A Tradição

Gardneriana

 

 

Por Sine of Silver Star

Tradução por Quíron

 

História

A nossa tradição tirou o seu nome de Gerald B. Gardner (1884-1964), um funcionário público inglês, que estudou magia e muitas outras coisas através da sua longa vida. Ele conheceu e trabalhou com muitos ocultistas famosos e o maior deles foi Aleister Crowley (1875-1947). Gardner concordava com a premissa formulada por Margaret Murray (1865-1965) de que o que se considerava magia popular na Grã-Bretanha e na Europa Celta era na verdade as reminiscências da religião pré-Romana e possivelmente pré-céltica. Ele provavelmente foi encorajado e possivelmente inspirado pela publicação do trabalho Charles G. Leland, que declarava sobrevivências similares em Toscana e na cultura romana. Certas práticas tradicionais sobreviveram na família de Gardner e ele achou outros que haviam preservado sobrevivências similares e que compartilhavam das suas crenças na antigüidade deste conhecimento.

Provavelmente tendo baseado a estrutura do seu trabalho no que ele havia aprendido em várias lojas mágicas, Gardner dedicou-se a reinventar aquela religião antiga e ancestral. Ele tinha pouco com o que trabalhar; ele mesmo teve que escrever boa parte desta religião. Ele se apropriou do trabalho de outros artistas, notavelmente Aleister Crowley e Rudyard Kipling, Poeta Laureado da Rainha Vitória. A Alta Sacerdotisa de Gardner, Doreen Valiente (1922-2000) escreveu muito da poesia mais conhecida, incluindo o sempre mencionado Chamado da Deusa.

O grupo principal cresceu lentamente e em segredo absoluto; a bruxaria era ilegal na Inglaterra naquele tempo. Quando o Ato Contra a Bruxaria foi substituído, em 1951, pelo Ato Contra Médiuns Fraudulentos, Gerald Gardner foi à público. O resto é história.

O Neopaganismo repentinamente explodiu na cena mundial, primeiramente na Grã-Bretanha, mas logo se espalhou por todo o mundo ocidental de língua inglesa e além dele. Raymond Buckland ganhou os créditos por trazer a Arte Gardneriana para a América do Norte. Alguns grupos que surgiram eram gardnerianos, outros eram filhos desta tradição, outros eram grupos diferentes inspirados pelo trabalho de Gardner ou no seu exemplo. Alguns outros grupos não eram de forma alguma gardnerianos. Isso não importa.

Se houvesse apenas Um Caminho Verdadeiro, este Caminho seria tão evidente que nós iríamos compreendê-lo desde o nosso nascimento e não teríamos ciência dele, da mesma forma que os peixes não têm ciência da água. A enorme multiplicidade e variedades de caminhos mostram quão rica a imaginação humana pode ser. O conceito de Busca é tão universal porque cada um de nós deseja achar o caminho para a Verdade que é o nosso direito. Para alguns, esta busca dura a vida inteira; outros nascem já no lugar a que pertencem... alguns exploram outros caminhos e então voltam para casa. Alguns acham o seu caminho e o iluminam para ajudar outros a achá-lo.

 

Crenças Principais

Nossas crenças principais incluem equilíbrio, dualidade e parceria igualitária entre a Deusa e o Deus. Nós reconhecemos a realidade da Vida e da Morte como ciclos necessários: para que a Vida perdure, deve haver a Morte. É a natureza física dos seres humanos cooperar e competir, amar e odiar, matar e alimentar. Equilíbrio é o objetivo. O Conselho Wiccano é um princípio guia, não uma regra rígida. O coven é a base de toda a organização gardneriana; o coven é a nossa família, a Alta Sacerdotisa e o Alto Sacerdote são os primeiros entre iguais. Nós preservamos o trabalho original de Gerald & Doreen, encorajando a expansão do mesmo e nossa criatividade, desde que as raízes da tradição sejam preservadas e que o legado que deixarmos seja identificado como tal. O Ritual é importante, mas a irmandade é ainda mais; nós praticamos a magia do gênero, ao invés da magia sexual; tudo na Tradição Gardneriana é combinado para haver a união entre masculino e feminino.

