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A Elitização
da Bruxaria
Por Quíron
Se formos analizar a origem e o desenvolvimento da Magia na Europa Medieval, veremos que nisto houve basicamente dois movimentos: a Magia Cerimonial e a Magia Popular.
A Magia Cerimonial sempre foi do domínio das classes mais altas, dos nobres. Sempre usou de muito aparatos caros, tais como espadas, pantáculos feitos de metais preciosos e outros que só eram disponíveis para tem tivesse muito dinheiro. Os Magos Cerimonais também usavam muitos os seus grimórios, grandes compêndios de instruções para rituais mágicos, preservando a sua Tradição não apenas oralmente, mas também por escrito.
Por outro lado, nas classes mais baixas da Europa medieval, surgiu a Magia Popular, a Bruxaria, provinda de resquícios de diversas culturas pagãs dizimadas pela cristianização do continente e também de alguns elementos de Magia Cerimonial.
As bruxas em geral eram camponesas e, portanto, nada daquilo que era exigido na Magia Cerimonial lhes era possível. Uma camponesa não tinha dinheiro para uma espada, por exemplo. E nem o direito de ter uma, pois só os nobres podiam por lei ter uma arma dessas. Pantáculos de metais preciosos eram apenas um sonho, se concretizando muito raramente. E grimórios, então, eram impossíveis! Pois os camponeses eram iletrados e nunca poderiam escrever os seus ensinamentos em livros. Assim, na Bruxaria Tradicional não havia nenhum Livro de Sombras e nem as bruxas escreviam os seus ensinamentos secretos utilizando o alfabeto thebano ou qualquer outro. As suas tradições eram exclusivamente orais.
Portanto, a Bruxaria se desenvolveu de uma forma muito mais simples e popular do que a Magia Cerimonial. Era a Magia da "velha sábia" da aldeia, do herbalista, das rezadeiras e benzedeiras... De todos aqueles que eram desprezados pela nobreza, como incultos e ignorantes, mas que preservavam uma sabedoria fantástica.
Para a Magia dessas Bruxas se realizar, nada mais era necessário além do que elas já tinham em casa. Facas, colheres de pau, caldeirões, ervas que se plantam no jardim, pedras, conchas, galhos de árvores etc. Muitas dessas Bruxas dependiam exclusivamente de um pilão para os seus feitiços! E é justamente essa simplicidade o mais fascinante da Bruxaria...
Mas é interessante o fenômeno que se nota atualmente. Com a Wicca, fundada por Gerald Gardner, maçon, thelemita (membro de 3o Grau da O.T.O) e co-sufista honorário, a Bruxaria se fundiu a um sistema simplificado de Magia Cerimonial, provindo principalmente dos rituais da Hermetic Order of the Golden Dawn.
Nisso, as bruxas passaram a usar cada vez mais instrumentos vindos da Magia Cerimonial. Espadas, turíbulos, açoites etc. E passaram também a se utilizar de muitos procedimentos vindos da Magia Cerimonial. Por exemplo, a consagração do sal e da água dos moldes gardnerianos/alexandrinos é tão somente uma paganização da mesma consagração que se encontra nas Clavículas de Salomão, um dos mais importantes grimórios medievais. Além de que passaram a preservar os seus ensinamentos também por escritos, nos seus Livros das Sombras (uma invenção de Gardner) e às vezes chegando a escrever em caracteres "secretos" (disponíveis em sites e livros), tais como o alfabeto thebano (uma idéia de Alex Sanders).
Dessa essa união da Bruxaria com a Magia Cerimonial vemos surgir alguns eventos curiosos. Primeiramente, muitos wiccans passam a se dedicar muito mais a um ritual elaborado e requintado do que a própria Magia Natural, base de toda a Bruxaria. Chegamos ao cúmulo de ouvir de algumas "bruxas" que eles não se interessam em conhecer as ervas e nisso vão se criando as bruxas de sala-de-estar.
Em segundo lugar, vemos também que a Bruxaria, que sempre foi a religião/sistema mágico das classes mais baixas, das camponesas medievais, passou a ser praticada por classes mais altas. Atualmente, parece que a maioria dos wiccans são de classe média ou classe alta. Muitos poucos são aqueles que pertencem às classes mais baixas, pois o acesso à nossa Arte torna-se dificultado a quem não tem dinheiro para gastar com internet para acessar sites wiccans, para comprar livros e os aparatos que a Wicca precisa.
Em terceiro lugar, é notório que em geral as classes média e alta têm um grande preconceito contra as classes baixas e assim não valorizam o que quer que seja provindo delas (com excessão da música: rap, funk, pagode etc). No máximo, acham que é bom haver um esforço para melhorar o sistema educacional, a fim de dar possibilidade de as classes baixas chegarem "ao nível deles". E nisso nem se dão conta que dentro daquela simplicidade dos pobres pode haver uma grande sabedoria. Conseqüentemente, pouco valor se dá às religiões afro (que têm muito a ver com Bruxaria), às rezadeiras, benzedeiras, aos herbalistas etc... Uma pena, pois pode-se aprender demais com essa gente. A bruxas originais eram exatamente como eles.
Em conseqüência da elitização da Bruxaria com a criação da Wicca, vemos que a nossa Arte não apenas incorporou elementos de uma outra Tradição, mas também perdeu boa parte da sua essência. Essa é uma crítica muito comum entre as bruxas tradicionais em relação à Wicca e não deve ser tomada como ofensa (em geral, é como os wiccas a tomam), mas como um alerta e um guia. Afinal, quem é que sabe mais o que é a Bruxaria do que uma pessoa que herdou essa Tradição da sua própria família, que a preservou durante séculos, desde o seu surgimento na Idade Média (e não há 25.000 anos, como alguns dizem, delirando)?
A elitização que houve na Bruxaria pode ter o seu valor. A incorporação de elementos da Magia Cerimonial a enriquece muito e a torna bastante interessante e curiosa. Mas não podemos nos deixar cegar por esses elementos e abandonar e desprezar aquilo que faz parte da formação da nossa Arte. A Bruxaria sempre foi a religião/sistema mágico da gente simples, da Magia Natural, das ervas, das pedras, das rezas fortes e benzimentos. Essa Magia, muito mais poética do que a fria Magia Cerimonial, é a própria essência da Bruxaria.
Interessante que a principal colaboradora de Gardner (e co-criadora da Wicca), Doreen Valiente, parece ter percebido que a essência da Bruxaria estava sendo perdida e passou a ser um "dissidente" da tradição gardneriana, se dedicando muito mais à Magia Natural e realizando rituais mais simples (ainda que mantendo boa parte dos moldes gardnerianos/alexandrinos).
Nesse sentido, ela é um bom exemplo para os wiccans de hoje. Um exemplo que mostra que é muito possível incorporar elementos de Magia Cerimonial na nossa Arte sem que ela perca a sua essência. De poder ser de elite, mas sem elitizar a Bruxaria. Lembrando-se disso, com certeza todos os que estão começando a trilhar esta maravilhosa Arte a compreenderiam muito melhor!