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Cæsar e a
cultura Druídica
A cultura religiosa, filosófica e científica dos Druidas é comentada por Cæsar com muito respeito. "Eles teorizam e passam aos mais jovens muitas idéias a respeito das estrelas e seus movimentos, respeitando a extensão do Universo e da Terra, respeitando a natureza das coisas, respeitando o poder e a grandeza dos Deuses Imortais". É claro, nós daríamos qualquer coisa para poder compartilhar particularidades dos conhecimentos citados. Mas os Druidas, embora tenham escrito cartas e documentos, proibiam rigorosamente o livre acesso a suas doutrinas escritas; uma providência sábia: assim, eles não apenas envolviam seus conhecimentos com uma aura de mistério que agia sobre a mente humana tão poderosamente quanto qualquer encantamento, mas também asseguravam sua integridade.
Sacrifícios humanos na Gália
Entretanto, numa discórdia estranha com as anteriormente soberbas palavras de Cæsar, entram as abomináveis descrições sobre as práticas de sacrifício humano que, segundo ele, prevaleciam entre os Celtas. Prisioneiros e criminosos, ou na falta desses até mesmo vítimas inocentes - provavelmente crianças - eram envolvidos, às vezes em grupos, em pedaços enormes de uma espécie de tecido e então queimados vivos em oferenda aos Deuses, conta-nos Cæsar. A prática do sacrifício humano, é claro, não é especialidade Druídica - foi encontrada em todas as partes do Mundo, num certo estágio de cultura, e era um resquício dos povos megalíticos. O fato de os povos das áreas Célticas terem continuado a praticá-la juntamente e após um tipo diferente de civilização e cultura religiosa pode ser similar a casos ocorridos no México e Cártago. Em todos as áreas, entretanto, o sacrifício ocorria por causa do domínio e força das castas religiosas.
Sacrifícios humanos na Irlanda
A. Bertrand, em seu livro "La religion de los gaulois", separa os Druidas de tais práticas, das quais ele diz que, estranhamente, "não há traços" na Irlanda, ainda que lá, bem como em toda a área Celta, o Druidismo tinha - tem - grande força. De qualquer maneira, restam dúvidas acerca da prática de sacrifícios na Irlanda. Em um tratado muito antigo, conhecido como "Dinnsenchus" e preservado no "Book of Leinster" - um manuscrito datado do século XII -, está escrito que em Moyslaught, "o lugar da adoração", situava-se uma grande imagem de Crom Cruach - o Crescente Sangrento. Para esta imagem, os irlandeses costumavam sacrificar crianças enquanto pediam por tempos bons e fertilidade - "leite e milho: era o que pediam em troca da vida de suas crianças, tamanho era seu lamento e pavor".
Nota: o trecho acima vem do livro "The Irish mythological circle", de d'Arbois de Jubainville, página 61. O "Dinnsenchus" em questão é um tratado cristão. Nenhum indício de que tenha existido realmente algum Crom Cruach foi encontrado ainda na literatura pagã da Irlanda, nem nas escrituras de St. Patrick, e acredito que até mesmo nos tempos recentes de St. Patrick os sacrifícios humanos já eram apenas lembranças.
Sacrifícios no Egito
No Egito, onde era caráter nacional o costume de devoção e amor incondicional às deidades, possivelmente a exaltação fanática, não foi encontrado nenhum registro de ritos tão cruéis nas inscrições e pinturas monumentais, onde as informações a este respeito não eram tão freqüentes como as idéias que eles nos davam sobre todos os sistemas locais de vida e religião. [entretanto, uma representação de sacrifício humano foi descoberta posteriormente num Templo ao Sol na antiga capital etíope, Meroë. Na realidade, Manetho, o historiador egípcio que escreveu no século 3 a.C., nos diz que os sacrifícios humanos no Egito foram abolidos por Amasis I tardiamente, em 1600 a.C. Mas o silêncio completo dos outros documentos mostram-nos que, mesmo querendo acreditar em Manetho, tal prática em tais tempos eram muito raras, e talvez fossem vistas com repugnância.
