O Mundo



24-08-2002

Revista

'Nino' Vieira

Longe do poder e da pátria

Texto de José Manuel Saraiva
Fotografias de Rui Ochôa

Chegou a ter muitos amigos em Portugal. Mas, agora, decorridos mais de três anos sobre a queda do regime que construiu pela força do medo, o antigo Presidente da Guiné-Bissau está só. Nem mesmo os que no passado beneficiaram da rusticidade do seu poder o consideram. É um homem perdido. Um homem fora do tempo e do espaço próprios.

João Bernardo Vieira - o mítico guerrilheiro do PAIGC que lutou contra o Exército português nas medonhas matas da Guiné - é hoje um homem só e amargurado. Porque, mais do que a perda do poder no estrondo do golpe militar que há três anos o afastou da Presidência do país, superior, talvez, à humilhação da derrota e ao fim dos privilégios de que sempre beneficiou como Chefe de Estado é o sofrimento da «dor-da-terra» que o consome. E a «dor-da-terra», como dizia um sábio, não resulta da distância dela, mas das lembranças que cada um transporta em si e em si permanecem para sempre.

João Bernardo Vieira, mais conhecido por «comandante Nino», continua a manter em Portugal o estatuto de asilado político. Mora em Vila Nova de Gaia, numa vivenda rodeada pela velhice descuidada da ramagem dos abetos sobre o muro que a cerca, em frente ao Liceu Garcia de Orta, e de algumas árvores cujas copas se estendem sobre o telhado, como um véu de protecção ao rigor do estio.

Vista de fora, a moradia, que no passado lhe fora oferecida por um empresário português do sector da construção civil, quando a aprovação dos concursos públicos na Guiné-Bissau dependiam da sua assinatura poderosa e rudimentar, tem um aspecto quase tão sombrio e enigmático quanto a existência do próprio inquilino.

«Nino» Vieira carrega uma vida de experiências invulgares e talvez seja até o único general africano vivo - embora já sem tropas - com uma biografia de glória e de excessos.

Foi soldado raso, militar destemido e temível, comandante de guerrilha, golpista, tirano, esforçado democrata, Chefe de Estado - mas, em qualquer das frentes, solidário com os amigos e, em quase todas as circunstâncias, implacável com os inimigos.

Veio para Portugal há três anos, depois de o velho companheiro de luta, Ansumane Mané, o ter deposto através de um golpe militar que durou vários meses de morte e sofrimento. Enquanto Presidente da República, «Nino» Vieira cometeu erros imperdoáveis no processo de construção de um regime ditatorial, consentindo na liquidação de alguns dos seus mais destacados opositores.

Só depois da introdução do multipartidarismo no país com as eleições de 94 - sob a observação atenta dos representantes das Nações Unidas, CPLP, e OUA - é que o Chefe do Estado guineense corrigiu, por imposição da própria comunidade internacional, algumas linhas do seu comando.

Mas nem assim passou a ser mais amado pelos governados do que o fora até então. Apenas a diplomacia internacional, quase sempre generosa e tolerante com os déspotas, lhe legitimou o poder que, por direito constitucional decorrente da vitória nas presidenciais, soubera alcançar.

Além da inestimável ajuda logística ao respectivo processo eleitoral na Guiné-Bissau, Portugal concedeu nessa altura um discreto apoio ao candidato «Nino». Apesar das críticas feitas por alguns sectores da sociedade portuguesa e da oposição guineense, o Governo de Lisboa não se deixou impressionar e deu-o não apenas pela solidez afectiva entre os dois países que falavam (e continuam a falar) a mesma língua, mas também - e sobretudo - pela indisfarçável simpatia de João Bernardo Vieira pelos antigos colonialistas.

Aliás, fora por decisão ou influência directa dele que algumas das maiores empresas portuguesas se instalaram em Bissau; fora por decisão ou por influência directa dele que Lisboa gozou quase sempre de um estatuto de privilégio superior a qualquer outro Estado cooperante.

