|
|
Felipe
M. Guerra
(continuação)
Não me entendam mal: os primeiros 50 minutos deste remake de
"O Massacre da Serra Elétrica" são muito bem realizados, repletos de tensão, suspense e brutalidade,
lembrando uma versão hardcore do original. É então que o filme desanda. Sejamos
francos: qualquer pessoa com um mínimo de experiência em filmes de horror sabe
que a maior parte dos jovens vai morrer. Tobe Hooper não fez mistério e matou
quatro dos cinco personagens já nos primeiros 45 minutos do filme original,
concentrando o restante da história na fuga desesperada da única sobrevivente,
Sally.
Já o roteiro do remake trata o espectador como um imbecil. É um tal de morre-não
morre, foge-e-morre-mais-tarde que chega a ser irritante. Tipo, um personagem
que julgávamos morto reaparece vivo apenas para morrer cinco minutos depois! Um
outro que todo mundo pensava estar morto está vivo e consegue escapar... só para
ser morto outros cinco minutos depois (que saco!). E chama a atenção o fato de
que o roteirista Scott Kosar (este é seu primeiro trabalho no cinema, o que é
visível) não sabe o que fazer com seus personagens. Tipo, na primeira vez que o
xerife encontra os jovens, ele podia prender todos e levá-los logo para a casa
da família. Mas não, ele os deixa em liberdade, apenas para reaparecer mais
tarde e prender um deles - os outros ele deixa para Leatherface fazer o serviço.
Tem cabimento isso?
Pior: lá pelas tantas, recriando outro momento clássico do original, Erin escapa
de Leatherface, armado com sua motosserra, pelo meio da floresta, até chegar a
um estacionamento de trailers. Pois não é que a moça, desesperada, que viu os
amigos morrerem, sendo perseguida por um maníaco com uma máscara de pele humana
e uma serra elétrica, simplesmente senta no degrau de um dos trailers e começa a
chorar, ao invés de continuar correndo??? E nem vamos falar da forma como ela
resolve enfrentar o psicopata mais tarde, quando qualquer pessoa normal só
pensaria em fugir o mais rápido possível - a não ser que você ache coerente que
uma menina indefesa e desarmada enfrente um truculento psicopata com uma enorme
serra elétrica!
São os 40 minutos finais que afundam o filme, transformando-o em um verdadeiro
passeio no trem-fantasma, com todos os sustos falsos e seqüências
exageradas/inverossímeis que NÃO deveriam ser usadas em um filme de terror,
inclusive atos nobres (como o membro da "família" que se arrepende e ajuda os
heróis a escapar). Mas o mais apelativo é que o filme termina com uma péssima
conclusão que parece chupada diretamente de "A Bruxa de Blair" - podiam ter nos
poupado dessa -, deixando as portas escancaradas para uma possível continuação
(que, espera-se, não seja um remake da horrenda parte 2 do original).
Por sinal, novamente inventaram uma nova família para Leatherface, com outros
integrantes bem diferentes da turma dos dois primeiros filmes (nada do
Cozinheiro, do Caroneiro ou de ChopTop aqui...). Nem o clássico Vovô dá as
caras neste remake. Mudaram também o sobrenome da família de Sawyer para Hewitt,
e cometeram o deslize, pelo menos na minha concepção, de mostrar o rosto de
Leatherface por baixo da tradicional máscara de pele humana. Em uma cena
completamente dispensável (prevista no roteiro da parte 3, mas só agora
aproveitada), o psicopata tira a máscara e revela um rosto horrendo, sem nariz,
corroído por uma doença de infância. Isso tira boa parte do impacto, ainda mais
ao lembrarmos que Leatherface foi inspirado em Ed Gein. O velho Gein também
usava máscaras de pele humana, mas não era deformado, e sim uma pessoa
assustadoramente real. Ao mostrar Leatherface como um "monstro" deformado, o
diretor e o roteirista tiram aquela idéia assustadora de que por trás da máscara
poderia haver uma pessoa comum, como eu e você - o que é infinitamente mais
apavorante, se considerarmos que seu vizinho do outro lado da rua pode ser um
Leatherface!
Entre mortos e feridos, o remake de "O
Massacre da Serra Elétrica" ainda se salva
com uma boa cotação porque, se não é um filme tão memorável ou clássico quanto o
original, pelo menos vai na contramão das produções recentes. Eu jurava que os
produtores iriam amenizar boa parte da truculência do argumento original, mas
fiquei surpreso ao ver que ao invés de tornar a violência mais branda, eles
exageraram tudo ao máximo. O resultado é que a juventude de hoje, que for ver o
remake antes do original, certamente vai se decepcionar com o clássico de Tobe
Hooper, julgando que ele tem "pouca violência". Sabe como são os jovens...
Pelo menos, o remake serviu para reacender o interesse pela série original,
enterrada desde o pavoroso "Return Of The Texas Chainsaw Massacre", de 1994. Quem
sabe agora os produtores não lançam continuações mais trabalhadas, dando
prosseguimento à linha de tempo abordada neste remake? Por sinal, o filme foi o
mais caro de toda a série, custando um total de US$ 9.200.000 (o que chega a ser
uma pequena fortuna, comparando com os 140 mil dólares investidos no original).
E o retorno foi mais do que satisfatório: só na estréia nos cinemas americanos,
a refilmagem rendeu 28 milhões de dólares (mais que o triplo do que custou!). É
a força de Leatherface, que com certeza poderá ser ainda melhor explorada.
continua >>>
|
|