmente uma característica desenvolvida com primor quando se tenta ser esotérico-cabeça-newage e só se consegue, no máximo, ser um vomitório constante de clichês, dogmas e livros lidos, sem a derradeira experiência que faz a diferença.
Existem realmente muitas coisas chatas na vida, mas para mim a principal vem a ser a encheção de saco catequética das pessoas quando tentam nos convencer a alguma coisa (partidopolíticoreligiãocomidadrogalivrofilmemotel), e que espelha a realidade de poluição da propaganda no mundo real, é que de certa maneira me impeliu a dedicar dias e dias na Grande Obra de descrever esta categoria genial de seres, chamados catequéticos, criaturas hediondas que pulsam e fervilham acima de tudo em meios esotéricos e que me inspiram a dar graças ao Olimpo e ao trovejante Zeus por não ter de com elas conviver (tanto).
Catequética, como o nome diz, é a entidade que busca, por força da persistência (catequético ativo), ou mesmo pelo olhar acusador (catequético passivo), nos converter a qualquer coisa: religião, política, yoga, maconha, livro. Num certo estado de pureza ingênua, conhecida como subclasse dos catatônicos, tais seres são realmente imbuídos de um tremendo amor daquilo que desejam converter o próximo. Seu potencial de chaturação é quase infinito, e sua torração de paciência não se dirige a apenas uma pessoa (o pobre ser perdido no mundo das drogas, o pobre ser que não encontrou Jesus, o pobre ser que ainda come carne, o pobre ser que não fala inglês de trás pra frente, o pobre ser que acredita ou não acredita no Tarot), mas a todos aqueles que ainda não se encontram submetidos ao seu proselitismo e obtusidade.
Quase sempre, esta abjeta classe de ser é ofertante ("eu te levo na Igreja!", "eu vou fazer seu mapa astral, e você verá como funciona!!!", "você não sabe beber, eu vou te ensinar!", "eu te levo no motel!", "entre na Amway!", "faça cromoterapia!!!), e com isso consegue quase sempre um pouco de nossa preciosa atenção. O ponto de exclamação é realmente persuasivo, diria eu. Mas enche o saco.
Quanto aos esquisotéricos, podemos dizer que são uma subclasse dos catequéticos, mas devidamente especializados em detonar a paz do próximo com incenso, mandalas e outros bibelôs.
Substituíram a profundidade de temas ditos "esotéricos" por uma panacéia endoidecida expressa por respostas prontas e verdades que soam ocas, aquela peculiar vacuidade que encontramos em todos os clichês, por mais bem elaborados que estes sejam.
Existem diversos tipos de oligofrênicos desta classe, adeptos do astrocretinismo, ou apreciadores do Tarot de Klinefelter. Nosso objetivo aqui é classificar os mais conhecidos tipos, a fim de que, uma vez identificados, impeçamos seu acesso a nossas pacíficas vidas.
CLASSIFICAÇÃO GERAL DOS ESQUISOTÉRICOS
A considerável extensão dos tipos de chateação esotérica não permite uma classificação perfeita. Aqui apresentamos um pequeno ensaio, a ser corrigido, à medida que progredirem os estudos especializados:
1 - Os Zurradores, ou Logorréicos Uxoricidas, que bradam sua "verdade", ou cantam mantras até nos estourar os tímpanos, capazes de encher o saco de São Francisco, e também de ressuscitar os mortos.
2 - Os Frankeinsteinianos, ou Neowoodstocks, descuidados e imundos, só vivem no mundo do Nirvana e esquecem de comer e escovar os dentes. Geralmente têm chulé, fedem a incenso velho e apresentam coloração verde na pele.
3 - Os Prodigiosos, ou Multichatos, que tudo sabem e tudo fazem ao mesmo tempo: "venha experimentar uma sessão de astronumerotaroquirologia, e de brinde descubra o nome & poderes do seu Anjo da Guarda!". São a alegria das velhinhas.
4 - Os Bibelôs, ou Cafonas, abundantes em adornos talismânicos e pedras de toda a Terra; qualquer similitude com aquela árvore que você viu no Shopping no último mês de Dezembro, é mera inspiração.
