O Dogma da Arte

e a Lei Tríplice

 

 

Texto de Quíron

e BruxinhaDri

 

A Wicca é conhecida por ser uma religião

não-dogmática e não-doutrinária. Mas nem

por isso deixa de ter alguns princípios que a

regem. Desses princípios, dois se destacam:

o Dogma da Arte (ou Conselho Wiccano) e a

Lei Tríplice (ou Lei do Retorno Triplo).

São dois princípios muito importantes a

que o wiccan deve estar sempre atento.

 

 

 

O Dogma da Arte

 

O Dogma da Arte é muito simples. Diz somente o seguinte: "Faça o que quiser, desde que não prejudique a nada nem ninguém." Todos são livres para pensar como quiser, sentir como quiser, agir como quiser, se isso não interferir na vida de terceiros. É uma lei baseada na liberdade, na ação e no respeito. O Dogma da Arte é um dogma libertário, ao contrário da visão que normalmente temos da palavra dogma, que é um mandamento restritivo.

A primeira palavra do Dogma da Arte é "faça". Isso mostra que a atitude de um wiccan não deve ser passiva, mas ativa. Na Wicca, não há proibições e pecados. A Wicca também prega que esperemos que alguma entidade superior nos provenha do que necessitamos. Ao contrário, prega que nos esforcemos para conseguir o que queremos. A palavra-chave é "ousar".

Quando dizemos para não prejudicar a nada nem ninguém, isso inclui a si mesmo. Portanto, esse princípio não é uma desculpa para porra-louquice inconseqüente, para se afundar em drogas dizendo "ninguém nada a ver com isso" etc. Não, a primeira pessoa a quem não devemos prejudicar é a nós mesmos.

Um ponto importante a se falar sobre o Dogma da Arte é o hábito que a maioria das pessoas tem de julgar os seus semelhantes. Infelizmente, esse é um hábito disseminado por todo o mundo!! As pessoas em geral adoram dizer sobre os outros opiniões como "isso é errado", "isso é imoral", "você não deveria pensar desse modo", "que ridículo!", "como alguém pode fazer algo assim??". Ora, se todos são livres para fazer o que quiserem, por que julgá-los dessa forma?

Com isto, caímos nos padrões impostos por uma sociedade que nada acrescenta, e sim, tenta padronizar seus membros, instituindo valores a serem seguidos para sua aceitação.

Mesmo entre wiccans vemos situações como essa. Desafortunadamente, muitos dos que abraçam a Wicca como religião não o fazem de coração e sim porque se impressionam com o seu "exotismo" e a ilusão de que com ela terão poder imediato ao praticar a magia. E acabam se esquecendo dos pontos principais da religião, como o Dogma da Arte. Parece até que criam um Pseudo-Dogma da Arte Alternativo: "Faça o que quiser, desde que eu possa me meter na sua vida e te condenar."

Quem quiser agir de uma forma que pareça condenável perante a sociedade que o faça, se achar que deve. Não interferindo na vida dos outros e agindo em honestidade com os seus princípios pessoais, deve-se fazer o que quiser. Na Wicca não se age para agradar a uma Deidade superiora, mas para ser honesto consigo mesmo, sem se importar com a opinião alheia.

A honestidade em relação aos princípios pessoais é algo que tem sido pouco falado entre os wiccans em relação ao Dogma da Arte, apesar de ser da maior importância. O que significa "Faça o que quiser"? Isso não é fazer o que dá na telha de uma hora para outra, mas agir conforme os seus verdadeiros desejos, muitas vezes desconhecidos para nós mesmos. A verdade é que poucos de nós realmente possuem um bom auto-conhecimento. Por isso se faz necessário procurar conhecer mais a si mesmo, saber quais são os seus verdadeiros intentos. Caso contrário, só se faz o que a situação exige e passa-se a ser escravo das circunstâncias.

Com certeza não é esse o projeto da Wicca!!! O wiccan deve tentar se conhecer melhor para realmente pode "fazer o que quiser" e não o que as circunstâncias o obrigarem e depois ter a ilusão de que tudo aconteceu porque realmente quis.

Para isso, o método mais importante e mais usado pelos wiccans é a manutenção de um Livro de Sombras. O Livro de Sombras, como explicado melhor na seção sobre Instrumentos, é um caderno em que o wiccan anota tudo que ele aprende durante a sua jornada (rituais, feitiços, meditações etc), invocações, orações, mitos, poesia e – mais importante – as suas experiências pessoais.

