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O sagrado
1.
Ouvi esta frase outro dia:
"Quem gosta de Pau duro é Gay, mulher gosta de dinheiro."
Pois é, a que ponto chegamos na nossa civilização. Fomos eliminando de nossas vidas todos os resquícios de nossa natureza animal e os substituindo por vernizes e máscaras sociais. A cada dia mais distantes das coisas fundamentais para a nossa felicidade.
Uma recente pesquisa entre os usuários de Viagra, mostrou uma assustadora concentração destes na faixa etária entre 27 e 35 anos. Ou seja, quem realmente não deveria se preocupar com sua virilidade sofre problemas de disfunção erétil. Se colocarmos nestas estatísticas os ejaculadores precoces, vamos realmente ter um grande numero dos homens em idade sexualmente ativa com sérios problemas em seu relacionamento com o sexo oposto.
Além da grande pressão da sociedade por uma boa performance financeira, excesso de trabalho, medo do desemprego e o aparecimento da concorrência da mulher no mercado de trabalho, creio que um dos fatores que causam esta distorção é a falta da identidade masculina.
Com a evolução da sociedade industrial e do mercado de consumo, os valores da masculinidade foram gradativamente, substituídos. O trabalho e o esforço físico em busca do sustento da família foram sendo trocados por funções mais estressantes mentalmente e a busca por valores monetários ofuscaram o brilho do macho.
Hoje um carro importado e uma roupa Armani causam mais impressão que Tórax suado e marcado pelas caçadas e batalhas.
A antiga atração macho x fêmea se transformou num jogo de cena. A disputa é pelo poder financeiro.
Mulheres bem sucedidas, e executivos disputam nos escritórios luxuosos e nas mesas de reunião as batalhas que antes aconteciam na cama, ficando esta apenas para as funções reprodutivas.
As novas gerações de Homens e Mulheres são formadas pela mídia, os padrões de beleza são impostos pelos produtores de moda e pelos editores de revistas masculinas, que apresentam mulheres maravilhosas retocadas a Photoshop, sem as marcas que a vida lhes deu. E as mulheres, como ouvi da Fox outro dia, "que antes queimavam sutiens, agora queimam gordurinhas, malhando nas academias, sonhando com o italiano suado e com barba por fazer na novela das oito, non né vero?"
Quando vamos voltar a valorizar o que realmente importa ?
Eu ainda acredito que o "Pau Duro" é uma homenagem a parceira e que boas e velhas palavras sussurradas na hora certa causam mais efeitos que caros presentes. Porém, eu sou um contra a maré das imposições da sociedade, um velho dinossauro condenado á extinção. Ou não serei um dos primeiros homens do novo milênio? Pois é, qual meu papel neste teatro das listas e da busca por poder mágico? Sempre fui um coadjuvante, um arlequim, um jogral, um menestrel contador de histórias. Porém, ainda amo a vida, me apaixono, escrevo versos ridículos que remeto à minha amada e choro com a distancia que me separa dela.
Pois bem, eu acredito no amor, na atração, na união dos opostos e na sagrada união do masculino e feminino.
Acredito que devemos retomar antigos valores, trilhar o caminho dos ancestrais, resgatar os antigos deuses que moram em nossos corações. Creio na centelha divina que existe em cada um de nós, no deus e na deusa que existem em cada um de nós, na força de atração e no glamour que eles criam em torno de nós.
Que tal nos despirmos das máscaras e roupas que nos foram impostas? Por que não voltamos a valorizar nosso interior e voltarmos a ser apenas gente, seres humanos? Por que não deixamos que os olhos dos deuses brilhem nos nossos olhares, que a força deles transpareça pela nossa pele e sua aura brilhe sobre nossas cabeças? Querem isto? É simples, deixem a deusa e o deus fluírem, esqueçam dos valores impostos, crie seus valores, ame seus parceiros e parceiras, e descubra que deus ou deusa mora em você, e deixe que eles ajam. Isto é magico.
Busquemos os valores dos cultos aos sagrado masculino e ao sagrado feminino, não para criarmos clubes do Bolinha e da Luluzinha, mas sim para uni-los e sermos felizes.
2.
Vixe,
Bem turma, acho que isto vai dar uma série e tanto. Comecei querendo escrever uma mensagem sobre o sagrado, mas com minha metralhadora giratória ligada descambei atirando pra todo lado... este meu lado dragão, às vezes vira maçarico... hehehe
Bem... Morgana, irmãzinha e Fox, vamos continuar, então. Apenas um aviso pra Fox: como devo nascer Cabrito para pagar meus carmas, nasça Alface bem longe hahahahahahahaha.
Esta questão de olharmos para o sagrado como uma coisa cotidiana é muito importante, pois há dois mil anos que vamos nos afastando dele gradativamente. Com o cristianismo romanizado, aceitamos o Deus único dos judeus, que mora nos céus e fomos eliminando todo o sagrado da terra.
As florestas, lagos, rios, campos, montes e serras deixaram de ser sagrados e passaram sistematicamente a serem devastados. Ou considerados morada dos pagãos incultos ou dos demônios.
A sensualidade e o erotismo, que por sinal nada tem a ver com a pornografia - escrita (grafia) das Prostitutas (pornos) - também passou a ser encarada como coisas demoníacas, sendo excluídos da vida dos verdadeiros cristãos. Porém, este medo do feminino já vinha de muito antes.
