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Terapia de Vidas Passadas

 

Sonhos (6)

 

 

 

 

 

Artigo 10: O problema da dinâmica usual do sono e como superá-la.

Artigo 11: Sobre os motivos de não discernirmos que estamos em sonho.

 

 

 

Artigo 10

 

O problema da dinâmica usual do sono e como superá-la

 

Autor: Cleber Monteiro Muniz

                       

 

         A dinâmica usual do sono tem a fascinação da consciência pelos pensamentos como meio de dispensar a identificação da consciência com o corpo físico.

         Essa dinâmica consiste na substituição da identificação com o corpo pela identificação com as imagens mentais. Isso ocorre porque o sono exige um esquecimento corporal para se instalar. Se estivermos identificados com o veículo físico, não dormimos e não adentramos ao reino onírico. Esse é o motivo de, por exemplo,  ficarmos meio insones quando temos dores físicas.

         Se nos mantivermos identificados com o corpo, estaremos identificados com os sentidos externos. Isso nos retém a existência psíquica no mundo exterior. A solução encontrada pela natureza foi desligar as exopercepções por meio das endopercepções em estado fascinatório, ou seja, fazer com que fiquemos identificados com os pensamentos a ponto de esquecer  corpo e mundo físicos reais. No lugar da atenção identificada com o corpo, passamos a ter a atenção identificada com as imagens mentais, que são os pensamentos. Essa é a dinâmica psíquica usual do sono, sem a qual não é possível adormecer o corpo na cama.

         É essencial para o sono a não-identicação física pois ele é o esquecimento do corpo e do mundo, um leve estado de quase-morte muito superficial e natural. Ocorre, entretanto, que esse processo de substituição de identificações apenas o instala e nos leva ao mundo onírico mas não nos fornece o discernimento de que isso ocorre.

A inexistência de identificação com o corpo é útil para a instalação do sono mas não fornece nenhum tipo de consciência. A identificação com imagens mentais, por sua vez, provoca um esquecimento de que se está em contato com cenas não-físicas e faz com que adentremos às regiões internas acreditanto estar em contato com imagens externas. O resultado disso é o sonho usual, no qual não existe a consciência de estar do outro lado da nossa vida. As imagens mentais, num estágio mais profundo do sono, se transformam em imagens oníricas e, ao contatá-las sem a compreensão desse teor, ficamos polarizados no extremo do sono: o corpo e a consciência dormem simultânea e paralelamente um ao outro.

Para se carregar a consciência para dentro do sonho é preciso algo mais do que a não-identificação com o veículo físico (embora esta seja indispensável) e o contato com as imagens internas. A elas precisamos acrescentar a consciência do caráter psíquico dessas imagens. Essa consciência é a compreensão de que as cenas não são do mundo externo e pertencem ao mundo interior.

A partir do momento em que nos deitamos, temos que ter bem clara a idéia de que dali em diante, nos próximos instantes, todas as cenas que visualizaremos serão oníricas. Se essa recordação for esquecida, cairemos no sonho usual.

A chave é conseguir uma síntese entre o despertar e o adormecer. Precisamos de um estado que contenha simultaneamente o adormecimento e o alerta, que sintetize esses dois elementos contrários. Essa combinação não é fácil e exige que se ative a consciência ao mesmo tempo em que se desative o corpo: aquela acorda e este adormece. A dificuldade está na idéia comum e muito arraigada em nossa cultura de que estar acordado é fazê-lo por meio das exopercepções. Acreditamos que estar alerta é sempre o mesmo que estar com os sentidos físicos ativos. Essa idéia é parcialmente verdadeira pois é válida apenas para o estado vígil do corpo físico. Entretanto, fora desse estado também podemos manter a lucidez.

Em situações normais, a tentativa de ficar desperto bloqueia o sono. Por isso é preciso aprender a relaxar o corpo profundamente e a entrar em contato com as imagens psíquicas sem esquecer que estamos fazendo isso.