 

Organização dos Grupos

Os covens gardnerianos são autônomos. Cada coven tem a sua própria personalidade e uma pessoa que seja um buscador honesto pode não se adequar ao grupo A, mas pode ser entusiasticamente bem recebido no grupo B. Por ser o coven uma família, o processo de encontros preliminares e da votação de Elders sobre o convite para uma pessoa se iniciar é mais um forma de se fazer a corte do que um processo de filtragem. A consumação da corte é a iniciação; este é o acordo feito pelo postulante e pelo coven de que eles querem tornar esta relação permanente. Este é um relacionamento permanente, portanto, tenha certeza do que está fazendo! Por causa disso, a iniciação não é oferecida sem um bom motivo. A um buscador honesto que se percebe não combinar com a iniciação gardneriana pode-se mostrar outros caminhos, para que ele possa se conduzir a mais pesquisas.

 

O Papel do Sacerdócio

Cada wiccano gardneriano iniciado é um(a) sacerdote ou sacerdotisa, com acesso direto, pessoal e cara-a-cara com os deuses. Não há intermediários. Não há laicidade na Wicca Gardneriana. O resultado óbvio é o de não há "pastores". O que chega mais próximo deste papel (orientador, confidente, conselheiro etc) é a Alta Sacerdotisa e o Alto Sacerdote. Gardnerianos relacionam-se com a Alta Sacerdotisa e com o Alto Sacerdote primeiramente como iguais, bem como, em um certo sentido, como se eles fossem Mamãe e Papai. Eles não precisam ser mais velhos, mas são quase sempre mais experientes na Arte e se um covener vir a eles com um problema com o qual eles não podem lidar é a sua responsabilidade ajudar o covener a encontrar uma cominho para solucionar o problema, magicamente ou mundanamente. Mas por causa do alta valor que nós damos à irmandade e à coesão interna do coven como sendo uma família, qualquer membro do grupo pode se voltar a qualquer outro membro e ser o seu conselheiro.

Gardnerianismo é o caminho que declara que apenas uma bruxa pode fazer outra bruxa; nós acreditamos que isto é verdade para aqueles do nosso caminho: apenas um gardneriano pode fazer outro gardneriano. Nós acreditamos na transmissão física de poder, a qual é uma das razões de porque nós mantemos registros das nossas linhagens: nós lembramos de onde veio o poder. Parte da igualdade dos sexos na Wicca Gardneriana está no fato de que uma mulher é iniciada por um homem e um homem é iniciado por uma mulher.

 

Festivais

Esbats nas luas cheias, às vezes nas luas novas e em qualquer outro período que o coven queria ou precise se encontrar. Os Sabbats são os Oito Pontos da Roda:

Uma vez que os covens se ajustam às necessidades dos seus membros, os encontros podem eventualmente ser realizados nos fim-de-semana mais próximo, ao invés de serem rígidos em relação à data exata.

Como você pode ver nos nomes que usamos para os Sabbats, a Wicca Gardneriana é uma colcha de retalhos feita de informações de várias tradições e culturas. Os nomes que nós usamos para o Deus e para a Deusa também podem às vezes variar de coven para coven, algumas vezes dentro de um mesmo coven, de círculo para círculo.

 

Padrões de Conduta

Os quatro pilares da força de uma bruxa são o poder de ousar (coragem), o poder de querer (determinação), o poder de saber (disposição para aprender) e o poder para se manter em silêncio (uma compreensão de privacidade e respeito em relação aos outros). O mais importante, se eles puderem ser graduados de alguma forma, é o último: as bruxas devem respeitar o direito de outras pessoas em escolher a sua própria fé se nós quisermos que façam o mesmo conosco. Não é apropriado que uma bruxa faça alarde da sua consumação ou que se gabe da sua filiação ao coven. Não é NUNCA apropriado revelar a filiação de outra pessoa sem a sua permissão: você não sabe que desdobramentos isso poderia causar na vida desta pessoa. Já houve pessoas que perderam os seus empregos, casas e a custódia dos seus filhos como resultado de serem excluídos por isso.