No princípio, todos os filhos eram feitos pela Deusa e pelo Deus e eram chamados filhos da minha esposa ou de minha companheira. Os homens nada sabiam da sua participação na geração das crianças e quando a criança parecia demais com o pai era considerado filho de seu espírito. Pois é, neste tempo, origem de todos os mitos, a paternidade não era levada em consideração. As danças sagradas eram coletivas e os homens e mulheres do clã dividiam entre si os prazeres da Deusa sem nenhum preconceito. Os casamentos eram feitos entre os espíritos e os corpos eram de todos. Dividiam-se apenas para a sagração dos mistérios masculinos e femininos, onde louvavam em separados cada qual os seus mistérios.
Para a mulher o sangue que se repetia com a lua, a maternidade, a comunhão com a flora, pois elas que colhiam os alimentos vegetais (não se preocupe Fox, você não vai renascer alface, as mulheres sempre colheram as plantas), os remédios, os dons da cura.
Para os homens, os mistérios da caça e da guerra (assim, acho que não vou renascer cabrito pois o sacrifício dos animais era atribuição masculina), e como estavam mais expostos a morte violenta, a eles cabia o cuidado com os espíritos, e seus ritos funerários.
A mulher, a Lua; o homem, o Sol. A mulher, a Vida; o homem, a Morte. A mulher, a Flora; o homem, a Fauna. Diferentes, porém complementares. E para recriar a natureza era preciso juntar o homem e a mulher.
Olhando à sua volta o ser humano aprendeu que tudo acontecia em ciclos circulares: nascer, crescer, morrer e renascer, como tudo o que ele via. A lua com suas quatro fases, o sol com o dia e noite, as plantas e suas sementes e a eterna união dos dois princípios: o Feminino e o Masculino.
Excluindo alguns rituais secretos para celebrar os mistérios masculinos e femininos, as celebrações eram coletivas, embora a forma da dança, uma das primeiras manifestações de louvor aos deuses, fossem diferentes para cada sexo.
A mulher deveria mostrar sua disposição para o trabalho e de atrair melhor seus pretendentes, mostrando suas formas mais arredondadas e suas reservas de gordura, o que garantiria filhos fortes e saudáveis. Dançavam com movimentos circulares e sensuais e eu ainda escuto na outra lista uma dançarina do ventre dizer merda, apreciando os homens que não vem na dança uma manifestação da sensualidade feminina como em todas as danças sagradas até hoje, do hula hula até as dançarinas balinesas. As danças sagradas são extremamente sensuais, da delicadeza de uma Yemanjá às ondulações da Oxum e à graça guerreira e irreverente de Yançã.
As danças e os ritos valorizavam a mulher e sua condição feminina e ainda o fazem até hoje, quando atraem os nossos olhares, nos analisam e nos escolhem. Doce ilusão a nossa que ainda somos caçadores irresistíveis, conhecedores dos mistérios da conquista. Somos irremediavelmente caçado e fisgados, mas a inteligência feminina mascara esta realidade e nos deixa a impressão que ainda somos fortes, valentes e sensuais guerreiros.
O homem em seus ritos e danças deveria mostrar sua força e astúcia. Criava seus movimentos baseados na espreita e no ataque, mostrando às mulheres o quanto ele poderia trazer de caça para a família para alimentar sua companheira e os filhos que a deusa desse a ela, além de demonstrar o poder de sua virilidade para satisfazer os seus desejos e principalmente para fertilizar a terra, demostrando-se incansável nos rituais de fertilidade. Como seus movimentos eram duros e fortes, sua dança não fazia círculos com o corpo, porém formavam o círculo para dançar, como são até hoje as danças masculinas indígenas. Caçadores e guerreiros valentes, fomos sempre caçados e aprisionadas por algum par de olhos cheios de promessas.
Neste tempo, o homem e a mulher eram sagrados e tudo que os cercava também. As mulheres dançavam e louvavam os deuses por melhores coletas e filhos saudáveis no ritos coletivos e, secretamente, pediam proteção para seus homens, licença antes de entrar na mata ou de colher alguma planta.
Os homens dançavam suas caçadas vitoriosas para que elas se repetissem, licença antes de abater uma presa e, ao fazê-lo, agradeciam, deixavam que seu sangue escorresse pela terra ou pintavam seu corpo com ele para que a energia e a alma deste animal ou retornasse a terra ou que lhe passasse sua força.
Mulheres e Homens dançavam e louvavam juntos à união da deusa e do deus celebrando a fertilidade e se uniam em corpo e alma na eterna união dos deuses. E até hoje quando um homem e uma mulher estão na cama é isto que fazem: louvam a deusa e o deus, criadores de todo o universo, ainda que poucos saibam isto. O ato sexual, nada mais é que a representação da devolução da semente do Deus na raça humana. O sêmen, para a terra. O caldeirão da Deusa, o útero da mulher. E o orgasmo, aquela corrente elétrica de 10.000 v, nada mais é que a lembrança da criação do universo, quando o deus e a deusa se uniram por amor e desejo.
Creio que aqui deva abrir um parênteses, ou melhor dois, um sobre a resposta da Mavesper no Templo da Deusa e outro sobre os homossexuais:
1º - A Mavesper disse que poderia existir wicca com adoração só da deusa, ou com adoração da deusa e do deus, mas nunca haveria wicca apenas com a adoração apenas do Deus.
