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Crítica:
Halloween: Ressurreição |
Felipe Guerra
Existe uma música da finada
Legião Urbana que diz, em certo momento: "sempre mais do mesmo. Não era
isso que você queria ouvir ?". Com a devida adaptação para "sempre mais do
mesmo, não era isso que você queria ver ?" temos a mais perfeita definição
para "Halloween: Ressurreição", a oitava "aventura" do psicopata mascarado
Michael Myers no cinema.
O filme é simplesmente "mais
do mesmo": mais mortes, mais sustos (forçados ou legítimos), mais sangue,
mais vítimas, mais cenas bobas, etc, etc. Tudo exatamente idêntico ao que
a própria série e suas muitas imitações já mostraram.
Existem duas formas para
avaliar este filme. A primeira é como fã da série Halloween. E, neste
caso, a avaliação é que o filme é péssimo. Ele acaba com a mitologia da
série logo nos primeiros 15 minutos, avacalha com Michael Myers no
restante e ainda termina da forma mais patética e previsível possível. A
outra forma de avaliá-lo é como fã de horror. Neste caso, "Halloween:
Ressurreição" até que é razoável por meia dúzia de cenas e pelas
divertidas citações aos outros filmes da série... No mais,
entretanto, é fraco comparado a outras produções recentes e ganha, no
máximo (mas bem no máximo mesmo), duas estrelinhas.
Minha experiência com este
oitavo Halloween tem duas etapas. A primeira foi no início deste ano,
quando cansei de esperar o lançamento do filme no Brasil e comprei o VCD
para assistir no computador, sem legendas. Como eu ODEIO ver filmes no
computador, isso colaborou para que eu odiasse ainda mais o filme – sem
contar que, ao assistir sem legendas, você se concentra ainda mais na
forma como os atores falam, e aí percebe como os dois principais, Busta
Rhymes e Bianca Kajlich, são HORRÍVEIS, não conseguem expressar qualquer
emoção e ainda mandam suas falas todas decoradinhas ! A segunda etapa foi
registrada neste domingo, 3 de agosto, quando finalmente fui ver o filme
no cinema, em tela grande, e com legendas ! Não mudou muito (tudo o que eu
não tinha gostado no filme continuava lá! hehehehehe).
Mas é outra coisa ver o filme
com público ao redor. Você percebe, por exemplo, que a maioria não tem
muita intimidade com a série Halloween. Os conhecidos meus, na verdade,
vinham me pedir sobre o que era o filme e se iriam entender a história sem
ter visto os sete filmes anteriores. Logo os tranqüilizei: "Halloween:
Ressurreição" é tipo um "Sexta-feira 13", tem um cara mascarado que mata
todo mundo. - Ah tá... Só isso ? - É... Nos outros filmes ele perseguia a
irmã dele, mas isso tudo vocês vão ver no comecinho, que explica tudo.
Depois não tem mistério. Vocês vão entender legal... E não é bem assim ?
Nem precisei explicar nada sobre o Dr. Loomis (o saudoso Donald
Pleasence), sobre a existência de um Halloween III sem relação com os
demais, sobre a filha de Laurie Strode nas partes 4, 5 e 6, ignorada nos
últimos filmes, sobre o filho de Laurie, ignorado nesta nova seqüência...
Enfim: o novo filme se resumiu à meia dúzia de frases que eu disse aos
meus amigos. E eles REALMENTE entenderam tudo só com o que eu disse !!!
Por isso é fácil de perceber
que quem tem pouca intimidade com a série Halloween e sua mitologia
dificilmente vai odiar "Halloween: Ressurreição" mortalmente e da mesma
forma que os fãs, como eu. Para quem não conhece os outros, este é só mais
um filme de terror bem feitinho e sem complicações... Nem ao menos é
preciso tentar descobrir a identidade do assassino, pois desde o começo se
sabe quem ele é. Logo, não há nada a fazer a não ser acompanhar as
andanças pela casa dos Myers, as mortes e tentar adivinhar quem vive e
quem morre – embora não precise ser nenhum Einstein para descobrir...
Logo, é preciso conhecer um
mínimo sobre a série Halloween para gostar desta continuação muito mal
feita, mal produzida, mal escrita e sem graça, que praticamente destrói o
personagem de Michael Myers, transformando-o em mais um assassino de
adolescentes como Jason e Freddy Krueger. De qualquer forma, vou tentar
justificar meu ponto de vista ao dizer que o filme era uma m****.
Quem ainda não viu "Halloween:
Ressurreição" não deve continuar lendo esta mensagem, porque tem uma
enorme quantidade de spoilers por metro quadrado.
[SPOILERS ALERT!]
