Bruxaria: Algumas Considerações

 

 

No início da Idade Média, quase todas as mulheres podiam ser chamadas de bruxas, já que em seu cotidiano invocavam a Deusa com uma centena de pequenas cerimônias, assim como rituais maiores durante as festividades especiais. Martin de Braga disse que as mulheres deveriam ser condenadas por "decorar mesas, vestir galardões, fazer presságios a partir de pegadas, colocar frutas e vinho nas toras das lareiras e pão nos poços. O que seria isso se não trabalho para o demônio? As mulheres chamando por Minerva quando estão tecendo e observando o dia de Vênus para os casamentos, não estão fazendo o trabalho do diabo?" Fora da religião oficial, da qual eram deixadas de fora, as mulheres passavam sua vida privada cultivando receitas e encantamentos, maldições e bênçãos, e profetizando o futuro a partir de presságios e "sinais". O dominicano Johann Herold declarou: "Muitas mulheres crêem na fé católica cultivando encantamentos e feitiços, como sua primeira mãe, Eva, acreditaram mais na fala do demônio pela boca da serpente do que na própria fala do Senhor... Qualquer mulher sabe mais sobre superstições e encantamentos do que uma centena de homens. Até o século 15, os "Feitiços e encantamentos"  das mulheres foram, virtualmente, o único depositário de prática médica. Os homens da Igreja evitavam a medicina, determinando que todas as doenças advinham de possessão demoníaca, e a única cura permitida era o exorcismo. Os médicos feiticeiros tradicionais da Europa eram mulheres: chefas de clãs,  sacerdotisas de relicários, parteiras, freiras, etc. Na Gália e Escandinávia pré-cristã, a medicina estava inteiramente nas mãos das mulheres. Mesmo na era Cristã, as mulheres-sábias tinham um peso comparado ao médico da família atual. Paracelso disse que as bruxas o tinham ensinado tudo o que sabia sobre cura. O Dr. Lambe, o famoso demônio do Duque de Buckingham's, disse ter aprendido os segredos da medicina por ter se relacionado com feiticeiras. Em 1570 o carcereiro do Castelo de Canterbury libertou uma feiticeira condenada, justificando, com a opinião popular, que ela sozinha era melhor para tratar os doentes do que todos os e padres e exorcistas. Agrippa von Netteshelm considerava as bruxas superiores aos homens como praticantes: "Não são os filósofos, matemáticos e astrólogos inferiores às mulheres do campo em duas adivinhações e predições, e não  é uma velha enfermeira muito melhor que um jovem médico?" Os homens que aprenderam cirurgia com as bruxas podiam exercer, mas suas professoras eram perseguidas. Scot observou que um "conjurador" homem era permitido curar doenças por artes mágicas, mas uma mulher era condenada a morte pelo mesmo motivo. O povo não tinha acesso aos médicos, que estavam apenas disponíveis para os ricos. Os pobres levavam seus problemas à bruxa local. Os fazendeiros irlandeses tinham uma "médica de feira", que dispunha de encantamentos contra o olho-gordo. Na Grécia, "ambos, sacerdotes e bruxas estavam disponíveis para emergências surgidas por causa do olho-gordo. O sacerdote queimava incensos e recitava orações apropriadas. A bruxa queima incenso e recita encantamentos."Não era incomum que os encantamentos para cura das bruxas fossem preferidos aos da Igreja, já que eram idênticos na essência. Ramesey escreveu que a cura das bruxas era indistinta das "curas mágicas e ilusórias" professadas pelo clero, que incluíam santos, imagens, relíquias, água-benta, relicários, ave-marias, crucifixos, bênçãos, encantos, plantas... todas essas curas podem ser descritas mais como forças da imaginação do que qualquer virtude". Oficialmente, as mulheres proibidas de qualquer tipo de cura. Em 1322, uma mulher chamada Jacoba Felicie foi presa e processada pela faculdade de medicina da  Universidade de Paris por praticar medicina, embora os registros digam que "ela sabia da arte da cirurgia e da medicina mais do que qualquer mestre ou doutor em Paris". Scot disse que os monges-caçadores de bruxas atribuíam-lhes mais poder que Cristo, quando afirmavam que as bruxas podiam erguer alguém dos mortos, como Cristo e Lázaro, poderiam converter água em outros líquidos, como vinho e leite, e poderiam ser o passado e o futuro. Lendo os processos de feitiçaria, ele disse: "Vocês verão tais impossibilidades confessas, mas não se deve crer em nenhuma". Loher também declarou que "pecados" pelos quais as bruxas eram levadas a julgamento eram tais que "não poderiam ser confiados". Os homens da igreja, porém, viam como perfeitamente possíveis os milagres, não explicando, contudo, como um milagre era demonstrado como intervenção de um santo num caso e do demônio no outro. Por exemplo, Marie Bucaille foi queimada como bruxa, apesar de seus "milagres" serem do tipo santo: ela curava doentes, tinha visões de anjos, exibia os estigmas e realizava diversos atos que levaram outros à canonização.

