Interpretações da

Bruxaria Européia

 

São correntes pelo menos quatro interpretações importantes da bruxaria européia. A primeira consiste no velho ponto de vista liberal de que a bruxaria, na realidade, nunca existiu, mas foi uma invenção monstruosa das autoridades eclesiástica a fim de consolidar seus poderes e aumentar seus fartos ganhos. Para essa escola, a história da bruxaria é um capítulo na história da repressão e da desumanidade.

A segunda tradiçãio é a folclórica ou tradição murrayista. Margaret Murray publicou seu livro Witch-Cult in Western Europe em 1921, numa época em que O Ramo Dourado de Sir James Frazer e suas idéias sobre fertilidade estavam dominando toda uma geração de escritores. Influenciada por Frazer e por sua própria formação como egiptologista, Murray argumentou que a bruxaria européia era uma antiga religião da fertilidade baseada no culto de Dianus, o deus chifrudo. Essa antiga religião, asseverou Murray, sobrevivera à Idade Média e chegara, pelo menos, aos começos do período moderno. Murray seria acolhida na literatura de ficção como Rose Lorimer em Anglo-Saxon Attitudes, de Angus Wilson; a Enciclopédia Britânica usou um artigo dela sobre a "bruxaria" durante décadas; e não foram poucos os historiadores e folcloristas que seguiram sua orientação. Na Alemanha, Anton Meyer argumentou uma variante que iria tornar-se muito popular entre as bruxas modernas: a opinião de Meyer era que essa antiga religião da fertilidade tinha dado maior ênfase à deusa terra do que ao deus chifrudo.

O moderno saber histórico rejeita a tese de Murrayn com todas as suas variantes. Os estudiosos foram longe demais em sua rejeição de Murray, porquanto muitos fragmentos da religião aparecem indubitavelmente na bruxaria medieval. Mas subsiste de que a tese de Murray, em seu todo, é insustentável. O argumento a favor da sobrevivência de qualquer culto coerente da fertilidade desde a Antigüidade, passando pela Idade Média, até ao presente está eivado de falácias:

 

  1.  
  2. Mesmo que essa religião heterogênea da fertilidade tivesse existido, as provas de sua sobrevivência são totalmente inadequadas. É certo que o paganismo não se extinguiu ao soar a primeira trombeta do cristianismo, e sobreviveu por mais tempo em algumas regiões - como a Escandinávia e a Rússia - do que em outras. Mas no século XII virtualmente toda a Europa estava convertida. Fragmentos e resíduos de crenças e práticas pagãs sobreviveram à conversão em todo o continente e persistiram através da Idade Média. Como observou Elliot Rose, "É evidente que muitas festividades populares... eram sobrevivências do paganismo; mas isso não é o mesmo que dizer que o paganismo sobreviveu." E "para todas aquelas [explicações] que Miss Murray apresentou, não há uma única para a qual não existia uma alternativa e uma melhor explicação dos fatos.
  3.  
  4. Só por volta de 1300, mil anos após a conversão de Constantino, apareceu uma substancial coleção de provas acerca da bruxaria, e essas provas evidenciam que a bruxaria não era uma religião da fertilidade, mas uma heresia cristã baseada no satanismo. Quer essa bruxaria diabólica realmente existisse ou não, quer tivesse sido ou não inventada pelos cristãos, a tese murrayista não se sustenta. Se existiam bruxas no período de 1300-1700, todas as provas as mostram como diabolistas heréticas e não como pagãs. Se, por outro lado, os liberais estão certos e a bruxaria não era uma invenção, então não existia de forma nenhuma. Em qualquer dos casos, a sobrevivência de uma "antiga religião" está fora de cogitação.
  5.  
  6. Existem dois imensos hiatos de tempo nas provas. O primeiro é o que vai da conversão até o início da caça às bruxas; o segundo estende-se do final da caça às bruxas até a publicação de Aradia, de Leland, no fim do século XIX (ver. p.167). Entre as últimas décadas do século XVIII e as primeiras do século XIX não havia prova alguma sobre a existência de bruxaria. Algumas práticas pagãs isoladas, sim. Feitiçaria, sim. Mas nada de bruxaria como satanismo nem de bruxaria como "a antiga religião". Que essa "antiga religião" persistisse secretametne, sem deixar qualquer evidência, era uma possibilidade, sem dúvida, tal como é possível que abaixo da superfície da Lua existam extensas jazidas de queijo Roquefort. Tudo é possível. Mas é rematada tolice afirmar a existência de alguma coisa para a qual não existem provas evidêntes. Os murrayistas pedem-nos para engolir um sanduíche deveras peculiar: um grande pedaço de evidência errada entre duas fatias de evidência nenhuma.

Uma terceira escola, atualmente a que exerce maior influência, enfatiza a história social da bruxaria, sobretudo o padrão social de acusações de bruxaria. Esses historiadores admitem, de um modo geral, que a bruxaria (em contraste com a feitiçaria) nunca existiu realmente, residindo a sua diferença em relação aos liberais obsoletos no fato de atribuírem a crença na bruxaria não às imposturas de uma Igreja perversa, mas a uma superstição geral muito difundida. Um quatro grupo de historiadores enfatiza a história de idéias e argumenta que a bruxaria é uma combinação de conceitos gradualmente reunidos ao longo dos séculos. Desses, a heresia e a teologia cristãs são mais importantes do que o paganismo. Ambos os grupos ignoraram ou rechaçaram a bruxaria moderna. Este livro leva em conta a bruxaria história e a bruxaria moderna, mas trata-as como fenômenos separados, sem qualquer conexão histórica entre eles.

 

Fonte: História da Feitiçaria, de Jeffrey Burton Russell, Editora Campus, Série Somma.