Os nomes das Deidades Celtas
Quais eram os nomes e os atributos das Divindades dos Celtas? Aqui, nós adentramos realmente em terreno desconhecido. O povo megalítico não via suas divindades sob uma forma pessoal concreta. Pedras, rios, rodas, árvores e outros objetos naturais eram os símbolos adequados para eles; quando não eram vistos como símbolos e sim como formas naturais de existência, sempre tinham um símbolo a representar as forças naturais ora venerados. Mas, claro, a mente imaginativa da raça Ariana Celta não se limitava apenas com isso. A existência de Deuses com personalidades, nomes e atributos distintos nos é reportada por Cæsar, que os compara a muitas das divindades do panteão Romano - Mercúrio, Apolo, Marte e assim por diante. Lucano menciona uma tríade de Deidades, Æsus, Teutates e Taranus (Taran): "Vocês [celtas] que por derramamentos cruéis de sangue pensam acalmar o cruel Teutates, o terrível Æsus, com seus altares bárbaros, e Taranus cuja adoração não é mais gentil que a de Diana Scythia" - para quem a vida de prisioneiros era oferecida. (Lucano, Pharsalia). Convém lembrar que, por tais nomes, parece que lidamos com uma verdadeira tradição Celta ou Ariana. Sob esse ponto de vista, notamos que a palavra Æsus tem raiz ariana da palavra as, que significa "ser". Resulta daí o nome Asura-masda dos persas, Asa (Ser Divino) na Escandinávia. Teutates tem raiz celta, e significa "valente", "guerreiro"; indica uma divindade equivalente a Marte. Taranus (Thor?), de acordo com d'Arbois de Jubainville, é um Deus dos Relâmpagos. [taran, no idioma gaulês sigifica trovão] Inscrições votivas a estes deuses foram encontradas na Gália e na Bretanha, e um altar dedicado a Æsus foi encontrado em Paris. Desenhos e esculturas testemunham a existência na Gália de uma série de deidades locais menores que são apenas meros nomes - às vezes nem nomes - para nós agora. Notamos, também, claros traços de influência Romana. As esculturas são cópias rudes do estilo romano de arte religiosa. No entanto, comunemente encontramos figuras de aspecto muito confuso e estranho - deuses com face tripla, deuses com chifres em suas cabeças, serpentes com cabeças de carneiros e outros símbolos agora inteligíveis da velha fé. Notável também é a freqüente ocorrência da atitute similar à de Buda de cruzar as pernas - lótus - também presente na arte religiosa mexicana, e também a tendência, freqüentemente encontrada no Egito, de agrupar Deuses em tríades.
Cæsar e as Deidades Celtas
Cæsar, que tenta associar a
religião Celta no panteão romano de mitologia - exatamente o
que alguns Celtas que se submeteram à nova cultura fizeram,
após a invasão - diz que eles mantinham Mercúrio na posição
de "Chefe dos Deuses", e o via como o criador de todas
as artes, como a deidade que regia o comércio e como o guardião
das estradas e guia dos viajantes. Segundo Cæsar, ele ainda era,
tanto para os Celtas como para os de Roma, o Senhor dos Mortos e
dos viajantes para o Outro Mundo. Foram encontradas na Gália
muitas estátuas de bronze representando Mercúrio. Apolo foi
associado à cura e à medicina, Minerva, a deusa dos estudos e
das Artes, Júpiter governava o céu e Marte, é claro, regia a
guerra. Aqui, sem dúvida, Cæsar faz com que um número enorme
de divindades celtas seja enquadrado por representar apenas 5
deidades romanas.