E como o amor com amor se paga, Portugal acabaria por retribuir a excepção, tornando-se o mais generoso de todos os países que concederam avultadas verbas para a ajuda ao desenvolvimento da Guiné-Bissau. A tamanha bondade não terá sido alheio o complexo colonialista de que Lisboa nunca se desobrigou na relação com os novos Estados africanos criados após a Revolução de Abril.

No dia 10 de Junho de 1999, o ex-Presidente guineense chegou ao Porto, abatido no orgulho mas confiante na ideia de que viria a reencontrar os velhos «amigos» portugueses de quem tantas vezes se socorreu e que tantas vezes o procuraram. Ter-se-á convencido até de que, uma vez no exílio, longe da pátria e da família, alguém o ajudasse a cumprir uma série de projectos que idealizara,designadamente na área do conhecimento.

«Gostava de aprofundar algumas noções de Economia e de Direito e de ter lições de cultura geral, em vez de passar o tempo a ler sozinho e a ver televisão.» Confessa, com uma ingenuidade impressionante, que um certo advogado de Coimbra, já lá vai muito tempo, prometera ajudá-lo nessa tarefa mas, inexplicavelmente, desapareceu.

Nos primeiros dias em Portugal, o general «Nino» não resistiu à tentação de tecer comentários públicos à situação política na Guiné-Bissau, incluindo à natureza do golpe que o depôs, mas foi imediatamente advertido pelo Palácio das Necessidades de que devia respeitar as regras do silêncio a que são obrigados os asilados políticos.

E a partir daí nunca mais falou. Só agora, decorridos pouco mais de três anos sobre a data da sua chegada a Portugal, João Bernardo Vieira aceitou, com as devidas reservas e ponderadas cautelas, confidenciar ao Expresso as angústias que lhe tornam a vida insuportável - quer pelo trauma da derrota militar, de que jamais se libertou, quer pelas saudades da terra e dos amigos que lá ficaram, quer também pela dramática consciencialização de que ao perder o poder perdeu os «amigos».

Quando se refugiou na embaixada de Portugal em Bissau, depois de terminada a guerra com o brigadeiro Ansumane Mané, «Nino» Vieira recebeu telefonemas de Jaime Gama, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, do Presidente Jorge Sampaio, do ex-Presidente Mário Soares, e de António Guterres, ex-primeiro-ministro. Em diversas ocasiões falou também - pessoalmente ou ao telefone - com Marcelo Rebelo de Sousa, Aníbal Cavaco Silva e José Manuel Durão Barroso.

Durão Barroso chegou mesmo a deslocar-se a Bissau para conversações com «Nino» e até Marcelo Rebelo de Sousa assinou um acordo de cooperação entre o PSD (quando ele era o respectivo líder) e o PAIGC. Quanto ao teor dessas conversas e à natureza do acordo, João Bernardo Vieira guarda, no entanto, segredo absoluto. «Apenas conversámos e assinámos um documento», confessa.

Por ingenuidade política, certamente, ou ignorância da vida e seus avatares, o antigo Chefe do Estado guineense não percebeu que uma vez afastado do poder perderia a influência e o respeito institucional que no passado lhe haviam dispensado.

«Escrevi cartas ao presidente da Assembleia da República, ao primeiro-ministro e ao ministro dos Negócios Estrangeiros a agradecer o acolhimento em Portugal e a manifestar-lhes o desejo de ser ouvido por eles ou por alguém da confiança deles mas, infelizmente, nunca obtive resposta.» «Nino» Vieira não acredita - ou pelo menos faz de conta - que os responsáveis políticos mencionados o não tenham querido receber. Apenas diz: «Talvez as cartas não tenham chegado ao destino...»

De todas as personalidades com quem pretendeu reunir-se, só o general Ramalho Eanes se manifestou disponível para uma conversa no Hotel Altis, durante a qual o ex-Presidente guineense lhe deu a conhecer a versão pessoal dos acontecimentos político-militares que o destronaram. «Ainda trocámos os números de telefone, mas depois disso nunca mais falámos.»