5 - Os Catalogadores-Maníacos ou Dedões, que apontam o dedo e te marcam com clichês como se marcam vacas com ferro em brasa. Proliferam entre astrólogos, ou melhor, entre curiós da astrologia: "todos os arianos são violentos", "os piscianos são sensíveis", ou "os cancerianos sabem cozinhar bem". Podem ser Elogiosos, com o fito de nos comer, ou Cataclísmicos, quando nos conduzem ao suicídio, com suas análises "profundas".
6 - Os Bouquets, insaciáveis buscadores de novas variedades de florais-além-de-Bach, como os florais do deserto, os florais da Ilha de Páscoa, os florais da Groenlândia, etc. Ingerem essas novas variedades ditas "inertes" como quem bebe água (e às vezes mais que o próprio e popular H2O). Tá triste? Floral. Ficou nervoso com o cobrador de ônibus? Floral! Se chateou com o porteiro? Floraaal!!!
7 - Os Idiólatras, sempre venerantes e dotados de um entusiasmo canino para mestres, gurus e qualquer coisa que forneça respostas prontas e mastigadas, eximindo assim o idiólatra da responsabilidade de buscar dentro de si as suas próprias verdades.
8 - Os Ingênuos, ou Pollyanas, dotados de uma rósea visão da vida; todas as coisas são absolutamente boas, Deus é pura misericórdia, e na Nova Era uma Grande Luz alcançará nosso planeta, todos nos abraçaremos como irmãos, não haverá mais sofrimento ou dor, e, de quebra, a Terra passará para a nona dimensão.
9 - Os Ectoplásmicos, ou Encostos, que surgem de repente, sem avisar, e são adiposos: grudam em nós, com o fito de nos ajudar a todo custo, com as coisas mais mínimas. Reza, simpatia, análise da carta astral. Mudam a decoração de nossas casas sem autorização para que a energia fique mais "positiva" segundo as regras das energias do feng shui. Cobrem nossos espelhos, mudam nossos móveis de lugar, penduram sinos dos ventos pela casa inteira, ou nos presenteiam com coisas horrendas que somos obrigados a usar, por educação. Saravá!
10 - Os Gurus, ou Faisões, propagadores da verdade absoluta e criadores de clubes do Mickey Mântrico. Têm sempre uma resposta para tudo e colecionam fiéis, que conseguem com facilidade dentre o subgrupo dos idiólatras. Podem ser facilmente reconhecidos pelo uso abundante do pronome "eu", a exigência de silêncio quando cantarolam suas verdades, e por um sonoro farfalhar de penas douradas, um estufar de peito orgulhoso de si próprio, o olhar além do horizonte, o conhecimento de línguas mortas, quase sempre falando com o caps lock acionado; demonstram incrível talento para espalhar o boato de sua própria inteligência, e acabam montando mais uma igreja ou um 0900. Argh!
11 - Os Ufoexaustivos, ou Ufa! (graduação piorada), que veneram UFOs e aguardam a vinda de nossos "irmãos extraplanetários"; para essa classe, tudo o que vier de fora do planeta é indubitavelmente bom e belo, mesmo que seja um meteoro assassino. Vinde, Ashtar Sheran! Glória a George Adamsky!
12 - Os Piromaníacos, mais apropriadamente classificados como um subgrupo, sempre felizes, adoradores-da-chama violeta, vermelha, azul com bolinhas amarelas; um piromaníaco pode ser idiólatra ou guru, mas é quase sempre ectoplásmico. Parecem ter problemas de afirmação da identidade, pois vivem gritando "I AM" e veneram um tal Saint Germain, que se veste muito mal.
13 - Os Pseudointelectuais, que leram uns livros de Jung e deram uma passada de olho em textos de física quântica, capazes de verdadeiros shows de verborréia superficial, se fazendo valer do uso de termos complicados. Ótimos animadores de festa, alguns chegam a se formar em psicologia (tornando-se, assim, muito mais perigosos).