A antecipação do sono corporal à lucidez psíquica é principal agente sabotador dos sonhos lúcidos. Identificados com a vontade de dormir, nos esquecemos de discernir e dormimos sem saber onde estamos entrando. Isso acontece principalmente quando estamos cansados e queremos rapidamente deixar o mundo externo. Nesses casos, abandonamos totalmente o alerta psíquico e nos entregamos ao sono física e psiquicamente. A consciência adormece até mesmo antes do corpo. Por isso não conseguimos sonhos lúcidos.

O ideal é anteciparmos à lucidez ao sono. Antes de deixarmos o corpo cair em relaxamento profundo, a consciência precisa ser ativada ao máximo. Isso exige cuidado especial em não se confundir alerta com sobressalto, tensão ou ansiedade. Trata-se de um alerta natural e tranquilo, sem preocupações de nenhum tipo e sem nenhum querer. Não se pode adormecer o corpo se ficarmos querendo que ele adormeça e não se pode ficar alerta se também ficarmos querendo isso. Ao querermos que isso ocorra, nos identificamos com esse desejo e fracassamos, seja por ficarmos insones, seja por dormimos em estado conscientivo usual. Esse querer é egóico e caprichoso: o ego quer controlar a prática e impor sua vontade. Os processos psíquicos não se submetem a isso e se rebelam.

Uma forma de deixar a identificação com o corpo, antecipar a lucidez ao sono, não bloquear o processo letárgico corporal e ao mesmo tempo manter o discernimento de estar em contato com imagens internas é a concentração. Por meio dela, a consciência do que se está fazendo é mantida e se acompanha todo o processo em estado de lucidez. Por isso muitas culturas, inclusive as religiosas, a usam para induzir experiências oníricas desse tipo. O objeto da concentração varia conforme a época e o lugar: mantras, orações, imagens agradáveis, cenas oníricas passadas etc. O único que interessa é ter um grande poder de concentrar o pensamento. Concentrar o pensamento é reduzir todos os pensamentos a apenas um. Isso se consegue prestando atenção em uma única imagem e excluindo as demais, esquecendo-as. Deve-se desenvolver mais e mais a imagem escolhida, sem adotar nenhum limite para isso (Jung apud Sanford, 1987, pp. 158-159). Por este meio chega-se ao sono corporal profundo sem perder a consciência. É preciso mergulhar na imagem mental escolhida, cair dentro dela sem nenhum medo e a ela entregar-se de modo total e com plena lucidez. Temos que observar o que estamos fazendo, perceber que estamos começando um sonho, que a imagem não é física etc. Temos que saber o que está acontecendo apenas por meio das constatações diretas e sem raciocinar a respeito, inclusive nos casos ou situações em que as coisas não estão claras. Combate-se a confusão com atenção lúcida e não com raciocínios. 

Um erro muito grave é confundir a concentração com um esforço egóico. Semelhante confusão promove um conflito entre um ego que quer se concentrar e muitos outros egos dentro da pessoa que não querem aquilo. Na verdadeira concentração, não há esse conflito por que o papel da consciência não é impedir que os múltiplos pensamentos ocorram mas apenas prestar atenção em único pensamento e isso é diferente. O único que precisamos fazer é focar e manter a atenção em uma imagem escolhida esquecer as demais, deixando-as à vontade em suas respectivas regiões internas para se processarem. Há uma diferença radical entre prestar a atenção em um elemento psíquico escolhido entre muitos que se movem e impedir esses muitos de se moverem. O que nos interessa é apenas uma imagem entre as milhares que se movem ininterruptamente em nossa mente. As demais devem ser esquecidas. Querer silenciá-las não é esquecê-las e lembrar delas. Com a recordação elas se nutrem mais e mais porque a recordação traz identificação.

A experiência onírica consciente resulta naturalmente da atenção cuidadosa e despreocupada.