A palavra de uma bruxa é mágica... e o seu uso descuidado enfraquece o seu poder, diluindo-o. Nunca prometa o que você não pode cumprir, diga a verdade ou recuse-se a falar. Cada palavra que você diz é uma palavra mágica, parte do Ato Mágico de Viver. Se as suas palavras são descuidadas ou impensadas, a sua magia também o será, pois o que é um feitiço senão palavras com a sua intenção por trás delas?

Nós não acreditamos é em pecado; nós acreditamos em karma. Nós lidamos com isso através do Conselho Wiccano. O Conselho é tão simples que quase se pode considerá-lo como um koan zen, mas é muito fácil de entender. "Faça o que quiser, mas sem causar dano."

Isto soa simples, não soa? Mas não é simples. Na sua superfície, a instrução mais superficial é simplesmente aquela de que uma pessoa deveria considerar as suas ações na perspectiva de quem poderia ser prejudicado por elas e então modificar o seu comportamento para minimizar o prejuízo infligido. Minimizar não significa eliminar. Não há como alguém ou alguma coisa possa viver sem prejudicar outra pessoa ou outra coisa. O Conselho recomenda minimizar o prejuízo que uma pessoa acarreta e fortemente implica em limpar o seu coração para que o seu intento não cause prejuízo. Isto não requer que você seja um vegetariano para parar de ferir animais; não requer que você jogue fora o seu mata-moscas para evitar ferir os insetos. Requer, isso sim, que você pense a respeito, por exemplo, da sua magia sobre o tempo: se você trabalhar para manter a chuva longe de um local de celebração, você pode estar prejudicando a colheita e, conseqüentemente, o sustento de fazendeiros que vivem nas redondezas. Se chamar pela chuva, você pode fazê-lo em algum lugar que precisa dela, ou pode intimar uma tempestade de granizo ou um tornado que destrua propriedades ou até mesmo mate.

Você cometerá erros. Um dos versos que Gerald Gardner emprestou de Aleister Crowley para o seu Livro das Sombras foi "Mantenha puro o seu mais alto ideal; aspire sempre a ele." Quando isto for considerado em conjunto com o Conselho, a pessoa perceberá que, sendo seres humanos, não há como possamos ter sucesso em "não causar dano." Nós podemos apenas aspirar àquele ideal. A palavra "rede" tem mil anos de idade; em saxão, significa "conselho." Isto é tudo o que o Conselho Wiccano é: um CONSELHO, não um mandamento.

Sempre que uma pessoa tem que lidar com uma escolha significante, deve considerar quem quer que possa ser prejudicado pelas suas ações. Isto inclui a si mesmo. Pode-se usar o Conselho para ajudar a si mesmo a parar de fumar. Pode-se usar o Conselho para exigir que alguém se torne um motorista melhor e mais cuidadoso, para minimizar o risco de acidentes. Um seguidor do Conselho irá minimizar a sua participação em fofocas e boatos, pois estas são coisas que inevitavelmente resultam em dano. Este seguidor irá fazer reciclagem e minimizar o uso de fontes não-renováveis, para minimizar o dano infligido ao planeta.

O Conselho é o nosso contrapeso para a entropia. A entropia procura destruir tudo, da moral à matéria, reduzindo-as a pó. Quando seguimos o Conselho, aspiramos contra a dissolução, mantendo o mais puro que pudermos o intento que é o todo o motivo de se ter uma religião: cinzelar a nós mesmo em seres que são de uma substância e espécie mais pertos da perfeição, tornando-nos imunes à entropia, pois o único caminho para a Vida Eterna é sobreviver à Morte Entrópica do Universo e até o próximo Big Bang. Não parece razoável que seres físicos possam ser capazes de fazer isso. Então nós aspiramos transformar a nós mesmo para nos tornarmos como os Deuses.