Eu discordo. Só existe, não apenas a wicca, mas tudo o que existir com a união do Deus e da Deusa, seja religião, culto ou a nossa própria existência.
2º - O homossexualismo merece um capítulo a parte nesta série de discussões, mas, à principio, quero deixar claro que acredito que em cada homem e em cada mulher existe ambos os princípios, mesmo quando for uma relação heterossexual. Sempre vão estar envolvidos o princípio masculino e feminino do Homem com estes mesmos princípios na mulher. Ou seja, numa cama sempre serão 4. Portando, um homossexual masculino também tem seu masculino e feminino nele, o mesmo acontecendo com seu parceiro, e assim serão 4. O mesmo ocorre com as homossexuais femininas. Os dons da Deusa e do Deus não tem preconceitos, se os fizermos e louvarmos sem culpa ou medo, sempre serão maravilhosamente mágicos.
Fechados os parênteses continuo depois, pois está já esta bastante longa, e é melhor dividir cada parte para que a discussão não se perca.
3.
Bem... vamos continuando, agradecendo à participação de mais algumas colocações importantes, pois sem elas este meu delírio Dionisíaco iria parecer vazio e sem sentido. Vamos lá...
A princípio não consigo ver magia, bruxaria ou qualquer outra coisas que se mexam com energia serem bem feitas com o corpo travado, reprimido.
Estamos num estágio de liberalização sexual que começou mais forte na década de 60, a partir do tudo é permitido, é proibido proibir, não confie em ninguém com mais de trinta anos e o famoso "Faça amor, não faça a guerra", que avançaram quebrando os tabus e a moral retrógrada que então se praticava . Mas ainda talvez falemos disso, mas usei isto para colocar uma coisa que poucos perceberam, pois foi ofuscada pelos direitos femininos. Acredito que o "direito da mulher ao orgasmo" encobriu a maior conquista para a liberação sexual, "O Direito do Homem a Broxada".
Vivíamos uma moral dúbia, onde o homem deveria "comer" todas e a mulher deveria "dar" apenas para um, de preferência nem sempre. Esta obrigação de ser potente, não importando a mulher que estivesse ao seu lado, foi durante muito tempo bloqueando os sentimentos e a sensualidade masculina, na preocupação de manter o Bicho de Pé. Perdíamos um monte de sensações, fazíamos sexo travados e dificilmente agradávamos às mulheres. Com a farta literatura sexual disponível nos anos 70, as mulheres descobriram o orgasmo e ainda queriam mais. Queriam orgasmos múltiplos, uma parafernália de fantasias e posições afloraram e aquela trepada burocrática foi sendo gradativamente descartada, com as mulheres exigindo muito mais de nós (agora reduzidos a objetos sexuais) e aquele homem que dava uma rapidinha com a amante e vinha pra casa e dava mais uma com a patroa passou a ser mais exigido e os mais espertos passaram a gostar do sexo mais demorado e carinhoso e passou a desenvolver melhor o sexo com parceiras fixas e a recusar todas que pintassem, valorizando seus sentimentos.
Este movimento foi bloqueado com a entrada das mulheres no mercado de trabalho ameaçando as posições masculinas no seu ultimo quartel, a empresa.
Chegamos agora no último ano do milênio com as mulheres plenas e consciêntes de sua feminilidade, conhecendo o seu corpo e as necessidades dele e com os homens imaturos, assustados, procurando uma saída, que não é a retomada dos valores machistas, pois estes já nem são bem aceitos. Mas com uma certeza, já podem brochar à vontade que serão compreendidos e reservar o melhor deles para a mulher que os encantar. E aí sem preconceitos, sem repressões. Se entregar aos prazeres de exercitar os dons que os deuses deram aos humanos, de ter sexo fora da procriação, apenas por amor e prazer.
E, agora, para não ficarmos chamando a lista de Hécate Erótica vamos voltar ao sagrado das relações homens/mulheres e os mistérios de cada um.
Falávamos de um tempo em que as mulheres eram as mães dos filhos e o homem era seu companheiro. Os filhos eram no máximo filhos do espírito dos homens. Não sabiam da participação masculina na geração das crianças, que eram bênçãos da Deusa. A sociedade era igualitária e justa.
Apesar de talvez este ter sido o mais longo período da história da humanidade, pouco sabemos sobre ele.
A Quebra da harmonia
Num momento seguinte, foi descoberto que o homem participava com seu sêmen para fazer as crianças e quebraram a hegemonia feminina nos ritos de fertilidade e nos mistérios da criação.
E, mais que isto, os homens passaram a temer a infidelidade, o que os levaria a criar filhos que não fossem seus.
Foram gradativamente incorporando as funções femininas na religião e passaram a valorizar mais o masculino, com os deuses homens e guerreiros tomando a frente e deixando menos espaços para as divindades femininas.
Creio que aí começou o reflexo de tudo que ainda vemos hoje nas relações homens x mulheres, temendo não ser pai de seus filhos, e as mulheres temendo que eles tivessem filhos com as outras, o que roubaria comida de seus filhos. Passaram a considerar as uniões como propriedade e o ciúme, coisa que poderia ser mais suave, passou a ser ostensivo e possesivo.
O fato de teoricamente ser mais fácil e prazeroso fazer sexo para a mulher criou os mitos das mulheres demônios sedentas de sexo e como tal acabaram sendo tratadas, reprimidas, isoladas e segregadas.
