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Os Navahos
Por Lobo do Cerrado
Eles são os Guardadores do Simbolismo Curativo. Seus desenhos na areia e rituais vibrantes, buscam estabelecer a harmonia do ser humano com as forças naturais à sua volta. É através deta força curativa da natureza, em ritos de purificação que incluem orações cânticos e símbololos cristalizados em pinturas de areia e transmitidos de geração e geração. Em síntese, a cura dos Navahos utiliza todo o sistema de crenças do paciente, liberando a energia de identificação símbolica para recriar o mundo interior.
Os Navajos (Navaho) se
autodenominam Dineh, o Povo.Atualmente vivem num planalto que se
estende por boa parte dos estados do Arizona, do Novo México
e de Utah (é a maior reserva indígena dos Estados Unidos). É
um território de imensas proporções, basicamente árido e
desértico, recoberto por pequenas reservas de pinheiro de
pinhão, juníperos e artemísia. Vários desfiladeiros, como o
Canyon de Chelly e del Muerto, estendesse por vários
quilômetros em planaltos que se perdem de vista. Formação
rochosas brilhantes erguem-se do
solo como monumentos descomunais ali colocados por uma antiga
raça de gigantes. À primeira vista, a terra parece vazia e
inóspita e a atenção então se dirige para o céu azul e sem
nuvens. Parece que a mão do homem nunca tocou esse lugar.
Somente mais tarde é que se percebe que o terreno aparentemente
vazio, é na realidade densamente habitado, pequenos Hogans
(cabanas) abrigam-se nas vertentes dos vales e reentrâncias por
todos os lados, e rebanhos de carneiros materializam-se em pleno
deserto. A filosofia religiosa dos navajos é ligada a natureza,
que busca a harmonia, de uma ligação entre os homens e todas as
fases da natureza atuam juntos, e os seres pequenos,
aparentemente insignificantes, podem tornar-se tão importantes
quanto os grandes e possantes. Há um panteão navajo, mas não
uma verdadeira hierarquia. Os grandes deuses, às vezes, são
eclipsados por criaturas modestas e humildes que podem realizar
aquilos que eles não conseguem.. Todos os poderes, como a
possível exceção de Mulher que Muda, são igualmente bons e
maus, dependendo de sua natureza intrínseca, do modo como são
abordados, de seu humor e das condições do momento, e do
contexto de sua atuação.
A maioria das cerimônias tem
por finalidade persuadir os deuses a outorgar
dádivas à humanidade, banir o mal e restaurar a harmonia
natural são imagens
e rituais vibrantes, que buscam a estabelecer a harmonia do ser
humano do ser humano com as forças naturais a sua volta. É
através desta interação que os xamãs evocam os poderes
curativos da natureza, em ritos de purificação que incluem
orações, cânticos e símbolos cristalizados em pinturas de
areia e transmitidos de geração em geração. A cura dos
navajos todo um sistema de
crença (mitologia dos navajos) do paciente, liberando energia da
identificação simbólica para recriar o mundo interior.
Os mitos são o alicerce flexível sobre o qual os cantos de cura se assentam. Cada canto tem um mito associado, que descreve sua origem e aventuras do herói ou heroína que buscam obter dos deuses aquele canto. Às vezes, as orações , os cânticos e as pinturas com areia, além da ação dos rituais, referem-se ao mito, mas não existem correspondências exclusiva. O mito não pode ser reconstituído a partir da cerimônia. Não é sequer exigido do xamã que ele conheça o mito do canto que dirige, embora deva conhecer detalhadamente tudo mais. É porém notável se ele dominar esse conhecimento.
Os rituais navajos organizam-se em torno do culto ao Sol. Em razão da idéia navajo de concepção, a crença de que está é devida a uma união da luz (calor) com a água (sêmem, umidade), o Sol como símbolo de luz, calor e quentura, domina de certa maneira todos os outros espíritos e deidades. Uma vez que todas as coisas aparecem aos pares - onde um domina e outro é dominado, um é mais forte e outro mais fraco - Mulher que Muda é o equilibrador do par. Seu poder talvez seja tão grande quanto o do Sol, mas qualitativamente diferente. Mulher que Muda (Istsá Natlehi) é o grande símbolo da terra com todas as suas variaçòes sazonais, o poder da mulher de renovar a vida, o amor materno. Ela parece ter uma boa vontade consistente para com a humanidade.
Assim, o Sol e a Mulher que
Muda formam o eixo central em torno do qual orbitam todos os
outros poderes e seres. São a fonte fundamental de saúde e
harmonia, têm o poder de fortalecer e rejuvenescer. De sua
união vieram os
Gêmeos Guerreiros, o Matador de Monstros (Naye Nezgáni) e o
Filho da Água
(Tobadsistsíni), que fazem árdua viagem para visitar seu Pai
Sol e ganhar dele o poder para derrotar os monstros e libertar o
povo (mitologia do Canto da Noite, que serve par libertar o
paciente de ataques obsessivos). Ele e seus pais, Mulher que Muda
e o Sol são a "Sagrada Família" da teologia navajo.
Mulher que Muda e o Sol ligam-se também cada qual a um ser
sobrenatural mais fraco, do mesmo sexo, que complementa ou amplia
sua natureza: a Lua (Kléhanoi) é o irmão mais fraco do sol, e
a Mulher Cocha Branca (Yolkáiestan) a irmã mais fraca de Mulher
que Muda. A Mulher Cocha Branca é um pouco mais dúbia e não
confiável do que sua irmã.