Os mesmos atos foram diferentemente interpretados pelos homens da Igreja em diferentes épocas. A bruxaria era permitida na primeira metade da era Cristã. Não foi chamada de "heresia" até o século 14. Em 500 d.C., a Lei de Frank reconhecia o direito de prática às feiticeiras. Em 643, um édito declarou ilegal queimar bruxas.  Em 785, o Sínodo de Paderborn determinou que qualquer um que queimasse uma bruxa seria sentenciado à morte. Foi na França o primeiro processo declarando bruxaria um crime, em 1390. Apesar de tudo, a nobreza e o clero empregavam os serviços de bruxas. Em 1382 o Conde de Kyburg empregou uma bruxa para permanecer no seu castelo durante as batalhas e gerar uma tempestade para dispersar o exército inimigo. Essa prática baseava-se na opinião teológica de que a bruxas poderiam fazer surgir tempestades, "no mar ou terra".  A Igreja dizia que as bruxas controlavam o tempo "com a permissão de Deus". Bruxas foram convocadas para a corte por Louid d'Orleans para curar a loucura de seu irmão, após os exorcismos terem falhado (As bruxas também falharam). Guichard, Bispo de Troyes, usou o clássico boneco-com-alfinetes da feitiçaria para matar sua inimiga, a rainha Blanche de Navarre. As leis inglesas eram tolerantes com a bruxaria até o reinado de James I. Em 1371 um bruxo foi preso em  Southwark por possuir artigos mágicos: um crânio, um grimório e uma cabeça para adivinhação. Foi liberado após prometer não fazê-lo novamente. Em 1560, um período brando, oito homens confessaram conjuração e feitiçaria, e foram liberados com uma reprimenda. Somente três anos mais tarde os mesmos atos foram punidos com prisão e pena de morte. O Concílio de  Treven em 1310 tornou ilegal as conjurações, adivinhações e poções do amor. Proibições adicionais parecem mais favorecer maridos que desejavam rejeitar suas esposas, já que um homem poderia abandonar a mulher se esta fosse considerada maléfica, depois de processo legal.

A igreja distinguia entre feitiçaria, que era geralmente aceita, e bruxaria, que era uma heresia. Os livros de feitiçaria de Von Nettesheim  foram publicados sob os auspícios da Igreja, acompanhado de aprovação eclesiástica; de fato, seu instrutor em magia tinha sido John Trithemius, um abade. O que não se explica era a distinção pela qual os homens podiam praticar feitiçaria e as mulheres não. Quando a igreja descobriu que o povão não entendia a sutileza doutrinária da heresia e não ligava para os argumentos teológicos, a perseguição se estendeu partindo de princípios acessíveis à mentalidade popular, afinal a pretensão da igreja era controle das mentes. Por exemplo, na região de Bonn um verão frio em 1610 arruinou as colheitas e foi descrito como ato de Deus. Vinte anos depois, após um julgamento de bruxas na localidade, o mesmo desastre natural passou a ser culpa exclusiva das bruxas. Os clérigos alimentavam a ilusão popular de que as bruxas faziam parte de um vasto plano secreto, sob a liderança do diabo para eliminar o reino de Deus na terra. Eles criaram e enfeitaram tais conceitos e sustentavam-nos a partir de "evidências" obtidas em câmaras de tortura. A Inquisição necessitava essa ilusão para justificar o fim de grupos heréticos como os albigenesianos, waldesianos e outros, surgidos principalmente no sul da França. Eliminados, a Inquisição passou a precisar de novas vítimas. A mania de bruxas foi a solução para tal problema. A caça às bruxas não deixava de ser um bom negócio. Em 1375, por exemplo, um inquisidor francês lamentava que todos os hereges ricos já tinham sido exterminados. Os "caçadores" fizeram uma verdadeira indústria, que sustentava nobres, bispos, reis, juízes, cortes, magistrados, e outros funcionários que recebiam uma quota sobre o espólio de suas vítimas. Era hábito, inclusive, após a morte de uma vítima, haver um banquete às suas expensas para seus juizes e algozes. Por exemplo, em 1256, uma mulher chamada Taymonde Barbaira morreu antes de sua sentença ser proferida e, na palavra do inquisidor, ela lhe havia deixado suas roupas, várias vacas e alguma quantia em dinheiro.

A crença supersticiosa no "mal" da bruxaria persistiu até muito depois. O último julgamento por bruxaria ocorreu na Inglaterra em 1712.  A última queima oficial foi na Escócia, em 1727,  havendo incidentes sem envolvimento oficial em anos seguintes. Um século depois, na vila russa de Weatschewe, uma velha foi aprisionada sua cabana, posteriormente incendiada, sob acusação de ter enfeitiçado o gado. Seus assassinos foram identificados e sentenciados a uma pena eclesiástica leve. Em janeiro de 1928, uma família de agricultores húngaros matou uma velha, justificando por ser uma bruxa. A corte local os absolveu, considerando seu ato como "compulsão irresistível". A razão real para persistência da idéia de bruxaria foi que as autoridades cristãs não poderiam admitir que a palavra bíblica estava errada e que em nome dela milhares dos servos e autoridades de Deus cometeram milhares de assassinatos e torturaram milhares de pessoas sem uma causa concreta. Com o lento avanço do Século das Luzes, o ceticismo cresceu e, com ele, a descrença na bruxaria. Em 1735, as leis escocesas contra o "crime" de bruxaria foram formalmente repelidas. Quarenta anos depois, os ministros presbiterianos declararam finda sua crença em bruxaria.

 

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