14 - Os Apocalípticos, opostos complementares dos ingênuos, constantemente proclamando o fim da realidade, a destruição do planeta, o niilismo do Universo, a volta da inflação, a terceira guerra mundial; são, em geral, precisos em datas, conduzem pessoas ao suicídio em massa, constróem abrigos nucleares ou casas em lugares altíssimos, instigam a paranóia, e, eventualmente, aproveitam a passagem de algum cometa para fugir. Especialistas em descobrir mensagens cifradas e códigos secretos do Apocalipse até em livros de Monteiro Lobato. Abundantes em todo final de século. Como o fim do mundo nunca vem, ou quando vem nunca é total, também são conhecidos como Otários.
15 - Os Oraculodependentes, como o próprio nome já revela, viciados em qualquer forma oracular, seja o tarot, a geomancia, e outros. São, em geral, vítimas dos prodigiosos e escravos virtuais dos faisões.
16 - Os Theletubbies, mal-educados e rabugentos, vivem tentando ser iguais a Aleister Crowley, cuja grande contribuição secreta para o mundo foi a invenção do Minoxidil. Vestem-se de preto, arrotam e coçam o saco (inclusive as mulheres), e masturbam-se pensando em comer os Pinky Wiccans.
17 - Os Pinky Wiccans, purpuríneos e borboléticos, veneram uma tal Deusa, cujo marido é um Corno, do que se supõe que Ela não seja lá tão boazinha quanto se acredita... Acreditam piamente que sua religião é a mais antiga do mundo, quando em verdade é o que há de mais moderno, prova viva de que o tempo inexiste. Vivem a se masturbar, pensando em dar para os Theletubbies. La-Lah é, na verdade, Babalon.
18 - Os Kaóticos, ou Analfabétikos - Não arrumam o quarto direito, não escovam os dentes, e insistem em escrever "ke" ao invés de "que", "naum" ao invés de "não". São o que há de fashion. São os McGivers do esoterismo, capazes de fazer feitiços com o que estiver à mão: pedregulhos, papel celofane, farinha de trigo Dona Benta, O.B.s, potes de chandelle.
IDENTIFICANDO SEU ESQUISOTÉRICO
São extremamente raros os casos de esquisotéricos monossintomáticos. Tais indivíduos, com algumas poucas exceções, são híbridos, e apenas uma apurada observação permite subdividi-los em seus componentes elementares. Como forma de precaução, recomenda-se o uso de vestes anti- radiativas durante a análise, como forma de proteção contra as tão letais partículas Ch. Em casos menos letais, alho no pescoço surte algum efeito.
Vale recordar também que, devido à relatividade do esquisotérico, e levando em consideração que tal criatura é quase sempre camaleônica, sempre mudando e se adaptando a uma nova e aberrante forma, a classificação primária nem sempre é fixa.
Vejamos abaixo alguns exemplos classificatórios, como exercícios de fixação:
Fulano de Tal - astrólogo dedão cataclísmico, com pendores de bouquet; 35 anos; possibilidades de evolução: guru prodigioso, se ampliar a zona de ação escrevendo um livro sobre "almas gêmeas", ou sobre "os florais perdidos da Atlântida", ou se montar um serviço 0900. Tratamentos possíveis - isolamento total da humanidade durante todo um trânsito de Plutão por algum planeta pessoal; em caso de resistência ao tratamento, lobotomia impiedosa.
Beltrana de Tal - Hare Krsna zurradora idiólatra, puxando para bibelô; 23 anos; possibilidades de evolução: com a idade, frankensteiniana irrecuperável. Tratamentos possíveis - terapia do sexo, inicialmente virtual, gradualmente caminhando para o real a fim de que a pessoa não entre em choque. Caso haja resistência, tratamento ao vivo, intensivo, no motel Divina, em Porto Alegre, com uma horda de gays.
Sicrana de Tal - Espírita pollyana ectoplásmica com esporádicas manifestações de zurradora, quando mediunizada; 30 anos; Pouco provável a evolução do quadro. Tratamentos possíveis - tortura chinesa na Roda de Samsara.
Chateando de Tal - Pesquisador ufoexaustivo pseudointelectual apocalíptico, na juventude piromaníaco logorréico faisão; 50 anos; quadro definitivo. Tratamentos possíveis - acupuntura com arame farpado, hidroterapia com ácido arsênico. Contatos imediatos de terceiro grau com qualquer um, menos comigo, per favore. Tudo tem limite.
