A Arte

da Espreita

 

 

"- Diga-me agora, qual é a arte de espreitar?

- O Nagual era um espreitador - disse ela, e olhou para mim .

- Você deve saber disso. Ele lhe ensinou a espreitar desde o início.

Ocorreu-me que aquilo a que ela se referia era o que D. Juan chamava de caçador. Certamente ele me ensinara a ser caçar e a fazer armadilhas. Porém, o uso que ele fazia do termo espreitador era mais preciso.

- Um caçador apenas caça - disse ela.

- Um espreitador espreita qualquer coisa, inclusive a si mesmo .

- Como é que ele faz isso?

- Um espreitador impecável pode transformar qualquer coisa em presa. O Nagual me disse que podemos espreitar até as nossas próprias fraquezas.

- Parei de escrever e procurei lembrar-me se D. Juan algum dia me apresentara uma possibilidade tão nova : espreitar as minhas fraquezas . Não me recordava que ele jamais tivesse dito a coisa nesses termos.

- Como é que podemos espreitar nossas fraquezas, Gorda?

- Do mesmo modo que você espreita a caça . Você estuda seus hábitos até conhecer todos os atos de suas fraquezas e depois salta sobre elas e as pega como coelhos dentro de uma gaiola.

Dom Juan me ensinara a mesma coisa sobre os hábitos, mas no sentido de um princípio geral de que os caçadores devem ter consciência . Porém a compreensão e a aplicação que ela tinha daquilo eram mais pragmáticas do que as minhas.

Dom Juan dissera que qualquer hábito era, em essência , um "ato" e que um "ato" precisava de todas as partes, um ato se desmoronava. Por ato ele queria dizer qualquer série coerente e significativa de ações. Em outras palavras, um hábito precisava de todas as suas ações componentes para poder ser uma atividade viva.

Depois a Gorda descreveu como ela espreitara a sua própria fraqueza de comer exageradamente . Disse que o Nagual sugerira que ela primeiro atacasse a parte maior desse hábito, que se ligava ao seu trabalho como lavadeira; ela comia tudo o que os fregueses lhe davam, enquanto ia de casa em casa entregando a roupa lavada . Ela esperava que o Nagual lhe dissesse o que devia fazer, mas ele apenas riu e caçoou dela , dizendo que assim que ele dizesse para ela fazer alguma coisa , ela havia de lutar para não faze-lo . Ele disse que os seres humanos são assim ; adoram que se diga o que devem fazer, mas adoram mais ainda lutar e não fazer o que se manda, e assim se confundem e detestam aquele que lhes falou em primeiro lugar.

Durante muitos anos ela não conseguiu pensar em nada para espreitar a sua fraqueza . Mas um dia ela ficou tão farta de ser gorda que se recusou a comer durante vinte e três dias. Aquele foi o ato inicial que rompeu a sua fixação . Depois ela teve a idéia de meter uma esponja na boca, para fazer os fregueses acreditarem que ela tinha um dente infeccionado e que não podia comer . O subterfúgio deu certo não apenas com os fregueses, que pararam de lhe dar comida, mas também com ela mesma, pois ela tinha a impressão de estar comendo ao mastigar a esponja . A Gorda riu ao contar que passou anos com uma esponja metida na boca, até acabar com o hábito de comer demais.

- Foi só isso que você teve que fazer para perder o hábito ? - perguntei.

- Não. Também tive que aprender a comer como uma guerreira.

- E como uma guerreira come?

- Uma guerreira come com calma e devagar e muito pouco de cada vez. Eu costumava falar enquanto comia e comia muito depressa e uma porção de comida de cada vez. O Nagual me disse que um guerreiro come quatro bocados de comida de cada vez. Um pouco depois ele come mais quatro bocados e assim por diante.

" Um guerreiro também caminha vários quilometros por dia. A minha fraqueza de comer nunca me deixava caminhar . Eu a venci comendo quatro bocados de hora em hora e caminhando.

Às vezes eu caminhava o dia inteiro e a noite inteira. Foi assim que perdi a gordura nas minhas nádegas.

Ela riu ao lembrar-se do apelido que Don Juan lhe dera ("cem bundas").

- Mas espreitar suas fraquezas não é suficiente para perde-las - disse ela. - Você pode espreita-las até o dia do juízo final e não vai alterar nada . É por isso que o Nagual não quis dizer-me o que fazer. O que o guerreiro precisa mesmo afim de ser um espreitador impecável é ter um propósito.

A Gorda contou como tinha vivido à-toa antes de conhecer o Nagual, sem nenhum objetivo. Não tinha esperanças , nem sonhos, nem desejo de nada . Porém, a oportunidade de comer sempre estava à mão para ela; por algum motivo que ela não sabia explicar, sempre houvera bastante comida para ela, desde que nascera. Tanta mesmo que que em certa ocasião ela chegou a pesar 107 quilos.