 

Referência bibliográfica:

 

·     SANFORD, J. A. Os Parceiros Invisíveis: o masculino e o feminino dentro de cada um de nós.(The Invisible Partners). Trad. de I. F. Leal Ferreira. 5ª edição. São Paulo, Paulus, 1987.

 

 

 

Artigo 11

 

Sobre os motivos de não discernirmos que estamos em sonho

 

Autor: Cleber Monteiro Muniz

 

         Possuímos um ceticismo tão poderoso em relação à existência concreta de um mundo onírico em nosso interior que quando estamos dentro do mesmo, e disso desconfiamos, a solidez numinosa das cenas vistas nos faz crer que estamos “do lado de cá” da nossa vida.

         Temos a idéia, mais ou menos inconsciente, de que não há um mundo onírico concreto e análogo ao físico dentro de nós. Essa forma de pensar é tão arraigada que, quando alcançamos em sonho a auto-indagação sobre onde estamos, a resposta quase sempre é a mesma: “Estou no mundo físico”. Isso ocorre porque forjamos uma resposta condicionada sem o perceber ao invés de buscá-la cuidadosamente nos elementos oníricos presentes, deixando que o mundo dos sonhos nos dê a resposta.

         O fato de estarmos diante de uma concretude numinosa é considerado por nossa consciência imatura como uma prova incontestável de que o mundo em que estamos é o exterior. Isso deriva do ceticismo em relação à possibilidade do mundo dos sonhos ser, à sua maneira, verdadeiro e concreto e da concepção de que a sensação identificadora do que é não-ilusório seja exclusivamente proporcionada pelo mundo exterior. É importante frisar bem isso:  o mundo onírico é real à sua própria maneira, ou seja, enquanto um universo fantástico e imaginal dentro do homem e não à maneira do mundo físico ser real. Isso é diferente de afirmar que as ocorrências oníricas sejam parte integrante do mundo externo. Semelhante idéia seria absurda uma vez que desde o ponto de vista esclusivamente extrovertido os sonhos são realmente abstratos. Entretanto, desde o ponto de vista psíquico eles são concretos porque a psique é composta por energias e as energias não são abstratas. Elas existem e são o componente dos processos imaginais. Saiani (2000, p. 89) afirma que “a matéria e a psique são passíveis de uma interpretação energética.” Entendo que não se pode considerar o energético abstrato pois isso implicaria em desconcretização de ondas. Se levássemos essa linha de pensamento avante, teríamos que atribuir um caráter abstrato a qualquer outra forma de energia de frequência ou intensidade inacessíveis aos nosso padrões mensuratórios.  

         O fator concretude é inadequado enquanto critério diferenciador do plano da existência no qual estamos em um dado momento. Não obstante, é quase sempre usado pelo ego, equivocadamente, como critério de discernimento entre o que é físico e o que é onírico. A tentativa de reconhecimento do teor onírico/físico de uma cena percebida por via direta em geral é feita tendo-se por base a concretude da mesma: se for concreta e nítida a consideramos externa, pressupondo, mais ou menos subconscientemente, que se a cena fosse interna seria “abstrata”. Acreditamos que estar dentro de um sonho é estar envolto por névoas e imagens “virtuais”, às vezes transparentes, como se o contexto intra-onírico fosse menos que o nada...

         O equívoco desse critério consiste no fato de que o mundo onírico é tão concreto quanto o físico, apesar de suas peculiaridades no que se refere a leis e princípios que regem a lógica dos acontecimentos. Os processos oníricos não seguem a mesma lógica dos processos físicos. A matéria onírica, por exemplo, é altamente plástica e se modifica incessantemente a partir dos impulsos conscientes e inconscientes de pensamento e sentimento, fazendo com que os objetos psíquicos alterem a forma repentinamente. Mas isso não significa que tenham existência ilusória.

         As percepções internas durante o sono são tão nítidas e numinosas quanto as externas, razão pela qual a nitidez e a concretude dos objetos que circundam o ego jamais devem servir como elemento diferenciador e proporcionador do discernimento nesse campo.

