Druidas - Os mestres

do Saber e da Visão

 

 

Por Maria Nazareth Alvim de Barros

 

A existência de druidas foi uma realidade no quadro da sociedade celta. Houve druidas na Gália, na Grã-Bretanha, na Irlanda. Mas, quem eram eles ? O que faziam?

Os druidas eram os muito sábios, os que viam além. Sacerdotes investidos da autoridade espiritual, mestres da Ciência Sagrada, ministros da Religião, preservadores da Tradição, enfim, intermediários entre deuses e homens, funcionando como centro da sociedade, elo em torno do qual, ela se articulava. Dotados de plenos poderes, de múltiplas capacidades, detinham o Saber universal, não aceitando as designações de padres, bruxos ou adivinhos. Pertenciam a uma classe sacerdotal organizada, dividida em três categorias: o druida encarregado de todas as ciências humanas e divinas; o vate, que exercia as mesmas funções, mas que era o único a fazer uso da escrita; o bardo que se ocupava da poesia oral e da música. Todos eram druidas, a hierarquia só existia em função da capacidade, do Saber alcançado individualmente. Qualquer um podia ser druida, bastava seguir os ensinamentos e atingir o Saber superior.

Os jovens vinham aprender entre os druidas o ensino secreto, ministrado em lugares retirados. As funções dos druidas não se limitavam às Ciências Divinas. Como intermediários entre deuses e homens, eram os depositários do direito e da justiça, responsáveis pela aplicação da lei, um fato religioso. Eram juízes, juristas, árbitros, legisladores. A noção jurídica, para os celtas, dizia respeito ao que era falso ou verdadeiro, justo ou injusto e o druida não podia errar no julgamento. Para isso fazia uso dos ordálios: o ferro em brasa, a madeira que afundava na água, o vaso que se quebrava, a coleira que estrangulava, a água encantada que envenenava diante de palavras falsas. Esses meios arcaicos de julgamento não eram jogos da sorte ou do acaso. A justiça era da competência dos deuses e o ordálio era a aplicação da justiça sem a interferência humana, excluindo todo e qualquer erro, acaso ou engano. Como encarregados do bem-estar da comunidade, do equilíbrio do corpo e da alma, exerciam também a medicina vegetal ou a mágica. Mas, o lendário celta é rico em descrições de técnicas cirúrgicas utilizadas pelos druidas e até de transplantes de órgãos. Entreoutras funções destacava-se ainda a do narrador, não menos importante que as outras. Os druidas transmitiam belas lendas, histórias maravilhosas, poemas que explicavam o mundo celta, seu pensamento, sua cultura e suas crenças. A recitação de uma história adquiria valor de cerimônia abençoada, para uma sociedade que valorizava o passado e fazia questão que as gerações posteriores o conhecessem. O mais temido inimigo, já que a morte física não amedrontava, era o esquecimento.

A realeza celta também vivia sob a proteção do sacerdócio druídico. Nas sociedades celtas, o rei eleito deixava de ser um guerreiro, mas não alcançava a função espiritual. Ele flutuava entre o poder temporal e o espiritual. Sendo assim, não sobrevivia sozinho, existia pela dependência ao sacerdócio. Dependência que só tinha sentido numa sociedade onde todos os atos políticos eram ao mesmo tempo sagrados. O druida era o único indivíduo que não estava subordinado a qualquer espécie de interdição ou limitação; ao contrário, era ele que interditava e limitava. Mas não dava ordens. Aconselhava, cabendo ao rei agir de acordo com o conselho recebido. Merlin é o retrato vivo do druida, tal qual a tradição lendária era ainda capaz de conhecer e descrever.

A doutrina ensinada pelos druidas comportava a crença na imortalidade da alma, uma afirmação de que, após a morte, todos iam para o Outro Mundo e lá continuavam uma vida semelhante à que levavam neste mundo. A imortalidade da alma postulava uma existência pós-humana, mas não era, em hipótese alguma a afirmação do retorno do homem ao nosso mundo. Acreditava-se também na função mágica da escritura que, fixando na matéria, de forma definitiva, um nome, uma encantação, uma idéia, matando o que deveria ser vivo, só deveria ser utilizada em casos especiais. Acreditava-se ainda na existência de um Outro Mundo justaposto ou paralelo ao nosso, um mundo dos deuses, sagrado, em oposição ao dos homens, com o qual a humanidade tinha o privilégio de se comunicar em determinadas ocasiões – as festas sagradas, em determinados lugares – as clareiras das florestas. O Outro Mundo nada tem a ver com o paraíso cristão. Seus habitantes viviam em eterna festa, alimentavam-se com fartura, bebiam, eram curados e amados por mulheres de extraordinária beleza.