Para o auto-conhecimento, é esse último aspecto do Livro das Sombras que mais importa. Sempre anote tudo o que você experienciar na Wicca. Anote sobre os seus exercícios de meditação, sobre os seus rituais, sonhos, pessoas que você conheceu, fatos importantes da sua vida (mesmo que não diretamente ligados à Wicca) etc. De tempos em tempos, vá relendo o que você escreveu. Tente procurar um padrão nas suas anotações. Analise-se sempre. Nunca relegue esse exercício. Ele é imprescindível.

Esse é o meio mais importante para o auto-conhecimento, mas há outros auxiliares que você pode querer usar. Um deles é o uso do tarot (ver a nossa seção sobre Divinação), que pode lhe proporcionar diversos insights úteis, ou algum outro oráculo divinatório, omo por exemplo baralho cigano, runas, I Ching, Varetas, Bola de Cristal, pêndulo, etc. Terapia também é útil. Todos têm problemas a resolver e talvez cada pessoa devesse fazer algum tempo de terapia durante um certo período da vida. Ler sobre mitologia, tentar procurar com quais divindades, heróis e outros seres mitológicos você se identifica também pode ser muito útil. O estudo da mitologia é realmente enriquecedor nesse sentido. A astrologia também fornece um bom método de auto-conhecimento. Saber as influências dos astros na sua personalidade facilita fazer uma auto-análise a aprender mais sobre os seus desejos internos. Isto faz com que possamos obter um "panorama geral" de nosso ser, e com isto, propicia muitas reformulações apartir daquilo que acreditamos poder ser melhorado.

Enfim, utilize-se de todos os métodos que puder para se conhecer melhor, em especial as anotações constantes (de preferência diárias) no seu Livro das Sombras. Só assim você realmente conseguirá "Fazer o que quiser, desde que não prejudique a nada nem ninguém". Acredite, os benefícios são os maiores possíveis.

Há mais uma confusão a se esclarecer sobre o Dogma da Arte. A sua leitura superficial pode dar a entender que os bruxos, quando prejudicados por terceiros, devem simplesmente aceitar o fato, mostrar a outra face e deixar tudo nas mãos dos Deuses. Não é bem por aí. Quando pessoas nos prejudicam, nós não devemos simplesmente mostrar a outra face. E também não devemos nos vingar. Na Wicca, temos outros métodos para lidar com esse tipo de situação.

O que fazemos é, por exemplo, feitiços de proteção para não sermos prejudicados. Alguns desses feitiços simplesmente neutralizam a ação dos nossos inimigos. Outros, funcionam de uma forma um pouco mais forte: se a pessoa fizer algo para nos prejudicar, tudo o que fizer não nos atingirá, mas irá refletir na vida dessa pessoa. Com isso, não a atacamos deliberadamente, mas ela receberá o troco se agir contra a gente. Se ela não atacar, nada acontecerá com ela. E assim respeitamos a segunda parte do Dogma da Arte: "desde que não prejudique a nada nem ninguém".

Nós, wiccans, não acreditamos em vingança, mas em justiça. E nós fazemos a justiça acontecer, com o auxílio dos Deuses.

 

 

A Lei Tríplice

 

Outro ponto essencial da Wicca. Essa Lei atesta que "todo ato que cometermos reverterá a nós mesmos, multiplicado por três, nesta encarnação". Assim, se cometermos um ato bom, seremos três vezes abençoados. Se cometermos um ato ruim, três vezes amaldiçoados.

A Lei Tríplice costuma ser muito mal compreendida. O principal fator dessa má-compreensão é o fato de sermos abençoados ou amaldiçoados triplamente. À princípio, não faz sentido, principalmente se formos comparar com outras religiões e correntes esotéricas, que atestam que todos recebem de volta tudo aquilo que fizeram, na mesma medida. E não há nenhum bom motivo para existir uma lei de retorno especial para bruxos e outra para o resto do mundo.

Acontece que esse aspecto da triplicidade é simbólico. Isso foi tirado da magia celta. Para os celtas, o número três era sagrado. Como uma das maiores influências da Wicca é celta, Gardner, ao fundá-la, utilizou-se da sacralidade do três para compor a Lei Tríplice. Mas essa Lei não deve ser tomada ao pé da letra e, sim, simbolicamente. O retorno para todos os nossos atos, bons ou ruins, é claro que há. Mas não realmente multiplicado por três.

