A Deusa Sem

Intermediários 2

 

 

Por Herne, the Hunter

 

A grosso modo, poderíamos separar as religiões modernas em duas grandes linhas de pensamento: as NATURAIS e as REVELADAS.

As Religiões Naturais - também chamadas de Religiões de Comunhão - tem raízes na idéia de que o mundo é um grande organismo vivo de que todos os seres fazem parte e tem dentro de si o seu reflexo; o ser humano, inclusive. As cerimônias religiosas comemoram os eventos mais importantes do ciclo das estações e simbolizam a ligação (comunhão) da pessoa com todos os outros seres, em particular aqueles que morreram para que ele vivesse (animais, vegetais e outros humanos). Isso traz um grande respeito pela natureza e uma ligação emocional e intuitiva com ela. Talvez a grande característica dessas religiões seja a percepção do tempo como CÍCLICO, ou seja, que se repete anualmente conforme os eventos marcantes da sucessão das estações. Esse "tempo circular" determina uma atitude de respeito e cooperação. A pessoa se sente corresponsável pelo retorno desse ciclo: além de cuidar da natureza, dos animais e vegetais o máximo que puder, participa magicamente da ação, digamos, "retendora" dos deuses ao realizar, de todo coração, os ritos religiosos das festas sazonais. O indivíduo se sente corresponsável pelo retorno. Por isso, cada um se percebe centrado em seu lugar no espaço e no tempo, com o futuro à frente, o passado às costas, o presente aos lados, as raízes sob os pés e os deuses sobre a cabeça.

Já as Religiões Reveladas - ou seja, as Religiões de Salvação - foram codificadas por indivíduos determinados, o que lhes confere um forte traço de ensinamento pessoal (por isso são chamadas de "reveladas", pois Deus a teria revelado a um único "mestre"). Ora, sendo uma experiência pessoal, sua meta não é a harmonia coletiva, mas a salvação individual. Nesse caso, a pessoa se vê totalmente desvinculada, acima e sem qualquer responsabilidade em relação à natureza, posto que baseiam nos ensinamentos de uma figura histórica. Isso desfaz o "círculo do tempo", transformando-o numa linha reta: a vida é encarada como uma longa estrada, pela qual corremos sem parar, sem que nunca possamos rever o poste, a árvore ou a casa que ficaram para trás. Essa visão nos prente no presente, suspensos entre um passado e um futuro irreais e sem relação entre si. E os motivos filosóficos para tudo isso é fácil de se entender: nas religiões de salvação, a divindade não é uma encarnação da força vital, que faz tudo REnascer, mas ALGUÉM que nasceu, viveu e morreu uma única vez, com a finalidade exclusiva de salvar a humanidade (e não todos os seres da natureza). O máximo que o crente pode fazer é correr atrás de seu Redentor e tentar alcançá-lo em algum ponto distante, fora do espaço e do tempo. Perde-se, assim, a esperança do retorno e do renascimento. Portanto, a Bruxaria e todas as expressões do Paganismo dispensam solenemente um "salvador". A necessidade de um salvador é típica daquela outra forma de religião.