Porém, nunca devemos nos esquecer que dentro de cada ser existe uma parte divina e, mesmo afastadas dos cultos políticos, as mulheres ainda eram as guardiãs dos altares domésticos e, como foram mantidas ao largos das grandes questões, preservaram muito dos mistérios da cura, das ervas e da sensualidade. E, por mais reprimidas que fossem, souberam preservar seus ritos, os transformando ou os ocultando. Usando o conhecimento do sagrado, as mulheres conseguiram manter nas suas mãos boa parte de seu poder original.
Manipulando as ervas e o conhecimento, as mulheres sempre se mantiveram em evidência, como curandeiras, feiticeiras, parteiras e, sempre que os homens deram uma chance, grandes rainhas e líderes de homens. Outras ainda usando sensualidade para obter o poder político e financeiro.
Nós, homens (me incluo constrangido neste rol), como sempre meio bobões, fomos gradativamente nos dedicando a atividades ligadas à pecuária, guerra, comércio e o sacerdócio. A magia e os mistérios foram ficando nas mãos de poucos, fechando o círculo dos conhecedores do assunto. O restante dos homens ficou nas mãos dos religiosos e das mulheres.
Portanto, perdemos o contato com o divino há muito tempo e para os homens agora resgatá-lo tem sido muito mais difícil. Pois com a romanização, os romanos ligavam a religião aos negócios do estado, portanto um Deus só pedia o que fosse bom para o Império e com isto eles também foram abandonados, com os romanos transformando seus Imperadores em Deuses. As mulheres continuavam a honrar a deusa e suas filhas nos altares domésticos e redescobriram no culto a Dioniso a união do sagrado feminino ao masculino, chegando inclusive a ameaçar a ordem do império em 195 a.C., levando à proibição dos cultos dionisíacos por todo império.
Mênades, bacantes, mulheres enlouquecidas pela força do Deus e os homens tão sérios as proibindo e novamente reprimindo.
Com a mudança da religião com o império romano aceitando o cristianismo, com um Deus assexuado e um clero sedento por poder, a repressão se extendeu ainda mais, não dando tréguas ao ocidente até os dias de hoje.
Durante a História, Dioníso, este deus selvagem e bárbaro, sempre estrangeiro, nunca preso à lugar nenhum, aparece e some sempre relembrando a importância do Transe, do Êxtase. O Deus das máscaras que encobrem, mas revelam, o que esconde e mostra a verdadeira natureza dos humanos.
Ao contrario das epifanias de Apolo e dos Olímpicos (cultos marcados com data e tal), Dioniso é um Deus Epidêmico. Chega sem aviso e contamina com sua loucura, com o transe profético e seu poder Orgiástico e Orgástico. Contaminando os homens e as mulheres que ensandecidos voltam a cultuar a fertilidade e o desejo.
Mulheres matam seus filhos, rasgam seus corpos, esquecem das formas menina, mãe e anciã para serem apenas Gaia, a força da criação e da vida. Os homens esquecem-se de seu comportamento Apolíneo e seguro para incorporarem Pã e Priapo, forças da natureza voltadas à fertilidade da terras.
De tempos em tempos, o mundo se recria e, como profetizou Tirésias: "Existem para os homens dois princípios fundamentais. Primeiro, Deméter ou a Terra, ou qualquer nome que a chamem, ela é a nutriz, a potência dos alimentos sólidos para os mortais. O outro de igual poder é o filho de Sêmele, que inventou e introduziu entre os homens o alimento líquido, o vinho que acalma as angústias dos pobres humanos, que quando se fartam deste licor, ele lhes traz a dádiva do sono e o esquecimento dos males cotidianos, o alimento do espírito.
Os mistérios do casamento sagrado, celebrados em Elêusis, o mais secreto rito grego, Deméter se transfigurava em Rhea Deméter, a gaia, e Dioniso em Urano o céu, e juntos lembravam Fanes, a serpente da criação. É este o casamento entre a deusa e o chifrudo, o grande Rito dos celtas.
Portanto , mesmo com a ruptura, com os desvios dos homens os ritos ao sagrado matrimônio ainda continuam existindo.
A maior parte destes mistérios permanece nas mãos das mulheres que, como dissem, nunca perderam o contato com sua natureza sagrada. Para nós, homens, restou buscar e procurar dentro e fora de nós o deus, colhendo aqui e ali fragmentos da sabedoria perdida, buscando, em lendas e mitos, nossa verdadeira natureza divina, querendo achar os mestres despertos, que estiveram ao lado das mulheres durante este últimos VI milênios.
Mas a única alternativa esta em resgatar dentro de nós a força do Deus. E só quem pode nos ajudar são as mulheres para então resgatar a Harmonia para nossas vidas.
4.
Bem ... eu prometi 5 capítulos sobre o sagrado, se bem que isto renderia vários livros, mas creio que com estes conseguirei pelo menos introduzir o sagrado casamento como assunto na lista, onde creio que ele possa ser, com a ajuda de todos, melhor desenvolvido e que o tornemos um assunto permanente.
Vou falar sobre o sagrado casamento agora e, finalmente, na próxima falarei do Sagrado masculino, um assunto que é tabu em muitas listas e círculos. Mas vamos primeiro ao casamento entre os dois princípios, onde vamos encontrar toda a força da magia, pois os feitiços que usam apenas um dos princípios podem sempre ficar incompletos e vulneráveis.