Certo dia pediu ao dirigente distrital do PS, Narciso Miranda, com quem se encontrara por interferência directa de um amigo comum, de apelido Gonçalves, que intercedesse junto da direcção do partido para uma reunião. Sem sucesso, diga-se. Nunca ninguém o recebeu e ele também não voltou a insistir no pedido.

Durante muitos anos, o antigo Chefe de Estado guineense manteve também uma saudável relação pessoal com o major Valentim Loureiro, que desempenhou - a convite e por nomeação de «Nino» Vieira - o cargo de cônsul da Guiné-Bissau em Portugal.

Mas pouco tempo depois de chegar a Vila Nova de Gaia e de se instalar com a família na vivenda que lhe fora oferecida pelo empresário Soares da Costa, o velho general foi avisado por um intermediário de Valentim Loureiro, então presidente do Boavista, de que não era aconselhável, do ponto de vista político, que ele continuasse a utilizar as instalações do clube para os seus jogos diários de ténis, como, até aí, vinha acontecendo.

E, à semelhança do que sucedeu com outros «velhos amigos», também Valentim Loureiro nunca mais o procurou. Relativamente a este assunto, «Nino» Vieira não lhe deu na altura especial importância - ou, pelo menos, diz que não lha deu - e, com a aparente serenidade com que desculpa os dirigentes do Partido Socialista que não o receberam, perdoa também a avania do responsável máximo do clube do Bessa. «Talvez não me pudesse ter lá...»

Mas não foram só os políticos e o antigo cônsul que se afastaram do ex-Presidente da República guineense. Também o empresário Manuel Macedo, que sempre apoiou o general, mesmo no período em que ele exerceu o poder com indesculpável arrogância, o abandonou. «Ainda estive com ele duas vezes, ao princípio, mas depois nunca mais o vi.» E, outra vez ainda, volta a desculpabilizar quem tantas vezes se socorreu dele. «Talvez tenha muitos afazeres...»

Por altura do Inverno de 99 - o do primeiro ano da sua estada a Portugal -, «Nino» Vieira procurou um responsável da empresa de construção civil Soares da Costa e, com a mesma ousadia com que no passado havia aceitado a oferta da casa, pediu que fossem feitas algumas obras de reparação no respectivo interior.

«Havia infiltrações de água que era preciso arranjar, mas o senhor disse-me que a empresa se encontrava em situação económico-financeira muito difícil», pelo que não podia fazer nada.

E se empresa não podia fazer nada, muito menos ele. Porque - garante - não tinha dinheiro para isso. «Foram e continuam a ser os meus amigos africanos, quase todos Chefes de Estado ou ex-Chefes de Estado, que me têm ajudado a sobreviver.»

João Bernardo Vieira queixa-se de que a imprensa portuguesa o acusou de ter construído uma enorme fortuna, enquanto Presidente da República.

«Chegaram a dizer que fiz tráfico de armas, que era o homem mais rico de África e até proprietário de um apartamento na zona da Expo, em Lisboa, mas nunca disseram onde tinha escondida a fortuna e que apartamento era esse para ir ocupá-lo.

Muito menos provaram o alegado negócio de armamento.» Uma acusação pública grave, «sem fundamento», diz ele, que o levou a apresentar uma queixa na Polícia Judiciária contra o periódico que deu a notícia. «Foi a primeira vez que pus um jornal em Tribunal.»

Revela, entretanto, que todos os bens que ele e a mulher possuíam na Guiné-Bissau - 50 hectares de terra para o cultivo de arroz e mais 37 de floresta de mangais - foram confiscados pelo novo regime. E que até o dinheiro que ambos tinham depositado no BIG (Banco de Investimento de Guiné-Bissau) desapareceu com a mesma facilidade com que a instituição foi à falência, depois da guerra.

Apenas diz ter recuperado uma parte (sem a quantificar, no entanto) da conta que tinha no Banco Totta & Açores, cuja agência fechou com a derrota militar de 99. «Fiquei praticamente sem nada.»

