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Felipe Guerra e a série "O Massacre da Serra Elétrica"

 

 

 

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Massacres no Texas

Felipe M. Guerra

(continuação)

O grupo se apavora, pensando se o maluco poderia segui-los mas, mesmo assim, encontra a velha casa da família Hardesty, ponto de parada da viagem. Eles desconhecem que ali perto fica uma outra fazenda, praticamente escondida da civilização, onde moram o Cozinheiro (Jim Siedow), o maligno Caroneiro e o psicótico Leatherface (Gunnar Hansen), um demente assassino que usa máscaras de pele humana e diverte-se matando pessoas como se fossem gado, esquartejando-as em um pequeno matadouro montado no interior da casa, onde as vítimas são penduradas em ganchos de açougue, como meros pedaços de carne, e trucidadas com uma motosserra. A família mantém seu avô (John Dugan) em estado catatônico, meio vivo, meio morto, alimentando-o com sangue humano fresco retirado das vítimas.

Como outros filmes do período ("Halloween", por exemplo), "O Massacre da Serra Elétrica" não se entrega freneticamente a mortes sangrentas e sustos banais. Passam praticamente 50 minutos antes do primeiro dos jovens morrer, em uma cena arrepiante, chocante, que chega a pegar o espectador de surpresa, tal a brutalidade. Cabe ao jovem Kurt a "honra" de ser o primeiro abatido da história: ao checar a casa da família de canibais, ele ouve grunhidos de porco vindo do tal matadouro e, ao entrar no aposento, tropeça num degrau, sendo rápida e violentamente atingido com um golpe certeiro de marreta na cabeça, desferido por Leatherface - imitando o que faziam nos matadouros, com bois e porcos. O jovem cai e se contorce violentamente, com espasmos brutais provocados pelo golpe direto no cérebro, sendo prontamente liquidado com uma nova marretada no crânio.

Detalhando assim, parece um festival de sangue e violência, mas a verdade é que só vemos as duas marretadas na cabeça do jovem mostradas de longe, e nem uma gota do sangue arrancado pelos sucessivos golpes (algo que é mostrado da forma mais explícita e grosseira possível no posterior "O Massacre da Serra Elétrica 2", que ironicamente foi dirigido de forma herética pelo próprio Tobe Hooper!). Quando Leatherface agarra o cadáver do rapaz e puxa para dentro do matadouro, fechando rapidamente o portão de ferro, o espectador finalmente consegue soltar a respiração.

É claro que Hooper poderia ter mostrado a cabeça de Kurt arrebentada com a marretada, ou, depois, a lâmina da serra dilacerando a carne de uma vítima, mas certamente explicitar estas seqüências tiraria todo o impacto que elas têm do jeito que foram mostradas em "O Massacre da Serra Elétrica". Isso porque cabe ao espectador imaginar o tamanho do estrago de uma motosserra ou de uma marreta, imaginar o quão horrendo é morrer deste jeito, e aí sim ficar verdadeiramente assustado - ainda mais ao considerar que Leatherface e seus amigos fazem aquilo como se fosse a coisa mais normal do mundo, como se as vítimas não fossem pessoas, mas sim pedaços de carne ambulantes. E sabe-se lá há quanto tempo vem fazendo isso, pois a propriedade da família tem vários carros abandonados escondidos sob uma lona...

Mas o auge do grotesco e do sinistro o diretor guarda para o final. É quando Sally, a heroína gritalhona do filme, é amarrada a uma cadeira para participar de um sádico jantar com a insana família de canibais. Cadeiras, lustres e “enfeites” da casa são feitos com pedaços de gente. O cardápio servido, também - provavelmente pedaços dos amigos de Sally estão nos pratos, mas o diretor não se preocupa em focalizar nojeiras ou pedaços de cadáveres, e sim o rosto completamente apavorado de Marilyn Burns, com closes rápidos dos olhos apavorados, arregalados, em um medo muito melhor encenado do que o de Heather Donahue décadas depois em "A Bruxa de Blair". Marilyn parece estar realmente vivendo a cena, apavorada, à beira da insanidade com tanta crueldade e depravação... Um desempenho surpreendente, que nos faz pensar em como a mocinha se preparou para o papel - e também em porque ela não teve mais e melhores chances no cinema!

Falar mais sobre o filme é estragar a diversão que existe em saborear cada minuto deste banquete canibal. Não espere grandes doses de sangue ou efeitos de maquiagem à la Freddy Krueger. Mas prepare-se para muitos arrepios e, isso mesmo, MEDO. Uma palavra que há muito desapareceu do vocabulário dos filmes de horror e suspense. "O Massacre da Serra Elétrica" ainda se deu ao luxo de criar um sem-número de clichês que seriam aproveitados e reaproveitados à exaustão no cinema de horror durante os anos seguintes. Para começar, a trama de viajantes às voltas com uma família de canibais, que inspirou "Quadrilha de Sádicos", um obscuro (mas muito interessante) filme B chamado "Canibal" e o recente "Wrong Turn" (lançado no Brasil como "Pânico na Floresta").


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