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24-08-2002
Revista
'Nino' Vieira: A mudança traída
Fernando Jorge Pereira
Quatro anos após o golpe que depôs o regime de «Nino» Vieira (à esquerda, ladeado pelo Presidente da Gâmbia e por Ansumane Mané, durante a mediação aquando da revolta militar), a situação da Guiné pouco ou nada melhorou
LUÍS FILIPE CATARINO
NA VÉSPERA do levantamento militar de 7 de Junho de 1998, ao intervir num comício na «Chapa de Bissau», um local emblemático à entrada da capital, o ainda Presidente «Nino» Vieira declarava-se convencido de que iria continuar a dirigir o país por muitos anos. E teria reforçado a afirmação com uma expressão bem guineense: «Depois de mim, até a minha camisa vai mandar nesta terra.»
O propósito, como é sabido, não se cumpriu - e, onze meses volvidos, a rebelião liderada pelo antigo chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas, brigadeiro Ansumane Mané, acabaria por pôr fim a 18 anos de poder arbitrário de «Nino» Vieira.
Antes da sua deposição, o ex-homem-forte guineense teria igualmente vaticinado que, na sua ausência, os seus antigos companheiros de armas que o tinham traído iriam devorar-se uns aos outros. Infelizmente para a Guiné-Bissau, o presságio confirmou-se.
Os militares vitoriosos, apanhados na teia das suas contradições internas e dos múltiplos interesses em jogo, não cumpriram a promessa de dissolver, após o período de transição, a Junta Militar criada por ocasião do golpe.
Por seu lado, o Governo de transição, pressionado pela comunidade internacional a realizar eleições num país destruído e traumatizado pela guerra, não teve tempo nem condições para aplicar o seu programa.
Foi nessas condições, mas com serenidade, que 13 partidos políticos e 12 candidatos presidenciais disputaram depois as eleições que entretanto haviam sido marcadas. Mas a maioria deles estava mais interessada em apoderar-se dos parcos despojos do regime de «Nino» Vieira do que empenhada em satisfazer as expectativas de bem-estar e de justiça dos eleitores.
Kumba Ialá, o opositor de longa data, de verbo fácil, agressivo e populista, foi eleito Presidente da República. O seu partido, da Renovação Social (PRS), cujo perfil é mais o de um agrupamento de afinidades étnico-tribais, seria o vencedor das legislativas, talvez por arrasto (ou por manipulação das urnas), embora sem maioria absoluta.
O receio pela estabilidade do país, partilhado entre a autoridade moral e militar do brigadeiro Mané (entrincheirado na vizinhança do aeroporto) e a legitimidade dos poderes eleitos seria um dos motivos que levaria o Movimento Bafatá, a principal força da oposição, a integrar um Governo de coligação. Mas o casamento durou menos de um ano e foi pouco frutuoso.
O braço-de-ferro entre o Presidente Kumba Ialá e o ex-líder da Junta Militar terminaria de forma violenta, com a eliminação física do brigadeiro em Novembro de 2000 e a prisão de dezenas dos seus partidários. Os opositores políticos também seriam perseguidos, tal como os jornalistas críticos e os magistrados mais independentes.
O desempenho do regime de Kumba Ialá também é péssimo na esfera económica. Em menos de dois anos nomeou três primeiros-ministros, mas os sucessivos governos não conseguiram cumprir os indicadores macroeconómicos exigidos pelo Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional.
Assim, a Guiné-Bissau continua fora do Programa de Alívio de Dívida para que tinha sido eleita antes, e ainda não beneficia dos fundos do Programa de Luta contra a Pobreza. Tão-pouco foram regularizados os vários meses de salário em atraso na Administração Pública. A crónica penúria de energia eléctrica mantém-se. E até a carne de vaca e o peixe já quase desapareceram dos mercados da capital.
No mês passado, o mais recente relatório da União Económica e Monetária da África Ocidental, a que o país pertence desde 1997, indicava que em 2002 a Guiné não respeitou qualquer dos critérios de convergência, com excepção da taxa de inflação. E concluiu que a recente crise bancária agravou ainda mais o ambiente económico e financeiro local.
A imagem externa do país é igualmente uma lástima. Quase todas as embaixadas têm sérios problemas de tesouraria. Mais graves são as «gaffes» do Presidente da República, a mais recente das quais foi a ameaça de «arrasar a Gâmbia em três minutos». Este tipo de atitudes tornaram Kumba um hóspede indesejado em qualquer lado e contribuem para o crescente isolamento internacional da Guiné.
As tímidas melhorias introduzidas pelo primeiro-ministro Alamara Nhassé, que prepara uma visita a Portugal em finais de Setembro, são insuficientes para remover o marasmo que se instalou na sociedade guineense. E a situação explosiva existente nas Forças Armadas, divididas em pelo menos três facções, também não é de natureza a dissipar as dúvidas e acalmar os espíritos .
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