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Aversão ao Eros
e medo do Eros
no Cristianismo
O MEDO DO CORPO E DO AMOR NA SOCIEDADE OCIDENTAL
O outro grande fator que está por trás do medo patriarcal de Afrodite é o horror ao corpo inculcado pelo Cristianismo. Os gregos e romanos, a despeito de todas as suas preferências homossexuais, tinham um salutar amor pagão pelos corpos masculinos e femininos, como mostram suas estátuas. (Um estudo recente muito importante descreve a atitude essencialmente saudável dos gregos e romanos em face a sexualidade: Porneia: On Desire and the Body in Antiquity, de Aline Rousselle.)
Não há nenhum indício de que Jesus desprezasse as mulheres ou abominasse o sexo. Pelo contrário, ele se condoía da condição inferior das mulheres e tinha muitas seguidoras íntimas. (Para a noção radical de que Maria Madalena foi a discípula mais próxima de Jesus, recomendamos o estudo revisionista de Elaine Pagel, The Gnostic Gospels) O primeiro culpado, por consenso comum, foi São Paulo. A obsessão de Paulo era impedir a fornicação e, a seu ver, era este o principal valor do casamento. Embora achasse preferível manter-se sublimemente celibatário como ele, sempre que a carne se mostrar fraca é melhor, em suas palavras imorredouras, "casar-se do que arder" (I Coríntios 7:9) o "arder" referindo-se, é claro, à concupiscência! Paulo e aquele outro gigante espiritual e misógino, Santo Agostinho, lograram estampar o Cristianismo e o Ocidente com uma aversão ao sexo e ao corpo da qual nunca conseguimos nos recuperar plenamente. ("Vim para Cartago, onde de todos os lados fervia a sertã de criminosos amores", escreveu ele descrevendo os anos de tentação.) Na linha de Paulo e Agostinho, e numa reação piedosa aos excessos da decadência romana, centenas de homens e mulheres partiram para desertos do norte da África e em outras partes do mundo a fim de se tornarem eremitas ascetas de rigor inacreditável. (Um deles, põe exemplo, Santo Abraão, afirmava não ter se banhado por cinqüenta anos.)
No final do século III, começou-se a discutir o celibato dos padres. O debate durou quase mil anos, até que a autoridade papal resolveu-se em favor de São Paulo. Um dos principais argumentos era de que o contato sexual com uma mulher poderia profanar os santos sacramentos. Ao longo dos séculos, uma série lúgubre de equacionamentos foi se estabelecendo na mente dos cristãos: mulher = Terra = Sujeira = Sexo = Pecado. A queda do homem deveu-se a Eva, e a Igreja nunca deixou de advertir os homens de que é a mulher que irá levá-los pelo "primrose path to hell", como diziam os americanos, o caminho florido que leva ao inferno - curiosamente, Afrodite é a principal Deusa das Flores.
Fonte: A Deusa Interior, de Jennifer Barker Woolger e Roger J. Woolger