CONSIDERAÇÕES FILOSÓFICAS
Vocês acham que uma pessoa que tem quatro planetas em Sagitário deixaria de filosofar? Hein? Hein?
Uma vez que todas as coisas exigem um pouco de filosofia, devemos considerar que um esquisotérico pode ser absoluto ou relativo.
Um variante híbrido do filo absoluto é incurável, intratável, irreversível, inevitável, inenarrável, retroativo, implacável, indiscutível, infinito e imortal. É um verdadeiro pentelho, na acepção máxima do termo. Por ser incurável, só podemos apelar para o assassínio do indivíduo, ou mesmo uma exportação do mesmo para a Lua, onde sua voz não se propagará pela ausência de atmosfera.
Quanto aos relativos, podemos dizer que somos todos nós, em algum momento da vida, contaminados pelas mazelas da existência e da chateação original de Adão e Eva, repentinamente tomados por impulsos de desagradabilidade ou fanatismo, eventuais, portanto curáveis. Nada que uma boa porrada no pé do ouvido ou um chute no saco não conserte.
EXORCIZANDO UM ESQUISOTÉRICO
Não! Não adianta, absolutamente, mandar o esquisotérico à merda, pro inferno ou para aquele lugar onde o Sol jamais alcança com seus magníficos e gloriosos raios. Ele julga ser uma missão ajudar você, alma perdida, a se encontrar, ver a Luz, orar, descobrir seu número de poder. Ofendê-lo é tarefa fácil, pois um esquisotérico é todo nervos, tem ego de vidro, e está sempre se ofendendo, e, por isso mesmo, termina desenvolvendo resistência. Mas, enfim, o que fazer para se proteger? Estaremos todos perdidos? Dominarão eles o mundo? É esta a "Nova Era"?
Infelizmente até hoje a ciência não conseguiu inventar um inibidor, repelente, purificador de ar, ou qualquer coisa que diminua a incidência de partículas Ch. Costumamos nos investir de recursos totêmicos na eterna batalha contra os esquisotéricos: carrancas na entrada de casa, colares de alho, vassouras atrás da porta, figas da Bahia, mas, para nosso desgosto, um chato esquisotérico típico aprecia tais instrumentos supersticiosos, ou aparece munido com outros de igual ou maior poder. E, cá pra nós, se você realmente acredita tanto nesses totens, você mesmo é um esquisotérico. Sorria, você foi identificado :-)
Pessoas menos supersticiosas se fazem valer de comportamentos elementares, como "fingir que não vê", "fingir que não ouve", e outras anulações dos sentidos; passam de nariz empinado, sentem súbita sede, repentina vontade de ir ao banheiro, e outros paliativos quaisquer, a fim de tomar uma certa distância da catequese do esquisotérico. Todavia, para tomar essa decisão, o indivíduo em questão precisa, de uma forma ou de outra, já ter experimentado o envenenamento de tal criatura, uma vez que um esquisotérico jamais o é em primeira instância. Um esquisotérico se revela como tal, com o tempo. Desabrocha em flor, exibindo gradualmente sua hedionda face por detrás do semblante simpático. E apenas após a manifestação de sua insuportabilidade, uma vez já contaminados, é que passamos a evitá-lo. Imprescindível, então, compreender o seguinte axioma:
"Não existe imunização absoluta contra um esquisotérico"
De uma forma ou de outra, a exposição leve às partículas Ch atua beneficamente como uma vacina, de modo que, uma vez chateados, não repetimos nós mesmos tamanhas debilidades mentais. Reporto-me então à máxima homeopática: "o semelhante cura o semelhante". O importante então é que desenvolvamos internamente a resistência ao pentelhismo, e, o mais importante: que fiquemos atentos ao nosso próprio potencial de torração de paciência, que passemos nós mesmos a respeitar as diferenças alheias, não tentando impor nosso ponto de vista ao próximo. Passemos então ao segundo axioma, inspirado no TAO:
"A verdadeira luta é contra o chato interior"
Na convivência com os esquisotéricos, a melhor arma é o exemplo; mantendo-se flexível, você poderá neutralizar pacificamente o esquisotérico relativo, mas não tenha a péssima idéia de chateá-lo ou tentar dissuadi-lo de seu absolutismo ferrenho, pois você mesmo estará se tornando, assim, outro catequético. Assim, estaremos assimilando o terceiro axioma:
"É impossível chatear o chato"
Sim, é impossível, pois o esquisotérico é, em geral, dotado de incrível poder mnemônico, que lhe permite adaptar- se a qualquer forma necessária para continuar em sua obra de encher o saco alheio. Um esquisotérico crente tolerará a sua roupa preta e sua aberta invocação a Lúcifer, pois assim você é classificado como um desafio maior, e, convenhamos, você se torna um farol-atrator-de-crentes. Chatear um chato é a melhor forma de você mesmo se tornar igual, e ele estará vencendo.