Abro um parênteses para colocar a questão dos homossexuais, pois a mensagem da Sybill mostrou um lado que eu ignorava. Eu acreditava que todos da lista tivessem uma mesma opinião a respeito, então é melhor eu reafirmar o que penso:
Vendo cada ser humano como a união dos dois princípios, encaro cada homem ou cada mulher como um ser formado pelo masculino e pelo feminino. Teoricamente seríamos todos bissexuais, porém nossa configuração física e psíquica acaba nos colocando mais para o lado de nosso sexo biológico. Portanto, para mim quando falo homens estou dizendo todos que nasceram com joazinhos pendurados e quando digo mulheres estou falando nas que tem periquitas. Excluiria apenas os transexuais e os hermafroditas.
Vejo, então, o casamento sagrado sendo feito, independente da opção sexual. Sempre estarão se unindo os dois princípios 2 X. Como falei na resposta à Sybill, os homossexuais masculinos ou femininos tem a preferência sexual por um igual, mas nunca colocaríamos um homem como sacerdotisa, tampouco uma mulher como sacerdote. A opção sexual deles não os excluem dos mistérios. Um homem sempre deverá conhecer e praticar os mistérios masculinos, por mais gay que ele seja. E as mulheres do ritos femininos, por mais lésbicas que sejam. ,E tendo como exceção os transexuais, que ainda não mudaram de sexo, pois a carga hormonal e emocional deles é do outro sexo, mas são raros, portanto não devem causar tanta polêmica.
Não vamos ainda nos esquecer que este trabalho é um trabalho em grupo e o que ando escrevendo é uma visão particular minha, que pode ser mudada pelos argumentos apresentados pela lista. Bem, vamos ao trabalho!!!!
A união sagrada.
Quantos aqui de nós veriam com naturalidade o seu parceiro/a, esposa/o ou companheira/a amando outra pessoa?
Pois é ... quantos teriam a segurança de assistir um casamento sagrado entre a pessoa que você ama sendo o Deus ou a Deusa num grande rito ?
O que retira toda a confiança do amor e gera o ciúmes ?
A resposta é a falta de confiança em si próprios e os preconceitos.
Já falamos historicamente da ruptura entre o casamento perfeito e a falta de sintonia entre os sexos, os homens tendo uma visão errada de suas mulheres e vice versa.
Creio que isto ocorre pela falta da religiosidade interior. Já fazem alguns milênios que a divindade foi tirada do nosso interior e depois jogada para fora do nosso planeta. Isso acabou gerando na humanidade um grande vazio interior e uma enorme necessidade de preenchê-lo. Quando os deuses habitavam nossos corpos éramos completos. Ou quase, pois nos faltava apenas a companheira ou companheiro, que completaria a união Deusa/Deus.
Com os deuses morando em nós, nos hindus eles ainda moram ("Namastê" o deus que mora em mim saúda o deus que mora em você), tanto todas as pessoas quanto tudo que os cercavam eram sagrados. Os deuses estavam vivos e presentes em tudo, por isto respeitávamos a natureza e os nossos sentimentos, pois eles eram compartilhados por forças poderosas. O amor não era banalizado ou confundido com outros sentimentos e a confiança que existia nos impedia os ciúmes e a descrença.
Como poderia ser possível alguém que visse no rosto da amada todas as mulheres do mundo e a Deusa sentir algo por outra? Como poderia uma mulher amada por um Deus querer outro homem?
Confiança em nós mesmos. Foi o que perdemos quando tiramos o sagrado de nossas vidas. O vazio deixado pela divindade foi preenchido por outros sentimentos e desejos que não existiam em nossa natureza divina. Os Sete Pecados Capitais dos cristãos são um belo exemplo do que usamos para nos enganar e tentar preencher o vazio deixado por nossos verdadeiros sentimentos:
A Ira, um descontrole que substitui a plácida calma de quem tem um deus dentro de si.
A Gula, o querem se preencher internamente com coisas externas.
A Cobiça, querer tudo, muito além do que precisa.
A Inveja, querer algo que o outro tem, achando que te faz falta.
A Luxúria, insatisfação sexual.
Preguiça, a falta de vontade e a frustração em fazer algo.
Ódio, o reverso do amor.
Colocado isto no lugar do Deus interior, pouco restou do ser humano original e, rompida a harmonia, esta quase nunca mais foi concretizada.
Para encontrarmos novamente com o nosso deus ou deusa interior devemos antes de mais nada tirar de nós estes "Sete Pecados" contra a nossa integridade e mais algumas manifestações de nosso ego, como o individualismo e orgulho, pois amar sempre será a dois e a humildade vai ajudar muito ao iniciar o casamento divino, quando ambos precisam aceitar o outro inteiramente.
Abro um parênteses para falar que o que mais vejo nos relacionamentos é um querendo mudar o outro, o que considero um contracenso, pois nos apaixonamos por uma pessoa e imediatamente começamos a mudá-la. Em pouco tempo aquela pessoa pela qual nos apaixonamos deixou de ser o objeto de nosso amor. Devemos amar o outro pelos defeitos e pelas qualidades. Costumo dizer que amo minha melhor amiga só por seus defeitos, que por sinal são defeitos maravilhosos, e suas virtudes são tão banais. Sempre achamos que podemos melhorar as pessoas, mas... melhorar o que, se as encontramos e nos apaixonamos por elas da maneira que eram, qualquer mudança só vai nos afastar daquela/e que amamos.