 

Formas de Culto

"Todos os atos de amor e prazer não meus rituais." Certamente, os sabás e esbás são muito importantes; os trabalhos em grupo são o que ajudam a forma uma mente-grupo tornam o coven um todo coeso. Um dos mais importantes pontos da prática gardneriana é o fato de que o culto se dá vestido-de-céu. Isto significa que tudo o que as pessoas vestem no círculo são as suas jóias.

Há grupos (eu espero que eles não se digam gardnerianos!) que usam isso como uma desculpara para limitar os seus membros a pessoas jovens e atraentes. Isto absolutamente não é apropriado ou aceitável dentro da prática gardneriana. Se uma pessoa é um tanto tímida, deve-se lembrar de que há uma razão pela qual a luz de velas é considerada "romântica" – ela faz uma pessoa se brilhar, mas não ilumina os seus defeitos. E, além do mais, nenhum de nós é perfeito. Nós ficamos nus em nossos ritos porque as roupas de uma pessoa ancora a sua mente em assuntos mundanos. A prática de se vestir de céu funciona da mesma forma que o conceito de robes: ajudar a mente a trocar de marcha, pondo a sua consciência no local mágico da onde o poder flui.

Outro motivo pelo qual a prática de se vestir de céu é uma parte necessária da prática gardneriana é a de que estando reunidos todos nus ajuda a encorajar a intimidade emocional entre os coveners. Qualquer pessoa que já tenha estado dentro de um círculo com doze pessoas sabe que não se pode tocar uns aos outros. Nada disso é sexual, mas sim de uma intimidade intensa. O coven precisa desta conexão entre os membros para funcionar como se todos estivem costurados uns aos outros.

A Wicca Gardneriana é uma religião de mistérios com votos de segredo, então eu não contar a você o que exatamente nós fazemos. Mas nós invocamos os poderes dos elementos, traçamos o nosso círculo com terra e ar, fogo e água, nos purificamos e em geral tornamos o local sagrado e também a nós mesmos. Então nós celebramos o sabbat, ou fazemos um trabalho mágico para satisfazer as nossas necessidades e algumas vezes fazemos ambas as coisas. Nós nos "aterramos", nós celebramos o rito de bolos e vinho, nós fechamos o círculo, tornando o espaço mundano novamente.

A herança do Paganismo, nos últimos mil anos, é a de uma religião fugitiva; pois os nossos ancestrais tiveram que esconder o que eles faziam e quem eles eram. Eles não podiam construir igrejas e não podiam construir nenhum tipo de espaço sagrado permanente sem o risco de perseguição. Então, uma boa parte do nosso ritual é planejado para criar um templo saudável a cada vez que nos encontramos. Pela mesma razão, a segurança dos membros, quando o círculo é liberado não há nenhum sinal deixado de que ele alguma vez existiu, em qualquer plano que seja. Você purifica o plano astral, você recolhe tudo do chão. Não mais do que um gramado pisado ou terra batida, talvez uma vela derretida no tapete ou um cheiro suave de incenso na sala, deveria ser deixado para trás, exceto pelo amor em seu coração e a irmandade daqueles que estiveram com você.

 

Leituras

Gerald B. Gardner, Doreen Valiente, Raymond Buckland, Charles Godfrey Leland, Margaret Murray, Triumph of the Moon de Ronald Hutton’s. Abençoado seja!

Sobre a autora: Sine é uma sacerdotisa gardneriana de terceiro graus, iniciada 16 anos atrás e uma Anciã no coven Silver Star. Ela trabalha no departamento de serviços sociais do seu município e é uma wiccana abertamente no trabalho. Ela tem servido de consultora a respeito de religiões ocultas e minoritárias para a polícia local e para os serviços sociais. Ela tem 44 anos de idade, vive na zona oeste do estado de Nova York em três acres de terra com coiotes, perus selvagens e cervos competindo pela sua atenção.