É importante observar que o esquisotérico é um animal gregário. Reúne-se em assembléias, grupos, centros, com seus confrades, para discutir novas técnicas de catequese. O local mais propício para encontrar um espécime é em qualquer ambiente que seccione e fraticide.
Existem providências paliativas para quem deseja evitar o contato com os esquisotéricos: mudar-se de cidade, de país, de planeta, matar-se ou matá-lo, mas todas essas são soluções que envolvem dispêndios financeiros ainda inacessíveis para a maior parte da população.
O que considero realmente resolutivo são alguns exercícios de consciência e observação constante. Avalie sempre:
"Que chatos conheci e classifiquei hoje? O que eles me ensinaram a NÃO ser?"
"Em que momentos sou ou fui um esquisotérico?"
Ou seja, empenhe-se você próprio à arte de não ser mais um esquisotérico, lembrando-se que o primeiro sinal da patologia é a ausência de humor. Se, por exemplo, você se ofendeu com essa pesquisa, muito provavelmente você é já um exemplar da classe, meus sinceros pesares. Mas não se desespere, há modernos indícios de que a cura existe: migre para um lugar bem distante e isolado, e medite sobre sua vida... Mas enquanto não se cura, faça um favor a todos nós, e realmente vá para bem longe, de preferência para os pólos, onde, felizmente, a Terra ainda não é chata.
COLECIONANDO UM ESQUISOTÉRICO
Criar um esquisotérico não é tarefa dispendiosa. Primeiro, porque tais mimosas criaturas alimentam-se apenas de energia cósmica e prana celestial. Segundo, porque o esquisotérico é em essência um animal doméstico, com exceção dos ufólatras, que têm o hábito de fugir para lugares ermos a fim de saudar os Irmãos Galácticos. Vão pra Chapada Diamantina e sujam tudo por lá, os porcalhões...
Encontrar um equisotérico para criar não é uma tarefa tão árdua, na verdade é relativamente simples. Com um pouco de sorte, você pode encontrar um(a) exemplar bonitinho(a) para o leito conduzir, é só suportar o odor de incenso e o hálito de cebola! Para caçar à vontade, anuncia uma palestra de teor híbrido e sincrético, como, por exemplo: "Implicações psicossociais da KQabballaahh Iorubá e Suas Correlações com a Astrologia Maia Pós-Junguiana". Irão milhares, e você poderá caçá-los à vontade.
Eventualmente reúnem-se centenas de exemplares dos mais variados filos em congressos e reuniões - uma boa chance de capturar o seu! Disfarce-se, entretanto, quando no ambiente adentrar: cante om namah shivaia, vista-se no estilo bicho-grilo e jamais aperte a mão de outrem. Cada esquisotérico possui sua forma peculiar de saudar o próximo: apertar o pulso ao invés da mão, juntar ambas as mãos em sinal de oração e abaixar levemente a cabeça, rodopiar em um pé só balançando as madeixas, gritar números, como 93, 23, 333, 777, 69, etc.
Hey, por que você está rindo? Escrevi isso tudo pensando em você!!!
Beijos :-)
Alexey Dodsworth Consultoria Astrológica ConEx Rede Nacional de Astrologia (71)328-2633