O casamento perfeito, durável, e eterno é a união dos deuses interiores, é o casamento sagrado e mágico, onde a fidelidade não é uma obrigação, ela simplesmente acontece. Como acontece sexo sem pirotecnias e fantasias, onde a atração supera qualquer coisa, quando apenas um olhar, um toque desencadeia um sem-número de sensações.
Bem, encerro esta mensagem falando que, por termos esquecido o nosso lado mágico e sagrado, hoje sofremos as conseqüências, principalmente os homens, que não se satisfazem com suas mulheres e buscam as deusas fabricadas e impostas pela mídia com seus corpos perfeitos para suas fantasias e esquecem que cada marca no corpo de uma mulher é a vida que ela teve. Estrias de gravidez e amamentação, alguma celulite, uma gordurinha localizada é o que as faz mulher. É o que conta a história da mulher e que devemos ler como num livro em braille, docemente com as pontas dos dedos. Uma mulher perfeita é um livro em branco, nada se tem para ler. E acabamos também nos esquecendo que pouquíssimos de nós, ou melhor, nenhum de nós é um Apolo, perfeito e maravilhoso. Somos gente. Se fossemos perfeitos, seríamos Deuses.
Todos temos nossas marcas, nossas cicatrizes, desde as que aparecem como as nossas cicatrizes da alma, feridas abertas por nossos enganos, desilusões e traições, elas contam a história de nossa breve existência e, quanto mais queremos escondê-las, mais elas sangram e aparecem.
Somente resgatando em nós a divindade voltaremos a ser inteiros. Nossas dores serão curadas e poderemos ser felizes, pois a principal busca que fazemos na magia é a busca da alegria, da paz de nossa alma. O poder mágico que todos buscam nada mais é que a busca da própria identidade, a busca de nós mesmos. Quanto mais aprendemos mais desdenhamos o poder magico e mais buscamos a nossa paz interior, o nosso equilíbrio e isto pode ser obtido com o casamento divino, mas para que isto aconteça devemos antes resgatar o nosso deus interior.
Em qualquer lista mágica que entremos vamos ouvir falar do divino feminino, mas pouco se fala do divino masculino, como elevá-lo, como fazer rituais mágicos masculinos, como utilizar o poder do sêmen e outras tantas perguntas que ficam na cabeça dos homens. Bem vou falar um pouco mais sobre isto no Sagrado 5
5.
Nas lendas Irlandesas... Derdriu, prometida a Conchorbor, rei do Ulster, se apaixona e foge com Noisiu, é perseguida, capturada e seu amado, morto. Ela cumpre o seu destino, casa-se com Conchorbor e jamais volta a sorrir.
Segue parte de seu lamento...
(...) Noisiu: seu mausoléu foi construído,
e com grande pesar acompanhado.
O maior dos heróis e derramei
a bebida mortal quando morreu.
Adorava-lhe os pêlos, tão dourados,
forma imponente grande como árvore.
Ai de mim, já não fico mais à espera,
nem a aguardar o filho de Uisliu.
Amava o bom, o grande lutador,
amava seu desejo justo e firme,
amava-o de manhã, ao se vestir
pelas cercanias da floresta.
Olhos azuis derretiam mulheres,
ameaçavam o algoz, mas eu amava:
daí, finda a nossa estada na floresta,
ele cantava pela mata escura.
Agora já não durmo,
nem pinto minhas unhas,
Por que haverei de dar as boas-vindas?
O filho de Indel já não vem mais.
18 séculos depois em 1773, Eileen OConnell, também lamenta a morte de seu amado, morto injustamente pelos invasores ingleses.
meu amor, minha alegria,
desde o dia em que te vi
Pelos lados do mercado,
Não olhei para mais ninguém
E ninguém mais eu amei.
E tu me deste de tudo.
Muros caiados para mim,
Quartos pintados para mim,
Fornos ligados para mim,
E pães assados para mim,
Carnes giradas para mim,
Cama arrumada para mim,
Para eu descansar do meu trabalho
Até a hora da ordenha,
Ou até mesmo mais tarde.
Meu amor, minha alegria,
Que tarefa mais dorida,
Preparar, para um gigante,
Uma mortalha e um caixão,
Para um herói generoso,
Que nas montanhas pescava
E em bares claros bebia,
Com mulheres de colo alvo.
Meu viajante de olhos vívidos,
O que foi te acontecer?
Pensei-te em meu coração,
Quando comprei-te boas roupas
Homem que o mundo jamais mataria.
Da Irlanda da idade do ferro até a Irlanda do século XVIII as mulheres perdiam seus amados, mas ficavam marcadas eternamente por eles. No lamento por Art OLeary, o último grande poema escrito no idioma Irlandês, a esposa apaixonada ainda lamenta...
Bem sabe meu Jesus Cristo:
Posso ficar sem chapéu,
Sem um abrigo sequer,
Sem um calçado no pé,
Sem utensílios na casa,
Sem arreios para a égua,
Gasto tudo no processo.
Atravesso mar e terra,
A levar o caso ao Rei,
E, se o Rei estiver surdo,*
Resolvo, sozinha, tudo
Com aquele sangue ruim
Que me deixou sem meu homem.
* O rei era Jorge III, e continuou surdo
O que liga estes dois Lamentos ?