         Os  elementos componentes do universo dos sonhos são energéticos. Como, durante o sono, nossa consciência é pura energia (pois ao dormir abandonamos temporariamente a existência consciente sob a forma mais densa), vibramos no mesmo nível de concretude das imagens interiores, razão pela qual elas se nos apresentam como palpáveis. A sensação de tocar objetos sólidos e sentir seu cheiro e sabor em sonhos é autêntica e

advém dessa afinidade vibracional. Nela reside a origem do impacto numinoso das endopercepções.

         Pelo motivo referido, é incoerente tomar a nitidez das percepções dos objetos oníricos e/ou sua concretude como critério diferenciador dos nossos universos paralelos, sejam eles pessoais ou transpessoais. O universo interior acessado durante o sono é tão concreto quanto este.  O que ocorre é que existem concretudes relativas: quando a consciência está em afinidade vibratória com o mundo exterior, seus objetos lhe parecem concretos; quando ela vibra em sintonia  com o mundo onírico, seus elementos lhe parecem sólidos.

         Isso se explica pelo fato de possuirmos em nossa constituição vários graus de condensação da energia: há em nós uma porção mais densa e uma mais sutil. À densa chamamos corpo físico e à sutil psique. A sutileza ou densidade o são apenas em relação ao seu oposto. O que é abstrato em um nível vibracional da consciência não o é em outro. Por isso os loucos gritam desesperadamente e os pesadelos nos aterrorizam, na hora em que acontecem. Os objetos sólidos do mundo exterior são agregações energéticas cuja intensidade centrípeta é suficiente para provocar peso e dureza. Algo similar ocorre em outros níveis de consciência com as energias psíquicas.

         A consciência que está no corpo é parte de sua constituição energética. Ela possui elasticidade e variabilidade vibracional, indo da sintonia com agregações densas de energia até a sintonia com agregações ultra-sutis, as quais são consideradas, de um ponto de vista usual  e externo, como desagregações.  Como quase todos nós, ocidentais,  somos, inconscientemente e numa certa medida, materialistas, por nos polarizarmos violentamente na extroversão, quando estamos em outra dimensão de nossa vida não acreditamos nisso. Nos acostumamos a duvidar da existência de outros mundos paralelos ao vígil. 

O ceticismo arbitrário com relação à existência de um verdadeiro mundo interior é, portanto, um dos motivos pelos quais o ego não alcança discernir que se está na dimensão desconhecida durante o sono. 

Outro motivo é a fascinação. Em nossa vida consciente, nos condicionamos a viver fascinados por todos os elementos externos e a nos esquecer de nós mesmos. Em virtude disso, a tendência de fascinar-se enraizou-se demasiadamente em nossa cultura e em natureza psíquica. Quando dormimos e nos deparamos com elementos denunciadores de que estamos sonhando, como certos acontecimentos impossíveis que desafiam a lógica tridimensional  (elefantes arborícolas, ratos que cantam heavy metal etc.), nos fascinamos pelos mesmos e nos esquecemos de observar os objetos que fazem parte da cena onírica que nos rodeia à procura de fatores de diferenciação que possam nos proporcionar de modo inequívoco o reconhecimento da dimensão em que estamos. Ao invés de observar os elementos internos mantendo a recordação de nós mesmos, sem nos fascinarmos, nos identificamos com eles. Trata-se de uma distração: ficamos distraídos com os acontecimentos interiores e nos esquecemos de discernir. 

Temos uma consciência egóica, adormecida, anestesiada e insensível para os fenômenos sutis que fazem parte de nossa constituição interna e por isso não são muitas as pessoas que alcançam um despertar intra-onírico.

 

  Referência bibliográfica:

 

·    SAIANI, Cláudio. Jung e a Educação: Uma análise da relação professor/aluno. Primeira edição. São Paulo: Escrituras, 2000.

 

 

   

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