Gnosis

 

ou A Busca pelo Conhecimento

como caminho de Evolução no

Cristianismo e no Paganismo

 

 

Por Cláudio Crow Quintino

 

Existe um livro muito interesante, chamado "The Gnostic Gospels" da renomada pesquisadora Elaine Pagels (lançado no Brasil como "Os Evangelhos Gnósticos" pela editora Pensamento). Esse livro, que aparentemente nada tem a ver com o Paganismo, lança um pouco de luz sobre os famosos manuscritos de Nag Hammadi, encontrados por acaso na década de 1940 numa aldeia (Nag Hammadi) egípcia. Os textos neles contidos, todos datando dos primeiros anos da era cristã, foram um duro baque ao cristianismo mais ortodoxo, pois provam que o cristianismo inicial era muito mais voltado à revelação e iluminação pessoal do que se pode supor.

Ao terminar de lê-lo, pus-me a comparar o movimento Neo-pagão com o incício do cristianismo, tão brilhantemente retratado pela autora em sua obra. Ao contrário do que se pode imaginar a princípio, os paralelos entre os dois movimentos são muitos. Ambos apresentavam uma nova visão do mundo, do cosmo e da Deidade. Ambos surgiram (como todos os movimentos) como fruto das circunstâncias sociais, políticas e culturais então vigentes em seus respectivos cenários. E o Neo-Paganismo está vivendo um delicado momento pelo qual o cristianismo já passou, naquela mesma época. Para o cristianismo primitivo, a bifurcação de Caminhos levou ao cisma, que levou aos ataques. Estes, por sua vez, levaram à supressão, pura e simples – e por vezes violenta – dos menos numerosos e menos organizados.

Infelizmente, esses menos numerosos e menos organizados possuíam uma abordagem bem interessante: afirmavam que todas as doutrinas, especulações e mitos, inclusive os deles próprios, nada mais eram do que abordagens que levavam à verdade – e não a verdade em si.

O intuito deste artigo, é bom que se diga, não é defender ou atacar gnósticos ou ortodoxos, tomar partido por um ou por outro grupo – até porque, independente do modo como professavam sua fé, ambos eram cristãos, e ambos possuem os mesmos elementos que, para nós, pagãos, são condenáveis (ou no mínimo incoerentes), como a negação da matéria, por exemplo.

Assim, fica mais fácil compreender que minha real intenção ao escrever este texto é o de comparar os dois movimentos (Cristianismo e Neo-Pagansimo) para que possamos, friamente, perceber o que correu de errado entre os cristãos e evitar que o mesmo aconteça conosco, pagãos.

Ao contrário do que pensamos (ou do que querem que acreditemos), o cristianismo, em seus primeiros anos, estava longe de ser uma filosofia monolítica, de práticas comuns e ideário homogêneo. Na verdade, o que ocorria era justamente o oposto: diversas seitas, com idéias diferentes, interpretações diferentes, práticas diferentes. Podemos, grosso modo, agrupar essas seitas em duas correntes principais: os ortodoxos (que não são a atual igreja ortodoxa), com sua doutrina de obediência aos textos e interpretação fiel dos mesmos, e os gnósticos, mais voltados para a evolução num nível mais pessoal, interno, místico.

Existem registros das múltiplas acusações de ambos os lados, com os gnósticos sendo acusados de rebeldes e de praticarem distorções das Escrituras, enquanto que os ortodoxos eram vistos pelos gnósticos como obtusos e seguidores da "doutrina de um homem morto".

(Todas as citações em itálicos foram retiradas do livro "The Gnostic Gospels"; aqui, o texto está traduzido pelo próprio autor do artigo.)

A história é conhecida de todos: os ortodoxos, melhor organizados graças ao seu sistema hierárquico e aos textos padronizados, espalharam-se por grande parte do mundo conhecido, através da fundação de "ekklesias" comandadas pelos seus bispos (do grego "episkopos", "aquele que vê do alto, ou seja, o "supervisor"). Era justamente a função dos episkopos a supervisão de sua "ekklesia," certificando-se que os ensinamentos e os textos eram transmitidos sempre da mesma forma, banindo qualquer outra interpretação que não a oficial.

O tema em questão pode ser o cristianismo, mas essa divisão de correntes de pensamento se assemelha em muito ao momento que o Movimento Neo-pagão brasileiro atravessa. Podemos nos valer das experiências erradas do cristianismo para evitar que incorramos no mesmo erro. Afinal, o cristianismo tornou-se essa aberração espiritual que conhecemos, com seu passado sanguinário e intolerante e seu histórico de mortes, torturas e cassações, justamente porque as idéias que prevaleceram foram as do grupo mais ortodoxo.

