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Morte
Por Nuvem que Passa
A morte e a questão da morte é uma das questões que diferenciam o caminho do Xamanismo Guerreiro frente a outros caminhos. Não que apenas o Xamanismo guerreiro adote esta postura que vou comentar a seguir.
Vamos encontrar também nas Escolas ligadas ao Gurdjieffianismo, vamos encontrar nos ramos mais profundos do Esoterismo, do Cristianismo, do Taoismo e de outros posturas similares.
Em uma de suas entrevistas as mulheres do grupo do Novo Nagual colocam: "O primeiro passo para começar a se alinhar com o intento dos antigos xamãs é saber que vamos morrer" .
Colocam-se assim frontalmente contrários a onda da nova era e outras filosofias modernas onde somos considerados "imortais" , onde "morrer" é como "trocar de roupa" , "um mergulho num lago frio" e tal.
Para os(as) xamãs das linhagens guerreiras somos seres mortais, nascemos e estamos fadados a morrer num certo momento. A questão fundamental desta forma de encarar a realidade é que , como tudo mais no caminho do guerrreiro, temos que ter energia só prá começar a lidar com esta questão.
A consciência que recebemos ao nascer, para enriquecermos com o processo de estarmos vivos, será tomada de volta pela mesma força que a doou. Assim não é a toa que o Xamanismo Guerreiro é herdeiro de uma linhagem de magistas que ficaram conhecidos como "desafiantes da morte", homens e mulheres ousados (as) que desenvolveram as mais espantosas e muitas vezes aberrantes técnicas, para desafiar a morte.
A morte é a Conselheira do (a) Guerreiro (a).
Nossa mais estupenda conselheira.
Não há nada que purifique tanto nosso ser, que nos deixe tão no "prumo" como a consciência da morte em nossas vidas.
Quando comecei meu caminho estava envolvido com as clássicas idéias de muitas vidas, que era um ser imortal, um "espírito antigo" e tal. Comecei pela trilha espírita, frequentando espiritismo de mesa branca e mais tarde umbanda. Quando encontrei Oomoto ele primeiro se apresentou como mestre de artes marciais, logo já contei sobre "ter certeza de ter vidas como praticante de tais artes e tal". A cara de ironia que ele fez quando comecei meu discurso me chocou, fui ficando quieto. A tarde ele me levou para um pátio no sol quente e começou a checar o quanto eu "lembrava". Só com o "lado" da espada de madeira me deu uma "surra" das boas e mostrou que não bastava trazer "lembranças" meu corpo tinha que estar desperto e treinado, na sua forma atual.
Bom , aí começou uma fase de aprendizado onde fui aprendendo que a tal "doutrina consoladora" como se declarava o espiritismo era isso mesmo, consoladora, outra forma de "ópio" como tantas outras e era de fato muito interessante para quem buscava "consolo" mas a trilha da Liberdade não é um caminho de "consolo" ou algo assim , mas uma trilha das mais árduas que só como guerreiros (as) podemos trilhar. É bem interessante este aspecto.
Assim como os antigos videntes, em busca de "proteção e santuário" se tornaram prisioneiros do mundo dos seres inorgânicos, o que nos deixa até hoje presos a este risco tremendo de repetirmos tal entrega, tais doutrinas de "consolação" tem seu propósito para quem precisa de fantasias para suportar a vida, mas que nada tem a ver com quem busca a Liberdade.
Os reencarnacionistas tem bons argumentos em sua abordagem , existem pesquisas interessantes sobre casos que "" provam" a reencarnação.
Para tais casos existe porém outras linhas de explicação.
Quando começaram a me expor aos estudos do budhismo, o grupo com o qual estudei nos expôs a um estudo sistemático de cada sistema religioso, quando saímos do cristianismo , começamos com o budhismo e ao estudarmos o budhismo esotérico chegamos na inexistência de um "eu" , a chamada doutrina do ANATMA, isto é, a não existência de um "ATma" que passa de vida para vida.
Um árabe que nos ensinava sobre o eneagrama nos deu a explicação que provocou o insight da compreensão.
Contou-nos a história do tapete.
Um tapete existe na tenda do Sheik
Ele vive ali, tem suas experiências.
Então um dia volta prá tenda do tecelão onde é desmanchado.
Os fios que o compunham voltam para o grande depósito de fios.
Então outro tapete é encomendado e fios diversos são pegos para fazer o novo tapete, fios de diversas procedências.
Dos 1000 fios do novo tapete, 10 vem do tapete que existia na tenda do Sheik.
Por alguma razão esses fios são predominantes e em algum mometo começam a lembrar de sua "outra vida".
Bem, o tapete é novo, é um tapete singular, mas trás em si fios de vários tapetes.
Assim também somos nós, podemos fazer "regressões" e "lembrar" de momentos onde as fibras que nos compõe estiveram em "outros tapetes", mas a singularidade de nossas vidas, o ente perceptivo singular que somos começa no momento da concepção e enquanto totalidade acaba no momento de nossa morte, podendo acontecer de um conjunto de fibras mais fortes resistir por algum tempo como "espectro", gerando grande parte da fenomenologia abordada pelos espíritas.
ISto muda tudo, nenhuma religião esotérica trabalha com este conceito, nem a maior parte do esoterismo, que tem mesmo como "dogma" a imortalidade da alma, nossa singularidade e consequentemente a reencarnação.
Sei que isto choca profundamente a muitos que tentam se aproximar do Caminho do Guerreiro, pois é uma abordagem que nega valores muito caros ao nosso ego, que se alimenta das ilusões da continuidade.
A idéia da morte para um (a) guerreiro dá um novo sabor de desafio a tudo que fazemos. O fato de não termos tempo dá um novo sentido de urgência a vida e a tudo que fazemos.
É um tema vasto e complexo, a qualidade de resolução que temos desses temas leva a qualidade de nosso envolvimento com o caminho do guerreiro efetivamente.
Entretanto todos esses temas não podem ser apenas objeto de debates intelectuais, tem que ser frutos de vivência e meditação efetiva para que tenhamos posturas como consequências de tais observações.