Está "Sagrada Família" foi um desenvolvimento posterior, dentro da história mítica dos navajos. Nos mundos inferiores dos mitos de origem, o Primeiro Homem e a Primeira Mulher eram os protagonistas e viviam as voltas com bruxarias e o mal. Coiote, Begochidi, o Deus Negro (ou Deus do Fogo), a Mulher Sal, os insetos e os outros animais estavam lá desde o princípio e tiveram papéis importantes na longa ascensão até a luz e a consciência.
Além das figuras universais, todo canto parece ter um mini-panteão próprio. O Canto da Chuva, de Pedra que Fala, do Povo Trovão, em que o Trovão Branco e o Trovão Negro são deidades de destaque.
O Canto da Grande Estrela (o meu favorito) introduz o Povo Estrela, para quem a Grande Estrela é o grande sábio. No Canto da Noite existem o povos sagrados especiais, geralmente chamados Yei, que na noite final são personificados pelos dançarinos que usam máscaras azuis e colares de sempre-vivas, e cantam numa voz de falsete, sinistra. Os Yei são conduzidos por Deus que Fala (Hastyéyalti), que é como um mentor severo para os heróis do canto, guiando-os e dirigindo-os em suas aventuras, e salvando-os de todo tipo de revés. Geralmente é identificado como o leste e os sol nascente. Seu grito Wu, hu hu hu é parecido com o chamado da manhã dos rituais Pueblo. Geralmente faz parte com Deus Lar como alguns preferem chamá-lo, que parece simbolizar a domesticidade, a paz, a fertilidade, e está associado com o oeste e o sol poente. Nesse sentido são ambos parte do complexo simbólico solar.
O mundo navajo é repleto de
divindades. Toda força natural, cada elemento
geográfico, toda planta, animal ou fenômeno meteorológico tem
seu poder
sobrenatural peculiar e pode ser representado por uma imagem
personificada
nas pinturas em areia.
E ainda existe Begochidi! Ele é diferente de todos os outros e encarna a essência do paradoxo. Por um lado é filho do Sol, associado à luz e ao fogo, é uma deidade solar, criador da vida, que teve "relação sexual com tudo que existe no mundo". Neste aspecto benigno, é o patrono dos animais domésticos e de uso: é para ele que se reza pedindo que o cavalo seja muito bom. É retratado como figura solar com cabelo louro ou ruivo, e olhos azuis. Por outro lado, porém, Begochidi é um grande malfeitor e jogador. Ele pode mudar, se o desejar, e assumir qualquer forma de arco-íris, areia, água ventos, insetos, etc. Desmoraliza os outros deuses, mudando-lhes nuvens de insetos para mordê-los sem piedade, até que concordem com suas exigências. Esgueira-se por trás das meninas e belisca-lhes os seios gritando "Bego, bego"(diz-se que seu nome significa Aquele que agarra os seios"). Quando um caçador está fazendo mira, ele agarra seus testículos e estraga o tiro. Faz a mesma coisa quando um homem e uma mulher estão tendo relação sexual.
Às vezes, Begochidi aparece
como uma minhoca ou inseto que rasteja no pó e
representa alguma coisa obscena. Favorece o sexo e a
procriação, mas também
é patrono dos travestis e veste-se como mulher. No mito do
Caminho da Traça,
Begochidi vivem com o Povo Borboleta como travesti. Está sempre
pondo suas
mãos nas virilhas dessas pessoas e dizendo "Bego,
bego". Ele não deixa que se casem enquanto estiver cuidando
delas. Um dia quando estava afastado, praticam incesto entre
irmãos como consequências desastrosas. Todos ficam
com a "loucura da traça" e se atiram ao fogo numa
investida enlouquecida e
precisam ser separados á força. Finalmente, é encontrada a
cura com uso de
medicamentos preparados à base de um litro de essência de
coiote, texugo,
raposa azul ou urso. Quando esse medicamento é ministrado, o
irmão e a irmã
sentam-se de costas um para o outro, e saem borboletas de suas
bocas que se
desvanecem no ar.
Quando se busca um paralelo
para a natureza de Begochidi, pensa-se logo em
Mercúrio, tão necessário ao trabalho dos alquimistas.
Mercúrio pode ser associado com o fogo, "o fogo universal e
cintilante da luz da natureza, que
contém em si o espírito celestial". Poderia ser uma
criatura também lasciva
e, eventualmente, foi representado em coabitação contínua. Num
texto Rosa
Cruz, sua natureza dual é demostrada primeiro na coabitação,
depois na fusão
ou mescla dos lados masculino e feminino, associado ao sol e a
lua. Como diz
Jung: "Ele é um demônio, um psicopompo redentor, e um
traquinas esquivo,
assim como reflexo de Deus na natureza física".
Assim, tanto Mercúrio como Begochidi combinam o mais baixo e o
mais elevado, o traquinas lascivo e a unidade mística com Deus,
a ligação do sol com a lua, uma sexualidade desvairada e a
transcedência sexual. As duas dimensões podem tanto ajudar como
impedir, dependendo de como foram abordadas.
Begochidi é um símbolo de
reconciliação que contém o bem e o mau, o alto e
o baixo, o puro e o impuro, o másculo e o afeminado, e, assim,
é um dos conceitos intuitivos mais audaciosos da filosofia
religiosa nativa americana, uma engenhosa tentativa de expressar
a natureza essencialmente paradoxal do homem, na imagem de um
Deus.