Os druidas eram também responsáveis pelas festas religiosas. As duas mais importantes equilibravam o ano celta. Beltaine, em 1° de maio, marcava o início do verão, festa de luz, de abertura para a vida. O elemento mais importante era o fogo manipulado pelos druidas. A festa foi mantida pelo folclore e acabou se transformando na festa do Trabalho. Samain, em 1° de novembro, era a festa mais importante do calendário religioso, momento em que vivos tinham contato com mortos; deuses, com humanos. Marcava o começo do ano celta, o início da estação fria. Era inaugurada pelos druidas que se serviam do fogo, o instrumento mais poderoso. Todos os fogos da Irlanda eram apagados na véspera e só eram acesos, quando o novo ano renascia. O druida possuía função capital, porque era responsável pela fartura e a generosidade real. A festa era tão importante que a conversão ao cristianismo não foi capaz de eliminá-la. Samain não só sobreviveu, mas manteve seu simbolismo. A idéia de comunicação entre vivos e mortos, deuses e humanos encontra-se em correspondência com Todos os Santos e o dia de Finados. Os países anglo-saxões conservaram os rituais, os jogos, a fartura dos banquetes, as brincadeiras, as farsas com as comemorações do Halloween. Nos Estados Unidos, as crianças saem às ruas em busca de óbolos, simbolicamente, usam a abóbora, onde colocam olhos, nariz e boca iluminados, para representar a cabeça do morto.

A magia foi, entretanto, o verdadeiro fundamento da religião e não deve ser confundida com bruxaria de caráter popular e rudimentar, exercida por bruxos e magos, tendo por princípio básico uma ação maléfica. A magia era a arte ou ciência oculta que produzia fenômenos inexplicáveis por meio de atos, palavras ou objetos. Era exercida pelos druidas e pelas profetisas, e tinha valor religioso, porque fazia parte da Tradição. A magia vegetal foi largamente utilizada. As plantas medicinais tinham imensa importância e serviam para fabricação de chás, licores, elixires. O visco, que tudo curava, e a árvore que o sustentava, o carvalho, eram alvo de rituais e cerimônias religiosas. A madeira funcionou como suporte da ciência mágica e foi usada para a confecção de varinhas e para a arte divinatória. Para os druidas, a água, o fogo, a bruma druídica eram os principais elementos para a magia. A água doce era o elemento fundamental da criação, fecundante, curadora, purificadora. Prestava-se a rituais e tinha caráter sagrado. Os druidas tinham poderes de torná-las benéficas ou maléficas. O fogo era purificador e regenerador, agente de metamorfose e transformação. A bruma druídica, realidade visível, mas matéria impalpável, funcionava como meio de coerção e castigo. Servia para paralisar os movimentos.

Os druidas utilizavam-se de várias técnicas rituais e mágicas de encantação pela palavra. Como intermediários entre deuses e homens intervinham nos nascimentos e nas mortes. Eram imprescindíveis à boa entrada do indivíduo no mundo dos vivos; à boa passagem do morto ao Outro Mundo. Nomeavam o recém-nascido de acordo com particularidades ou acontecimentos; encarregavam-se dos funerais, erigiam a estela funerária, gravavam Ogans, escrita sagrada, faziam lamentações e elogios. A Geis era a encantação mágica que funcionava como lei absoluta, interdição e, quando transgredida, causava morte moral e física. Era pronunciada pelo druida, no momento do nascimento, ou pelas mulheres, sobre os homens amados, obrigando-os a amá-las e segui-las. Eram impostas a reis e guerreiros, mas jamais às mulheres e aos druidas. Eram a maneira que os druidas dispunham de forçar os membros da classe guerreira e real a se curvarem às regras da vida. A predição também era exercida pelos druidas e pelas profetisas, e era vista como um dom herdado dos deuses; o elogio era a poesia oficial da corte e ficava nas mãos do bardo cantar as virtudes reais, assim como censurar os inimigos do reino; a sátira era a mais temida encantação pela palavra. Poesia mágica e perigosa, porque, quando dirigida a algum membro da sociedade, causava sua morte. Visto tratar-se de uma encantação mortal, druida ou profetisa só podiam pronunciá-la, quando agindo com justiça e imparcialidade.

A instituição druídica desapareceu, mas isto não quer dizer que crenças, pensamentos, ensinamentos tenham sucumbido. O druidismo foi sendo transmitido, de geração a geração, pela beleza e persistência de suas lendas, suas epopéias, seus mitos; pela resistência da tradição oral. Se sobreviveu como fantasia, ou se faz parte do inconsciente coletivo do homem ocidental, pouco importa diante do fato indiscutível de que está em eterno ressurgimento, em constante retorno.