Há mais duas coisas que devem ser comentadas sobre a Lei Tríplice. O primeiro é sobre o conceito de bem e mal. Como foi dito acima, somos recompensados pelos nossos atos bons e amaldiçoados pelos maus. Mas o que é um ato bom e o que é um ato mau?

A Wicca não prega nenhuma regra moral de conduta. Não diz que as pessoas queimarão no Inferno por algum motivo. Na nossa religião não há mandamentos a serem seguidos e que, se não seguirmos, ‘não iremos para o Céu". O Bem e o Mal não são definidos por duas entidades inimigas: Deus e o Diabo. Não há regras tão definidas para definí-los. O que pode parecer bom a alguém pode parecer mal a outra pessoa e quem pode julgar quem está certo? Para a Wicca, é o próprio indivíduo que julga os seus atos (como dito acima, na parte sobre o Dogma da Arte) e não uma divindade superior ou uma hierarquia religiosa (que não existe na Wicca, uma religião com pouca ou nenhuma hierarquia).

Desse modo, não definimos o "mal" por aspectos morais, que não são nunca verdades perenes, mas apenas convenções sociais aceitas pelas massas. Algo ruim é simplesmente o que desrespeita a segunda parte do Dogma da Arte: "desde que não prejudique a nada nem ninguém". O que interferir negativamente na vida de outra pessoa é punido pelo Universo. O que não interferir, não é punido. O que favorecer a vida de terceiros abençoará a vida daquele que fez o fazer. O que não favorecer, não será abençoado. Quaisquer outros atos que não interfiram na vida de ninguém não são sequer julgamos, pois não há necessidade. Todos os seres são providos de livre-arbítrio para seus atos, tendo a liberdade de optar pelos caminhos a serem enveredados. Devemos sempre respeitar as opiniões alheias e jamais interferir. Todo conselho dado deve ser mensurado de maneira que não altere o caminho da pessoa. Acreditamos que devemos ser ótimos ouvintes, oque já é uma grande ajuda, mas jamais alterar aquilo que a pessoa deseja fazer.

Portanto, não se deve por causa da Lei Tríplice "temer e obedecer aos Deuses" ou qualquer coisa parecida. Deve-se é assumir a responsabilidade pelos seus atos e as suas conseqüências. O resto... é o resto. E não importa.

O último ponto a ser esclarecido sobre a Lei Tríplice é o fato de que tudo o que nós fazemos retorna a nós nesta encarnação. Comumente, na Wicca, não se acredita em karmas de vidas passadas. O pensamento é o do aqui se fez, aqui se paga. Uma nova vida é uma nova vida e não se deve nada. Todos nascem já abençoados. O seus atos nesta encarnação é que irão definir o que se receberá em troca e não os atos de outras encarnações.

Entretanto, não são todos os wiccans que concordam com essa afirmação. Há quem acredite que em karmas de vidas passadas e que aqui pagamos (ou recebemos) pelo que fizemos em outras encarnações. Ninguém será condenado se pensar assim. Cada indivíduo é livre para resolver essa questão de acordo com o que pensa, sente, estuda etc. Liberdade de pensamento é, com certeza, um dos ícones da Wicca.

Mas isso não importa. Acredite-se nesse pensamento ou não, uma coisa é certa: não se deve ficar lamentando a sua vida e jogando a culpa em karmas de vidas passadas. O que importa é o presente e o que faremos com ele. E se passamos por dificuldades é para que nos fortaleçamos ao superá-las. Nada no Universo é imposto simplesmente "porque sim".


Ficam aqui esclarecidos, então, dois pontos essenciais da Wicca. Ninguém nunca poderá se dizer wiccan se não viver dentro dos parâmetros do Dogma da Arte e da Lei Tríplice.

Mas não fique paranóico com essas "regras" da Wicca. Quebrá-las uma vez ou outra não fará com que você queime no fogo do inferno. O Dogma da Arte e a Lei Tríplice não existem para meter medo em ninguém – são, isso sim, metas a serem alcançadas. Tenha-as sempre em mente no seu dia-a-dia. E se alguma vez pisar na bola, não se martirize demais. Apenas prometa a si mesmo que não fará mais aquilo. E viva melhor.