A descrição do homem amado, 18 séculos e a ordem Gaélica da Irlanda, a nobreza de suas linhagens mantiveram uma visão do masculino inalterada para as mulheres, como vamos analisar melhor no epitáfio de Art OLeary, ainda que escrito em inglês moderno, reflete a antiga visão do sagrado masculino.
Eis Arthur Leary
Generoso Belo Bravo
Morto na flor da Idade (20 anos)
Aqui Jaz em Túmulo Humilde.
Os três adjetivos para descrever o morto, nos mostra claramente o código moral da idade do ferro, Generoso, Belo e Bravo. Este código está presente em toda a literatura da idade do ferro, seja na Ilíada e Odisséia como no Gilgamesh. E no próprio Tain Irlandês.
A Rainha Medb, (a do aconchego, Crow) se define Eu as superei em Graça, era bela, Em Dons, era generosa, e nas batalhas e na guerra, era Brava. E definia seu marido exatamente ao contrario ao se separar, "é o fim da Mesquinhez, do Ciúme, e do Temor". Mesquinhez é o oposto da Generosidade, o Temor da bravura e o ciúme, estará sempre ligado à beleza, como se escondendo a beleza dos olhos alheios.
Existia mais uma qualidade que seria aplicada aos homens, a lealdade e a fidelidade. Mas esta, pelos dois poemas, não eram aplicadas ao homem amado. Os olhos azuis de Noisiu derretia as mulheres, mas ela o amava e o ciúmes era compensado pelo orgulho que ela tinha do amado. O Art OLeary bebia em bares claros, com mulheres de seios alvos. Ambos eram amados, ainda que a sua fidelidade poderia ser discutida e foram chorados após a morte. Não sabemos se brigavam em casa, mas sabemos que a lealdade e fidelidade era mais aplicada na amizade entre homens, tipo Aquiles e Patroco, Gilgamesh e Enkidu, e Cuchulainn e Ferdia. Ou ao general ou Rei na hora da batalha.
Sem querer aqui defender a infidelidade, acredito que na idade do ferro e na antiguidade morriam muitos homens em batalhas e creio que até pela perpetuação da espécie não era tão terrível a traição masculina. E o sistema de casamentos Irlandês, que era renovado anualmente, também não era tão rígido.
Portanto, vamos apenas nos ater nas qualidades masculinas. Será que Nós, Homens de agora, somos Bravos, Belos e Generosos ??
"Bravos", qual ato de bravura impressionaria uma mulher atual? Bem... com minha primeira mulher uma vez em Recife dei porrada em dois babacas que estavam muito salientes para o meu gosto e acho que fiz mais sucesso foi com a família pernambucana que com ela, que desprezou meu ato de bravura e valentia, dizendo que os dois estavam bêbados.
Com a segunda, creio que a maior bravura foi encarar a sogra.
Agora, creio que a bravura que meu amor espera é que eu vença todos os obstáculos e fique com ela.
O Belo nunca é o absoluto, a beleza obedece padrões estéticos, étnicos e culturais, todos podemos ser belos. Para isto basta nos sentirmos bem. Quando estamos em paz conosco mesmo nos sentindo inteiros, plenos, sempre seremos belos. Quando nos entregamos aos sentimentos, estes transparecem por nossos olhos, pelo sorriso e sempre seremos bonitos para quem nos ama.
"Generosidade": Será que somos generosos?? Confiamos, apoiamos e damos a força que nossas mulheres precisam? Creio que este é um fator fundamental, para manter qualquer relacionamento, mas nós homens e mulheres perdemos nossa generosidade de sentimentos.
Confiança é um sentimento generoso quando confiamos nos outros e a auto-confiança é fundamental para desenvolvermos uma vida plena.
A compaixão é outro dos sentimentos generosos pouco praticados. Ao contrário do que muitos pensam, a compaixão não é sentir pena. Aliás, um sentimento nada generoso é ter pena ou dó de alguém. A compaixão é sentir junto, é dividir os sentimentos, alegrias e tristezas. É estar do lado, próximo, mesmos nas situações adversas.
O amor, o mais generoso dos sentimentos, a capacidade de doar-se a outra pessoa ou a uma causa, se entregar sem restrições a um sentimento ou idéia.
Nesta era tecnológica que vivemos hoje ainda temos tempo de sermos Bravos, Generosos e Belos ?
O que sabemos de beleza, generosidade e bravura. A beleza nós é imposta pela mídia, a generosidade é fazer doações anônimas à entidades que nem sabemos que existem e a Bravura é, no máximo, entrar na sala do chefe para pedir um aumento.
Que aconteceu com a qualidades viris dos homens de hoje?
Nós, humanos, somos egoístas, mesquinhos, só pensamos em nós mesmos. Pouco compartilhamos nossos sentimentos, pouco compartilhamos as nossas vidas. Somos apressados, queremos tudo pra agora, não temos a paciência para esperar nada, tudo é pra agora, pra já.
Perdemos a faculdade de pensar de maneira simples, não agimos mais com a emoção, tudo em nossa vida é extremamente racional, controlado e fútil. Fugimos das verdadeiras emoções, fugimos da responsabilidade de amar intensamente, buscamos amores baratos e descartáveis.
Temos medo de amores fortes e intensos que nos levem à beira da loucura. Se convencionou que ninguém deve sofrer por amor e o medo do sofrimento é maior que a vontade de se entregar.
Está cada dia mais difícil encontrar homens e mulheres que se entregam sem restrições à paixão e, quando se entregam, uma série de preconceitos, atitudes e bloqueios impedem a concretização de uma relação plena.