Sobre esse grupo, os gnósticos diziam (Apocalipse de Pedro):

  • "Alguns deles, que não compreendem os mistérios, falam de coisas que não entendem, mas afirmam que o mistério da verdade pertence somente a eles".
  • Além disso, os gnósticos acusam os ortodoxos, por sua obediência aos bispos, de

  • "curvarem-se ao julgamento de líderes," os quais oprimem seus semelhantes e maldizem aqueles que atingiram a Gnosis (Conhecimento).
  • Muito interessante perceber que o mesmo fenômeno, há algum tempo, vem ocorrendo no paganismo brasileiro... mudem-se os nomes e a descrição é perfeitamente aplicável.

    Poderíamos então dizer que o Movimento Neo-Pagão Brasileiro se divide em duas correntes, uma ortodoxa e outra, digamos, "gnóstica"?

    De certa forma, sim. Existem aqueles que, como os ortodoxos, atêm-se ao que já foi escrito, aos livros e idéias pré-concebidas; e existem aqueles que, como os gnósticos, buscam por si a evolução, acreditando que essa evolução advém do conhecimento (Gnosis) e não da experiência transmitida pelo sacerdote – o bispo.

    Vamos prosseguir em nossa comparação, transcrevendo mais um trecho do livro "The Gnostic Gospels":

  • "Como poderia um fiel diferenciar os verdadeiros cristãos dos falsos? Os Ortodoxos e os Gnósticos ofereciam respostas diferentes, pois cada grupo tentava definir a igreja de maneiras que excluíssem o outro. Os Gnósticos, afirmando representar somente "os poucos", davam preferência a critérios qualitativos. Protestando contra a maioria, eles insistiam que o Batismo não fazia de alguém um cristão: de acordo com o Evangelho de Felipe, muitas pessoas são mergulhadas na água e dela saem sem Ter recebido qualquer coisa." Mesmo assim, essas pessoas se diziam cristãs."
  • Troque-se o vocábulo "Batismo" por "Iniciação" e temos um comentário perfeitamente aplicável ao Paganismo...

    A Sra. Pagels prossegue em sua análise:

  • "Acima de tudo, eles (os gnósticos) se recusavam a identificar a Igreja (ideologicamente, n. do A.) com a comunidade real, visível, que, eles alertavam, geralmente apenas imitava a Igreja. Na verdade, citando um ditado de Jesus, ("por seus frutos você os reconhecerá"), eles exigiam provas de maturidade espiritual para demonstrar que uma certa pessoa pertencia à verdadeira Igreja."
  • Ou seja, a igreja não era o prédio, o livro, as pessoas. Para os gnósticos, a igreja era algo que estava em cada um de seus seguidores; era algo a ser atingido, através da vivência e da Gnosis. Percebe-se então que o que eles atacavam não era o Batismo em si, mas sim a superficialidade do processo, que por si só não é capaz de conferir essa "maturidade espiritual".

    Transferindo-se para a realidade do paganismo, o ponto é: não é a celebração dos rituais, por mais belos e honestos que sejam, que fará de alguém um bruxo ou Pagão. Costumo dizer que a verdadeira iniciação não tem nada a ver com uma cerimônia. A Iniciação é, na verdade, um processo lento, gradativo, que implica em profundas transformações internas, tanto espirituais como mentais (e, em última análise, também físicas). Assim como o Batismo não faz um "bom" cristão (afinal, eu um dia fui batizado... à revelia!), também a iniciação não necessariamente faz um bom pagão...

    Voltando a "The Gnostic Gospels", vamos em frente:

  • "Os ortodoxos, ao final do século II, já começavam a estabelecer critérios objetivos que determinassem a adesão à igreja. Quem quer que confessasse sua crença, aceitasse o ritual de batismo, participasse dos cultos e obedecesse ao clero era aceito como um companheiro cristão. Buscando unificar as diversas igrejas espalhadas pelo mundo numa rede unificada, os bispos eliminaram os critérios qualitativos para a admissão à igreja. A avaliação individual dos candidatos com base na maturidade espiritual, insight ou santidade pessoal, como feita pelos gnósticos, exigiria uma aministração muito mais complexa."
  • Em nome da quantidade, então, abriu-se mão da qualidade.

     

  • "Para se tornar verdadeiramente católico – universal – a igreja rejeitou todas as formas de elitismo, procurando incluir o maior número possível em seu abraço. Com isso, seus líderes criaram um formato claro e simples, consistindo de doutrinas, rituais e estrutura política, o qual provou ser um sistema organizacional incrivelmente eficiente."
  • Prova de que é muito simples conseguir quantidade. O mesmo não se pode dizer da qualidade.