Confidencia que foi já a Moçambique, à Guiné-Conacri, ao Senegal, à Gâmbia e até a outros países europeus com os quais Portugal mantém relações diplomáticas (condição indispensável que consta do próprio estatuto de asilado político) mas, em qualquer caso, a convite e a expensas dos respectivos dirigentes.

E até mesmo as suas deslocações trimestrais a Paris, para se sujeitar a exames médicos de rotina obrigatória, e a Bruxelas, onde residem alguns dos seus filhos com uma tia, ex-diplomata, são sempre custeadas pelos mesmos amigos que deixou espalhados pelo continente africano.

De menor importância mas não de desmerecido significado é igualmente o facto de o antigo Chefe de Estado guineense nunca mais ter sido convidado para assistir aos jogos de futebol no estádio José de Alvalade.

Enquanto Presidente da República, «Nino» Vieira presenciou vários encontros, não só pelo facto de ser quem era (sobretudo por ser quem era), mas também pelo seu inexplicável amor clubístico ao Sporting que lhe vem do tempo da juventude.

«Desde que cheguei a Portugal só vi os desafios do Sporting pela televisão», confessa com a mesma discreta amargura com que fala de todos quantos o ignoraram e continuam de costas voltadas.

Por razões que se prendem com o seu estatuto, João Bernardo Vieira escusa-se a falar da situação política na Guiné-Bissau, embora se confesse atento e preocupado com ela.

Apenas garante, ao referir-se a um assunto que lhe diz directamente respeito, que o actual Presidente guineense, Kumba Yalá, já falou com ele por duas vezes para o informar de que iria atribuir-lhe uma pensão, conforme determina a Constituição e regulamenta o diploma segundo o qual todos os antigos Chefes de Estado têm direito ao benefício de uma reforma vitalícia.

O problema chegou a ser discutido já numa cimeira da Comunidade da Estados da África Ocidental mas, por qualquer motivo extraordinário, não teve ainda qualquer solução. E talvez até nunca venha a ter. A menos que um dia o general volte à Guiné-Bissau - como é seu desejo - e o país faça as pazes com ele e ele com o país.

«Quero regressar à Guiné-Bissau, porque tenho lá a minha mãe, quase com 90 anos, e os meus melhores amigos. Gostaria de voltar e de ser julgado por um tribunal independente.

Não perco a esperança de, mais cedo do que tarde, responder pelas acusações de que sou alvo e provar que nunca fiz mal nenhum a ninguém; que não fui eu quem deu o primeiro tiro; que nunca cometi qualquer crime; que ao longo de muitos anos corri, como poucos, enormes riscos de vida pela libertação do meu povo.»

«Nino» Vieira recorda que houve um golpe de Estado na Costa do Marfim e que o país se encontra agora em estado de graça; que Angola começou a refazer-se depois de 40 anos guerra intensa; que Moçambique fez o mesmo percurso há muito tempo. E talvez por tudo isto ele acredite - com aquela esperança que nunca morre - que a Guiné-Bissau haverá também de seguir idêntico caminho.

Mas até que isso aconteça, o velho general «Nino» continuará certamente a sofrer, no rigor dos Invernos portugueses, da lembrança do perfume da terra onde nasceu e cresceu; onde foi herói e vilão; onde, como poucos também, foi tão amado e odiado pelo próprios guineenses.

Pior no entanto que todas as ausências, incluindo a dos amigos que tem na Guiné e julgava ter em Portugal, ou mais doloroso ainda do que a derrota militar e o fim dos privilégios de que beneficiou ao longo de 20 anos de poder é o sofrimento da «dor-da-terra» que o atormenta. Dito por outras palavras, são as lembranças do país - a que um dia quer voltar para ser julgado e lá morrer - que o martirizam e o consomem.

N.W.:- O melhor será perguntar aos Guineenses residentes em Portugal o que pensam do seu ex-chefe de estado...


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