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O Deus Cornífero

O Deus Cornífero, Deus de toda a Bruxaria! Falar dele é muito difícil... Difícil, pois ele é um Deus paradoxal, além do mesquinho racionalismo a que estamos acostumados, e contrário a diversos dos preceitos a que fomos ensinados seguir. Complicado, pois o Cristianismo o relacionou erroneamente ao seu Diabo e essa associação perdura até hoje. Falar do Deus Cornífero é falar dos paradoxos e das más-interpretações consagradas pelos últimos dois milênios, pelo menos. Esperamos que com esse texto possamos dar uma boa introdução sobre Ele para aqueles que ainda não O conhecem.
Primeiramente, o Deus Cornífero é relacionado ao Sol, assim como a Grande Deusa é relacionada à Lua. Sendo visualizado como o Sol, Suas faces estão ligadas a ele. Embora o Cornífero tenha muito mais faces, normalmente o "dividimos" em dois aspectos, da mesma forma que a Deusa possui inúmeras faces, mas nós a "dividimos" em três. Assim, as duas faces do Deus Cornífero são de Deus do Ano Crescente (Filho das Estrelas, Rei Carvalho), correspondendo à metade mais quente do ano e de Deus do Ano Minguante (Filho da Serpente, Rei Azevinho), correspondendo à metade mais fria. Isso ocorre porque para os povos antigos, notadamente os agropecuários, haviam apenas duas estações do ano: verão (Ano Crescente) e inverno (Ano Minguante), e a elas estavam relacionados os fenomenos climáticos.
A Sua face de Deus do Ano Crescente é a sua face "luminosa", enquanto que a sua face de Deus do Ano Minguante é a sua face "trevosa". Para a Bruxaria não há conflito entre luz e sombras e esse é um dos muitos paradoxos que o Deus Cornífero apresenta, entre tantos outros. Luz e sombras são aspectos complementares um do outro e devemos sempre conhecer e vivenciar ambos. Essa é uma das mensagens mais importantes que Ele nos passa.
Como dissemos acima, os dois aspetos do Deus Cornífero são definidos pelo Ano Crescente e pelo Ano Minguante. O Ano Crescente começa em Beltane (1o de Maio no norte e 31 de Outubro no Sul) e termina em Samhaim, também chamado de Halloween (31 de Outubro no Norte e 1o de Maio no Sul). Em Samhaim, Ele morre para depois ressuscitar e dar continuidade aos ciclos naturais. E esse é mais um aspecto paradoxal que o Deus Cornífero representa: o de Deus Sacrificado.
Assim como luz e sombras são "opostos complementares", morte e vida também o são. Para que haja vida é preciso que haja morte. A roda do ano precias estar completa, seguindo seu movimento natural. Por isso o Deus Cornífero morre quando chega o inverno. Para haver toda a efervescência do verão é preciso haver calma e repouso no inverno, da mesma forma que depois de um dia inteiro se praticando esporte freneticamente precisamos de algumas horas de descanso e que depois de um dia inteiro de trabalho é preciso de oito horas de sono. A morte do Deus Cornífero é uma morte à serviço da Vida. É uma morte precedida do renascimento.
Agora vem uma nova questão: "Ok, o Deus Cornífero morre e renasce. Mas de quem ele renasce?" Essa resposta é simples: "Ele nasce da Deusa. É Ela que O concebe, assim como concebe a tudo o que existe no Universo." Mas, tão logo é feita essa pergunta, outra nos vêm à mente: "Mas, para nascer, o Deus Cornífero precisa de um pai e de uma mãe. A Sua mãe é a Deusa, isso sabemos. Mas e o Seu pai?" Essa é outra resposta muito simples, mas que costuma espantar: "O Deus Cornífero é pai dele mesmo. Ele, depois de nascer, crescer e se tornar um jovem forte, saudável e ávido por sexo e amor, engravida a Deusa, que se apresenta na sua face também jovem, saudável e ávida por sexo e amor. Então, quando Ele morre, morre tranqüilo, pois sabe que irá renascer do ventre Dela, novamente." Ele tem o poder do renascimento, a exata noçcão do momento de deixar Sua semente e qual o momento propicio para sua partida e para seu retorno.
"Pecado! Incesto!", gritarão muitos ao ler essas linhas... Como pode Ele engravidar a própria mãe e ser seu próprio pai?!? Ora, não podemos interpretar uma metáfora ao pé da letra. Dela, temos que tirar o seu sentido mais profundo. E o que significa o fato do Deus Cornífero engravidar sua própria mãe e ser seu próprio pai? Estas metáforas servem para ilustrar o poder da criação, afinal de contas, Jesus não tinha pai também, só mãe, como consta na biblia.
Significa que tudo um dia volta para o lugar de onde surgiu, que é o ventre da Deusa, de onde viemos e para onde voltaremos. O fato do Deus Cornífero morrer e renascer do mesmo lugar é como Oroboros, a serpente que morde o seu próprio rabo, representando o Infinito. "Do pó veio, ao pó voltarás." Desse modo, não se vê conflito em Ele engravidar a Deusa, se vermos a questão pelo seu lado simbólico. E o fato de Ele ser o seu próprio pai reforça a idéia de que tudo tem a mesma origem e o mesmo caráter. Não há diferença entre criador e criatura, "como é em cima, é embaixo."
No começo do texto, dissemos que falar do Deus Cornífero é falar de paradoxos. Provavelmente agora você já entendeu o porquê!!! =) Afinal, que maior paradoxo do que Ele ser Filho e Consorte da Deusa???
Após essa introdução, podemos ir adiante e detalhar melhor os diversos atributos do Deus Cornífero e daí inferir novos paradoxos...