A falta de intimidade e cumplicidade, tanto nos homens como nas mulheres, muitas vezes fazem com que o ato sexual se transforme num jogo de esconde-esconde, no escuro e com corpos escondidos por lençóis ou rapidamente cobertos por cuecas e camisetas.
É incrível que foram nos incutindo padrões estéticos e morais a ponto de as pessoas terem pudor com quem acabaram de manter uma relação sexual. E ao invés de ficarem descobertos, deixando o suor secar na pele fundindo os fluidos corporais dos dois, saem correndo para tomar banho, como se suor fosse uma coisa horrível.
Parece que hoje toda a nossa moral civilizada e cultural, ou melhor, o que achamos que é civilizado, nos roubou sensações e sentimentos que existiam no homens e mulheres da idade do ferro e da antiguidade e que permaneceu na Irlanda até o Século XVIII.
Nos falta o fator unidade entre um homem e uma mulher. Falta a consciência de pertencermos a alguém e que em contrapartida este alguém nos pertence. Se pertencemos um ao outro e não nos entregarmos rompemos o equilíbrio do sagrado.
Quando não sentimos que nós e a pessoa que amamos somos um só é que acontecem estas distorções. E séculos de distorções, nos transformaram em seres desplugados da realidade sagrada. Com isto nos afastamos cada vez mais e ficamos cada vez mais distantes dos nossos objetivos na vida.
É difícil escrever em poucas páginas tudo que se tem a dizer sobre um assunto, mas tem um diálogo entre um cavaleiro da Távola Redonda e uma donzela, no livro Parsifal, que vale a pena ser reproduzido, e que poderia colocar um bom fecho nesta mensagem.
Sir Galvão estava comprometido com uma luta, não podendo portanto se ferir em batalha. Estando, porém, num palácio sitiado, foi chamado à luta pelo senhor do castelo. Recusou-se. Porém, a filha deste, uma jovem donzela, foi falar com ele:
(...)Tenho Deus por testemunha, senhor, que vós sois o primeiro cavaleiro com o qual mantenho este tipo de conversa. Se neste diálogo fui capaz de me manter nos limites da conveniência então posso sentir-me feliz, pois minha preceptora me disse que é conversando que se revela o bom-senso das pessoas. Senhor, é num momento de grande angústia que me dirijo a vós e, através de vós, a mim mesma. Permiti que vos descreva essa situarão aflitiva mas não façais mau juízo de mim por causa disso. Peço socorro a mim mesma através de vossa pessoa, de modo que minha maneira de agir não chegue a ser inconveniente. Ainda que tenhamos nomes diferentes, somos ligados um ao outro de forma indissolúvel. Ostentai pois doravante meu nome e sede a um tempo varão e donzela. Minha súplica é, portanto, dirigida a ambos nós dois. Caso me repilais e deixeis que me retire humilha- da, vossa honra entrará em confeito com vossa formarão cavaleirosa pois é uma donzela que procura junto a vós proteção e socorro. Senhor, se vos convier tereis minha irrestrita afeição e / se fordes homem digno não me recusareis esse ato de serviço pois eu o mereço. Na verdade meu pai pediu apoio a muitos amigos e parentes mas isso não vos impede de prestar serviço a mim e a até para, mais tarde, ser recompensado por mim."
A isso Galvão respondeu: " Senhora, estais fazendo de tudo para eu quebrar a palavra empenhada, embora a deslealdade seja uma atitude que devíeis detestar. Empenhei minha palavra e, se não a cumprir serei considerado morto. Entretanto, ainda que quisesse através de atos de serviço, aspirar ao vosso amor, devíeis ser no mínimo cinco anos mais velha para que pudesse requestá-la. A recompensa amorosa é, pois um argumento que não pode ser levado em consideração." Nesse momento veio-lhe a memória a atitude de Parsifal, que confiava mais nas mulheres que em Deus e essa lembrança transformou-se em mensageiro da menina, que acabou abrindo caminho ao coração de Galvão. Ele prometeu pois a pequena fidalga defender sua causa com as armas na mão, acrescentando: "Vossa mão manejará minha espada e se alguém me desafiar partireis para o ataque e lutareis em meu lugar! Na verdade serei eu quem será visto no tumulto da luta, mas na realidade sereis vós que manejareis minha espada."
Obilot respondeu: " Isto me satisfaz. Vossas palavras removeram do meu coração os temores da dúvida. Serei doravante vossa salvaguarda e escudo, vosso coração e consolo, vossa guia e companheira no infortúnio, vossa cobertura protetora contra as intempéries e desgraças. Meu amor dar-vos-á segurança e fortuna nos perigos da guerra a fim de poderdes defender com fibra heróica a cidade e o castelo. Sou castelão e castelã e estarei convosco na luta. Se tiverdes confiança não vos faltarão energia e fortuna.
O nobre Galvão arrematou:" Senhora, gostaria de contar com ambas as coisas: vosso amor e vosso apoio. Minha vida está consagrada ao vosso serviço.(...)
Depois da Batalha, onde aprisionou um rei e foi o mais valente em armas e o maior em glorias, Sir Galvão entrega todos os prisioneiros à guarda de Obilot, sua senhora e acrescenta:
"No fundo foi ela que os aprisionou, a Glória pelo que fiz é unicamente dela."
Texto postado originalmente na lista Hécate, da qual Gwydion Drake é moderador.