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Dissecando Freddy Krueger

Felipe M. Guerra


“Quando eu era criança, falava e raciocinava como criança.
Mas quando me tornei mais velho, meus pensamentos se
desenvolveram muito além dos pensamentos da minha
infância, e agora eu deixei as coisas de criança.”
(Primeira Carta aos Coríntios 13-11)
 

Sei que soa estranho iniciar um artigo sobre filmes de horror com uma citação bíblica, mas o texto acima tem tudo a ver com uma espécie de "retorno à infância" que fiz no momento em que me propus ao desafio de escrever um dossiê sobre os filmes da série "A Hora do Pesadelo", ou "Pesadelo na Rua Elm" ("Nightmare on Elm Street") para os gringos.

O artigo não foi uma idéia minha: isso partiu dos próprios leitores do conceituado site do nosso amigo Alexandre Sobrïno, que felizmente gostaram do meu [extenso e chato] artigo sobre a série "Sexta-feira 13", publicado em partes no ano passado. A pedido do próprio webmaster, resolvi assumir o desafio de escrever também sobre Freddy Krueger.

Infelizmente, minha memória lotada de "Halloween", Jason, Leatherface, Lucio Fulci, "Cannibal Holocaust", filmes classe Z e outras porcarias cinematográficas (além das tradicionais preocupações da "vida real") lembrava apenas vagamente dos famosos "A Hora do Pesadelo", que o SBT reprisou ad nauseum entre o final dos anos 80 e início dos 90. Como em casa só tenho as partes 1 e 2 em VHS como verdadeiras relíquias, tive que sair em busca dos outros filmes da série em locadoras. O quarto episódio não consegui encontrar.

Foi revendo os filmes da série que fiz o tal retorno à infância. Sentado no sofá como um rapaz de 23 anos que já fez um pouco de tudo na vida, lembrei do Felipe M. Guerra nos seus 9 ou 10 anos, se mijando de medo ao ver, pela primeira vez, "A Hora do Pesadelo 2" que o SBT exibia "pela primeira vez na televisão". Foi o primeiro filme da série que vi. Eu nem podia imaginar, na época, que o filme tinha citações homossexuais explícitas (falarei sobre isso mais tarde e parecerá extremamente lógico, acreditem!), e nem sabia o que diabos era Freddy Krueger.

Com o passar dos anos, fui conferindo os outros filmes da série, sempre fora de ordem, claro, pois dependia da boa vontade do SBT em exibi-los e das distribuidoras brasileiras em lançá-los. Vale lembrar que, nesta época, um filme raramente saía do cinema diretamente para o vídeo. Às vezes, o espectador ficava anos esperando que seus filmes preferidos finalmente saíssem em vídeo. A parte 1 de "A Hora do Pesadelo", por exemplo, só saiu em vídeo bem depois das partes 2 e 3! Tanto que na capinha vinha o aviso: "Este é o primeiro filme de Fred Krueger, o mais horripilante!".

Voltando à cronologia, depois da parte 2 eu vi a parte 1, a 3, a 5, a 4 (a única que só vi uma vez), a horrível sexta parte no cinema, com aquele tenebroso efeito de terceira dimensão no final, e, finalmente, a sétima e até agora última parte. Lá pelos 12 ou 13 anos comecei a gravar os filmes quando eles passavam na TV. Minha família só tinha antena "normal" na época - não existiam, ainda, as antenas parabólicas, muito menos a TV por assinatura. E lá vai o Felipe tentar sintonizar bem o SBT, que aqui no interior do Rio Grande do Sul parecia um enorme borrão preto na telinha da TV. Como os filmes de Freddy já eram escuros por natureza, vocês podem imaginar o pouco que eu conseguia enxergar! Ver "A Hora do Pesadelo" no SBT, na época, pelo menos na minha cidade, dependia de uma boa dose de imaginação do espectador!

Uma das boas coisas deste período foi quando a Globo resolveu exibir "A Hora do Pesadelo parte 5", pois eu não precisaria gravar do SBT - a transmissão da Globo era melhor para a minha região. Ainda hoje me lembro da satisfação de ver o filme com imagem nítida, poder enxergar Freddy e suas navalhas brilhantes. Pena que a sua voz dublada era tão fraca.

Esta foi a época de ouro de Freddy Krueger, não só para mim, mas provavelmente para todo o planeta. Não tinha para Jason Vorhees ou Michael Myers, o quente mesmo era o Freddy. Nesta época (a primeira metade da década de 90), era impossível você ir a uma banca e não encontrar revistas com histórias em quadrinhos do Freddy Krueger (sem qualquer relação com os filmes, picaretagem pura!), ou então aquelas extintas revistas-pôster (que hoje parecem estar voltando com força total), contendo reportagens fraquinhas e um enorme pôster de filme no meio. Até hoje me lembro que eu tinha as "Cinevídeo" (mais famosa que a revista SET na época) com pôsteres de "A Hora do Pesadelo" partes 4 e 7.

A idéia hoje pode parecer de jerico: quem é que iria querer ter um pôster gigante de um cara com o rosto queimado e longas navalhas nas mãos pendurado no seu quarto? Mas naqueles tempos Freddy era exatamente isso, um ídolo pop, um anti-herói que exercia um fascínio enorme na garotada, por mais incrível que isso possa parecer. Lembro até que ele apareceu algumas vezes em historinhas da Turma da Mônica (pasmem!!!).


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