  • "Assim, o ortodoxo Inácio, bispo de Antióquia, define a igreja pela visão do bispo, o qual representa esse sistema:
  • " Que a ninguém seja permitido fazer qualquer coisa relacionada à igreja sem o bispo. Que seja considerada válida a eucaristia celebrada pelo bispo, ou pela pessoa por ele apontada... A quem quer que o bispo ofereça (a eucaristia), que a congregação esteja presente, pois onde quer que Jesus Cristo esteja, lá estará a igreja católica."
  • "Para evitar que qualquer "herege" afirme que Cristo estará presente mesmo quando o bispo está ausente, Inácio complementa:

  • "Não é legítimo celebrar um batismo ou uma agapé (refeição ritual) sem o bispo... juntar-se ao bispo é juntar-se à igreja. Separar-se do bispo é não só separar-se da igreja, mas separar-se do próprio Deus."
  • Quanta intolerância, quanta arbitrariedade, esses ortodoxos demonstram! O interessante é que tudo o que eles afirmam é contraditório, pois se o Deus cristão está em todas as coisas, como ele se ausenta quando o bispo se ausenta? Vou além: se Deus só segue o bispo, quem fica no controle quando o bispo não está por perto?

    Voltemos ao livro, com um pouco mais de intolerância, desta vez por parte do incrivelmente influente Tertuliano, que afirmava que "somente a sua igreja possuía a regra apostólica da fé," através da reverência às Escrituras. Além disso, ainda segundo Tertuliano, a hierarquia eclesiástica devia ser respeitada quando outros bispos fossem sancionados. Ele acusava os "hereges" gnósticos quebrar todas essas "regras básicas"... além disso, Tertuliano reclamava que os gnósticos "recusavam-se a simplesmente aceitar e acreditar nas regras da fé, como os outros fazem," acrescentando que eles instigavam entre si o questionamento dos textos, originando questões teológicas que, segundo os gnósticos, em última análise levariam à iluminação. Para Tertuliano, "esse questionamento leva à heresia."

    E para o Movimento Neo-Pagão? Será que questionar leva a uma não aceitação dos fatos? Será que a verdade de uma pessoa é também válida para outra? Creio que não. Como costumo dizer,

    "questionar não é duvidar; questionar é querer saber mais."

    Essa idéia fica muito clara na seguinte frase tirada de "The Gnostic Gospels":

  • "Os Gnósticos compreendem a mensagem de Cristo não como um conjunto de respostas, mas como um incentivo para que se inicie um processo de busca: "procure e questione sobre os caminhos que deves seguir, pois não há nada melhor do que isso.""
  • Em outras palavras, tudo o que os gnósticos diziam era que a busca, as respostas, o Caminho – tudo deve ser individual. Por isso eles se recusavam com tal tenacidade a aceitar a imposição de hierarquias, bispos e igrejas. Para eles, cada indivíduo é o único responsável por sua evolução.

    Uma visão bem diferente da exposta por Teódoto, que dizia que

  • "... a igreja era a raça escolhida, os que foram escolhidos andes da criação do mundo"
  • Muita presunção, não é mesmo? Como eles poderiam dizer isso, se o seu deus era justamente o mesmo dos judeus? Principalmente se levarmos em conta que esse mesmo deus já havia celebrado um pacto com os judeus três mil anos antes do nascimento de Cristo...

    Isso mostra o quanto afirmações irracionais e sem fundamento histórico (e porque não moral) podem ser aceites pelos menos esclarecidos. A pergunta que fica é: como teria sido o mundo cristão se os gnósticos e suas idéias iluminadoras tivessem prevalecido? Pouco nos importa agora.

    Mas essa pergunta nos remete a outra, esta sim muito mais próxima de nossa realidade:

    Como vamos formar nosso mundo Pagão? Que abordagem vamos adotar na construção e manutenção de nosso ideal: a "ortodoxa", cega, surda e muda, tolerante e submissa aos ditames dos "bispos"? Ou a "gnóstica", estimulante, questionadora, individual, libertária?

    Talvez o Movimento Neo-pagão no Brasil (bem como em outros locais) careça de um pouco de questionamento. Está na hora de cada um de nós, baseado no conhecimento obtido, levantar seus próprios questionamentos,

    Para finalizar, mais uma frase de Inácio de Antióquia:

  • "Fora da hierarquia da igreja, não há nada que possa ser chamado de igreja."
  • Familiar?