- Comer era a única coisa de que eu gostava na vida - disse a Gorda. - Além disso, eu nunca me considerava gorda . Achava que era bonitinha e que as pessoas gostavam de mim como eu era . Todos diziam que eu tinha um aspecto saudável.

"O Nagual me disse uma coisa muito estranha. Disse que eu tinha uma quantidade enorme de poder pessoal e que por causa disso eu sempre conseguia comida dos amigos, enquanto os parentes em minha casa passavem fome."

Todo mundo tem suficiente poder pessoal para alguma coisa. O problema para mim era tirar o meu poder pessoal da comida para emprega-lo no meu propósito de guerreira .

- E qual é esse propósito, Gorda ? - perguntei meio de brincadeira.

- Ingressar no outro mundo - respondeu ela com um sorriso, e fingiu bater no topo de minha cabeça com os nós dos dedos, como Don Juan fazia quando eu me estava entregando e mimando.   

O Segundo Círculo do Poder, Carlos Castaneda , pgs . 167 à 169.

 


 

A Espreita

da Espreita

 

Por Ketzal

 

Uma das maiores habilidades do ser humano é ludibriar a si mesmo.

Perceber as manobras que são efetuadas dentro de nós mesmos é um desafio.

Essas manobras que envolvem uma espécie de auto-logro ou auto-engano são possíveis devido há algo em nós que denominarei aqui de " o máscara ".

O Máscara é aquele personagem do Jim Carrey capaz de assumir n formas, n rostos, moldando-se de uma forma impressionante .  

Alguns diriam :   - Puxa, o personagem é uma espécie de espreitador . Capaz de controlar seu comportamento e assumir diferentes personalidades .  

Se assim fosse todos nós seríamos espreitadores naturais, pois dentro de cada um de nós existem múltiplas facetas, a maioria delas desconhecidas para nós mesmos. Podemos chamar de "eus"  a esta multiplicadade psicológica que nos caracteriza e uma das manobras supremas dessa multiplicidade é mascarar a si mesma .  

Contudo, a espreita é uma arte da consciência e não da inconsciência . Como no estado robótico em que nos encontramos podemos espreitar ? Reconhecer esse estado robótico controlado por uma série de reações mecânicas é o primeiro princípio da espreita .  

E pelo fato de possuirmos um corpo, uma unidade orgânica somos facilmente induzidos a crer que do ponto de vista psicológico somos um .  

Se fossemos um, de fato, seria para nós muito fácil estabelecer uma meta e cumpri-la, assumir um compromisso e honra-lo, manter um mesmo pensamento em mente por longos períodos quando se desejasse , enfim, agir dentro de um propósito determinado não seria nenhum problema .  

Mas nós não somos um, somos muitos .  

E essa multidão que há dentro de nós atua de forma totalmente desorganizada , apesar de paradoxalmente possuir uma espécie de lógica que envolve perpetuar esse estado caótico a nível interno .  

Preste atenção a si mesmo agora . Quantos pensamentos outros não passam pela sua cabeça ?  

Organizar essa multiplicidade e lhe dar unidade, fazendo com que as partes colaborem umas com as outras e assim com o todo, é desafiante e fundamental para que não sabotemos os nossos melhores anelos .  

É muito comum que ao observarmos um padrão de comportamento em nós mesmos, que percebamos apenas o que a superfície de nós revela e que por trás daquela observação inicial encontre-se num nível mais profundo algo muito mais perigoso e consumidor de nossa energia .  

Nosso amigo Thiago escreveu uma mensagem intitulada "Preguiça e Loucura Controlada" que me pôs a matutar em algumas questões .  

Percebi a preguiça em mim em algumas situações de vida . Mas percebi que a preguiça era apenas uma espécie de batedor psicológico . Havia algo por trás comandando o espetáculo . A preguiça impedia-me de fazer aquilo que devia fazer, mas apenas num nível mais superficial parecia ser preguiça, pois eu tinha energia suficiente para realizar "n" outras coisas . Mas aquela determinada tarefa eu não consigo realizar . Bate a "preguiça" . Realizar essa tarefa implica para mim libertar-me de uma série de amarras e assumir mais e mais a responsabilidade pelo meu caminho, pela direção de minha vida e por perceber-me sozinho diante de minha própria morte, de meu próprio destino .  

Percebi então, de repente, quem estava a comandar o espetáculo . A preguiça era apenas o apresentador. O medo era o diretor daquela cena . Assim, o que muitas vezes nos paralisa é algo muito mais forte que não conseguimos perceber num primeiro movimento de espreita de si . Há algo em nós a nos espreitar e que empreende manobras sofisticadas, sutis . Perceber essas manobras é espreitar a si mesmo, é tornar-se um caçador de si mesmo, é espreitar o espreitador que há em nós .

Um dos princípios da espreita é :  

Não apegar-se a si mesmo . Não temer a nada . Só então os poderes que nos guiam nos abrem caminho e nos auxiliam . Só então .  

Intento!