O Deus do Submundo
De acordo com Cæsar, uma das mais notáveis Deidades dos Celtas era (na nomenclatura romana) Dis ou Plutão, o Deus do Submundo, não-habitado pelos mortos. Dele, todos os Galeses afirmavam descender, e por isso, diz Cæsar, eles começavam a contar o dia no crepúsculo. [Por isso, ainda há o costume entre camponeses da França de usar termos como annuit, anneue, o'né, etc - todos significando "esta noite" - no lugar de aujouurd'hui] Apesar disso, não se sabe o nome desta divindade. D'Arbois de Jubainville nos diz que, além de Æsus, Teutates, Taran e, na mitologia Irlandesa, Balor e os Formorians, ele representa também os poderes das trevas, escuridão e morte, e a mitologia Celta pode ser então interpretada como uma concepção do eterno conflito entre Dia e Noite, já que ambos são bem fortes nessa cultura.
O Deus da Luz
O Deus da Luz aparece como Lugh, ou Lugus, cujo nome deu origem a muitos nomes de lugares, tais quais Lug-dunun (Leyden), Lyons, Londinium, etc. Lugh aparece na mitologia Céltica com fortes atributos solares. Quando ele encontra seu exército antes da grande batalha com os Formorians, eles se sentem, diz a lenda, como se estivessem diante da aurora. Ele é, aina, um eus o Submundo, descendendo, do lado de sua mãe, Ethlinn, filha de Balor, dos Poderes das Trevas.
A concepção Celta da Morte
A verdade é que a concepção Celta da Morte é muito diferente da dos Gregos e dos Romanos, sendo similar à dos Egípcios. O outro mundo não era um lugar de penumbra e sofrimento, mas de Luz e Libertação. O Sol era Deus desse mundo tanto quanto aqui. Demônios, dor e escuridão lá haviam, claro, e sem dúvida, essas forças eram representadas pelos Celtas Irlandeses por seus mitos de Balor e os Formorians, como veremos mais tarde, mas a hipótese de que eles estavam particularmente associados com a idéia da morte é, em minha opinião, uma suposição falsa baseada em analogias tiradas das nações clássicas. Aqui, os Celtas seguiram os conceitos Norte-Africanos e Asiáticos, em vez dos Arianos da Europa. E apenas notando que os Celtas que conhecemos historicamente, desde o rompimento do Meio-Império Celta, formou um povo diferente dos Arianos, com características não-arianas, é que chegaremos num entendimento sobre sua contribuição para a história da e sua influência na cultura da Europa.
Cinco importantes fatores na antiga cultura Celta
Para resumir as conclusões às quais creio ter chegado: podemos, acredito eu, distinguir cinco importantes fatores na cultura religiosa e intelectual da área Celta assim que percebemos que são anteriores ao Cristianismo. Primeiro, tivemos antes de nós uma grande mostra de superstições populares e costumes mágicos, dentre eles o sacrifício humano. Variavam um pouco de lugar a lugar, pois sofriam influências e características locais, recebendo diferentes representações de poder divino ou diabólico. Em segundo lugar, certamente havia a existência de uma linha filosófica e religiosa de pensamento, que tinha como centro de adoração o Sol, tal qual emblema de poder e constância divinos, e sua doutrina central era a imortalidade da alma. Em terceiro, havia o culto a deidades personificadas, Æsus, Teutates, Lugh e muitos outros, manifestando-se através de forças da Natureza. O quarto fator importante é: os romanos impressionavam-se com a existência, entre os Druidas, do aprendizado sobre as ciências naturais e sobre a constituição do Universo, cujos detalhes conhecemos muito pouco. Por último, temos que notar o predomínio de uma organização sacerdotal que administrava todo o sistema religioso e de conhecimentos e literatura [devemos nos lembrar também que os fili, ou poetas profissionais ou bardos faziam parte da Ordem Druídica], cujos conhecimentos foram restritos a uma casta privilegiada, que, por virtude de sua supremacia intelectual e da atmosfera de religiosidade com a qual eram envoltos, tinha poder absoluto - social, político e religioso - em cada canto do domínio Celta.