O Deus Cornífero possui esse nome pois Ele tem chifres. Daí um dos motivos de a Igreja O ter associado ao demônio, ente no qual bruxos e bruxas não costumam acreditar ou, pelo menos, não costumam cultuar. Os chifres não são um sinal de maldade, como querem os cristãos. Antes disso, os chifres são um sinal de virilidade, de força, de vontade. Grande parte dos animais mais viris possuem chifres, como o touro. Por isso o Deus Cornífero também os tem, pois ele é o Deus das Bestas, o Deus do Bosques, o Senhor de Tudo o que é Livre e Selvagem. Ele é o Caçador, Deus conquistador, da Vontade, das Jornadas e da Liberdade.
A representação do Deus com chifres deve ter começado porque em certos povos antigos, os caçadores portavam em suas cabeças os chifres dos animais caçados anteriormente. Acreditava-se assim que o caçador adquiriria toda a força daquele animal. Além disso, as chifres que ele usava na cabeça, o ajudavam a se camuflar nos bosques, auxiliando as suas caçadas.
Mas o Deus Cornífero não é apenas um Deus dos Bosques e dos Animais. É também um Deus da Fertilidade, o Senhor da Colheita. Como o Deus Sacrificado, ele era importante para as plantações, pois representava o verão e o inverno, os fluxos climáticos da Natureza, tão importantes para os povos agrícolas.
Vemos nessas duas imagens, de Deus do Bosques e dos Animais e Senhor da Colheita, que Ele é um Deus profundamente ligado ao mundo natural. Isso é importante, pois a Bruxaria é uma religião de aspecto imanente, mais do que transcendente, e sempre vemos nossos Deuses na Natureza. E, como a Natureza nunca é estática, mas sempre viva, sempre se transformando, mudando a cada dia, o Deus Cornífero é um Deus do Movimento e da Mudança. Não à toa ele é um Deus Sacrificado. Vive para morrer; morre para viver. E mesmo enquanto vivo muda a cada instante, de acordo com a mudança das estações (veja mais sobre isso na nossa seção da Roda do Ano).
O Deus Cornífero é um Deus Sexual e um Deus do Amor. A sexualidade não é vista na Bruxaria como profana ou "do mal", mas como sagrada. A sexualidade do Deus Cornífero é cheia de poder, livre de qualquer pecado, de qualquer maldade, de qualquer cunho moralista. O Deus Cornífero representa as emoções e os sentimentos livres, distantes de quaisquer complexos moralistas ou psicológicos. Ele é o Eros, uma força de união, e é o Condutor da Dança do Êxtase. Lembrando que, embora certas correntes espiritualistas vejam o Êxtase como algo "demoníaco", tanto a Bruxaria, quando o Xamanismo e outras correntes, como algumas linhagens de Yoga e o Judaísmo Hassídico, vêem o Êxtase como um dos meios de se conectar à Divindade.
No Deus Cornífero não é encontrada oposição entre corpo e mente. Da mesma forma como Ele representa o sexo e as emoções, também representa o pensamento racional e linear. São novos opostos complementares, novos paradoxos reconciliados. Digamos que a parte sexual e emocional está ligada à sua face de Deus do Ano Minguante, enquanto que a sua parte mais racional está ligada à sua face de Deus do Ano Crescente.
Mas nem tudo é cor-de-rosa no mundo da Bruxaria... Medo, terror, sombras, pânico e selvageria são também atributos do Deus Cornífero. Ele é Pan em toda a sua selvageria e terror. É Dioníso em toda a sua sexualidade e embriagues. Ele é o trapaceiro, o enganador. Isso mostra que o mesmo que conduz à Verdade é aquele que conduz à mentira... Nada é absoluto e esse é um dos Mistérios encontrados Nele. Nem Ele nem a Deusa entregam o Ouro de mão beijada. Eles mostram o que é verdadeiro e o que não é, mas não ensinam como distinguir entre os dois. É tarefa da bruxa e do bruxo o descobrir por si só.
Agora, gostaríamos de citar um trecho do livro A Dança Cósmica das Feiticeiras, de Starhawk, que traz uma das melhores definições possíveis do Deus Cornífero e a sua relação com a Deusa:
"A Deusa é aquilo que tudo envolve, o solo do ser; o Deus é aquele que é dado à luz, a sua imagem espelhada, o seu outro pólo. Ela é a terra; ele é o grão. Ela é o céu que tudo abarca; ele é o sol, sua bola de fogo. Ela é a Roda; ele o Viajante. Dele é o sacrifício da vida pela morte, a fim de que a vida possa continuar. Ela é a mãe e Destruidora; ele é tudo que nasce e é destruído."
Para finalizar o texto, gostaríamos de refletir sobre uma das afirmações do trecho acima, sobre a relação do Deus Cornífero com a Deusa, que diz que a Ela é a terra, enquanto que o Ele é o grão. Esta imagem é interessante, pois demonstra muito bem como Ela O contém em seu seio. Demonstra também como Ele nasce Dela e Nela se desenvolve, vive e morre para Dela renascer novamente...
Disso, uma primeira interpretação que pode acontecer é a de que Ela é superior a Ele, pois, afinal a terra contém o grão e esse não teria aonde se desenvolver sem Ela. Mas algo mais deve ser lembrado. A terra sem o grão não cumpre a sua função. A terra sem o grão é como se fosse estéril, inútil. Assim, se por um lado o Deus só existe porque a Deusa O concebeu, ao mesmo tempo, se Ela não O tivesse concebido, Sua vida não faria sentido. A Deusa dá a vida ao Deus e o Deus dá sentido à Deusa, mostrando que é impossível pensar em um sem pensar em outro.
Separar o casal sagrado é praticamente matar a ambos.