O Homem na Feitiçaria

 

 

Apesar de existirem muitos homens na Feitiçaria moderna, em geral, eles são menos imediatamente atraídos para a Arte, como são as mulheres. À parte de quão simplista ou supersticiosamente a Arte seja compreendida, ela oferece às mulheres um modelo de força feminina e poder criativo; neste ponto, notadamente, ela sofre pouca competição por parte das outras religiões. Mas, para os homens, ela exige que abram mão de formas tradicionais de poder e conceitos tradicionais de religião. O que ela oferece aos homens é algo mais sutil e, nem sempre, fácil de ser compreendido.

Os homens não são subservientes ou relegados a uma cidadania espiritual de segunda classe em bruxaria. Mas, tampouco são imediatamente elevados a um status mais alto do que o das mulheres, como ocorre em outras religiões. Homens na Arte devem interagir com mulheres fortes e poderosas que não fingem ser nada menos do que são. Muitos homens acham essa perspectiva desconcertante.

A Arte exige, também, novo relacionamento em relação ao corpo feminino. Ele não pode mais ser entendido como um objeto ou difamado como algo sujo. O corpo de uma mulher, seus cheiros, secreções e sangue menstrual, é sagrado, digno de reverência e celebração. O corpo das mulheres pertence somente a elas; nenhuma autoridade espiritual a tentativa de um homem em possuí-lo ou controlá-lo.

O corpo não é para ser festejado em isolamento. Os homens na Arte devem entrar em um acordo quanto ao poder da mulher: o poder de uma mulher completa, uma mulher realizada, cuja mente, espírito e emoções estão completamente despertados. O homem também deve conhecer e aceitar o poder do seu próprio self feminino interno; saber gerar uma fonte de alimentação e inspiração dentro de si, em lugar de buscá-lo exclusivamente no exterior.

Feitiçaria significa, também, perder o modelo de espiritualidade do "grande homem". Jesus, Buda, Krishna, Moisés e toda a horda de pregadores, profetas, gurus e líderes grupais que afirmam ensinar em seus nomes ou em nome de seus descendentes seculares, perdem as suas auréolas. Em bruxaria não existem figuras paternas reconfortantes e que tudo sabem, que prometem respostas para tudo ao preço da sua própria autonomia pessoal. A Arte exorta cada um de nós para que sejamos nossa própria autoridade, e essa pode ser uma posição desconfortável.

Na realidade, não existe mais Deus, o Pai. Na Arte, o cosmo não é mais modelado a partir do controle masculino externo. A hierarquia é dissolvida; a cadeia celestial de comando é rompida; os textos divinamente revelados são vistos como poesia, não verdades. Em vez disso, o homem deve entrar em contato com a Deusa, que é imanente ao mundo, na natureza, na mulher, em seus próprios sentimentos, em tudo aquilo que as religiões de sua infância ensinaram-no como sendo necessário superar, transcender, dominar, a fim de ser amado por Deus.

Mas, os próprios aspectos da Feitiçaria que parecem ameaçadores também oferecem aos homens uma nova e vibrante possibilidade espiritual: a da totalidade, união e liberdade. Homens corajosos acham estimulante os relacionamentos com mulheres poderosas. Eles acolhem a chance de reconhecer o feminino dentro de si, de crescerem para além das limitações culturalmente impostas e tornarem-se um todo.

Tentativas para viver o modelo do Deus-Pai isola os homens em situações de vida emocionalmente rígidas. Muitos homens recebem com alegria a liberdade do fim do eterno conflito pai-filho do patriarcado. Eles se comprazem em um modelo de poder masculino que não é hierárquico, em que não é nem escravo nem senhor. Enquanto alguns indivíduos talvez não escapem da autoridade externa em suas próprias vidas, eles as vêem como são: um conjunto arbitrário de regras de um jogo complexo. Eles podem jogar ou recuar, mas suas identidades e auto-estima não dependem mais do lugar que ocupam na pirâmide do poder.

Na Arte, a cisão entre mente e corpo, carne e espírito, é curada. Os homens são livres para serem espirituais sem serem assexuados, pois Deus e Deusa incorporam a força profundamente tocante da sexualidade apaixonadamente vivida. Eles podem unir-se a seus sentimento verdadeiros, suas necessidades, suas fraquezas, assim como a suas forças. Os rituais são vigorosos, físicos, energéticos e catárticos. O êxtase e a energia selvagem e indomada são revestidos de um valor espiritual, não relegados ao campo de futebol ou ao bar da esquina.

É incômodo ser a nossa própria autoridade, mas é o único estado sob o qual o verdadeiro poder pessoal pode desenvolver-se. Homens e mulheres não se contentam mais em seres submissos ou bodes expiatórios, de colocarem as decisões de vida e morte nas mãos de um "líder destemido", um papa ou um Jim Jones. A autoridade pessoal exige integridade e responsabilidade, mas sem ela não podemos ser livres.

Nos covens os homens podem ter apoio do grupo e a afeição de outros homens, bem como das mulheres. Eles podem interagir em situações que não são competitivas ou antagônicas. Homens em covens podem tornar-se amigos de outros homens.

Finalmente, a Feitiçaria é divertida. Ela oferece aos homens uma oportunidade para brincar, de agir totalmente, de deixar a criança que existe dentro de nós sair. Não existem posições a serem sustentadas, nenhuma dignidade masculina que deva permanecer intacta. Através de tolices e brincadeiras nasce a criatividade.

O Deus está dentro e fora. Como a Deusa, ele é invocado de várias maneiras: com canções, cânticos, tambores, danças, um poema sussurrado, um grito selvagem. De qualquer maneira que o invocamos, ele desperta dentro de nós.

 

Fonte: Trecho do livro A Dança Cósmica das Feiticeiras, de Starhawk, Ed.Nova Era.