- Desde o Halloween original,
de John Carpenter, até a sétima parte (H20), Michael Myers teve um único
objetivo na "vida": realizar a chacina completa da sua família. Sua irmã
Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) era a única sobrevivente e vinha fugindo
do assassino desde a primeira parte. Quando Michael mata Laurie no início
desta oitava seqüência, teoricamente, seu objetivo dos últimos 25 anos
teria terminado. Ele podia desaparecer, voltar para o além, se
desintegrar, cair catatônico num canto ou mesmo tirar a máscara e ir tomar
uma cervejinha. Mas ele resolve voltar para sua velha casa e matar os
adolescentes que lá encontra. Esta não é uma atitude de Michael Myers
simplesmente porque Michael, nos filmes anteriores, matava apenas as
pessoas que o atrapalhavam no seu objetivo (matar a irmã). Qual a razão
específica para atacar os jovens na sua casa, ao invés de simplesmente
sair matando qualquer pessoa na rua, ou mesmo chacinar totalmente os
internos e profissionais do manicômio onde matou a irmã ???? Na minha
opinião, deveriam ter colocado os 15 minutos iniciais do filme NO FINAL DO
FILME !!! Aí até teria alguma lógica. Por que não um roteiro onde Michael
invadisse o manicômio e fosse matando todo mundo até chegar na irmã,
quando aconteceria o trágico final (a morte dela). Não estou reclamando da
morte de Laurie. Percebe-se que ela não tem mais qualquer condição
psicológica de viver fugindo (ainda mais depois de tantos filmes
hehehehe), e o final da personagem é o mais adequado, embora esta cena de
forte carga dramática, como já falei, ficasse melhor NO FINAL do filme, e
não no começo!!! Caramba, mas é um verdadeiro ANTICLÍMAX !!!!!! O filme já
começa matando a mitologia da série (Michael perseguindo a irmã), então
porque continuar ??? Imagine se, no FINAL, Laurie e Michael matassem um ao
outro, ele mata a irmã e, ao ver sua missão terminada, também se atira do
topo do prédio, morrendo ???????? E outra que a cena toda da morte de
Laurie é patética. Quer dizer, mesmo aprisionada em uma cela de manicômio,
Laurie conseguiu montar uma armadilha com um guindaste (!!!) no topo do
hospital, e ainda teve a sorte de fazer Michael pisar bem na corda (!!!!!)
para içá-lo de cabeça para baixo. OK, de qualquer jeito, Michael já estava
preso e não iria para lugar nenhum. Muita ingenuidade de Laurie
aproximar-se para tirar a máscara dele (e morrer) ao invés de chamar
ajuda, a polícia, o exército, enfim, qualquer pessoa que pudesse ajudá-la
a finalmente acabar com aquele maldito FDP! hehehehehehe. E o que acontece
? Uma das mortes mais burras da história do cinema !!!!!! Foi muita
ingenuidade da parte de Laurie acreditar que uma queda daquelas mataria
Michael, o cara que sobreviveu à explosão do hospital no final de
"Halloween 2" (testemunhada pela própria Laurie !). Ela teria mais
sucesso, provavelmente, se tivesse esfaqueado o irmãozinho várias vezes na
cabeça, ou mesmo tentado decapitá-lo... Enfim, todo o interesse do filme
se esgota nestes 15 minutos iniciais.
- Depois, tudo que temos é a
tradicional galeria de personagens bobalhões. Em filme de terror todo
mundo é burro que nem uma porta, mas neste filme chega a ser exagerado...
As reações dos personagens (subir escadas quando fogem do assassino,
correr para o telhado, tentar sair no braço com um cara que é praticamente
imortal, etc, etc são extremamente ridículas. E não há qualquer
desenvolvimento dos próprios personagens. Veja que ridícula e insossa é a
relação da mocinha principal com o garoto com quem ela se corresponde pela
Internet... Eles passam o filme se relacionando via rede (achei este
detalhe simplesmente ridículo) e no final nem ao menos se encontram ! E os
outros rapazes e moças do filme estão lá apenas para morrer, o roteiro nem
desenvolve estes personagens...
Outra: em nenhum momento nós
realmente acreditamos que os personagens de Bianca, a loirinha amiga dela
e o rapaz negro cozinheiro são amigos, tão mal-enfocada que é a relação
entre eles...
- Importante: o roteiro é
muito idiota. Não que os capítulos anteriores fossem pérolas de
criatividade, mas enfim... Analisem: Michael atacando um grupo de jovens
que realiza um reality show em sua casa ? Sinceramente, que idéia
bem fraca e sem propósito. Primeiro: por que Michael voltaria para sua
casa em ruínas depois de matar a irmã, se seu trabalho estava "encerrado"
??? Não seria mais prático sair pelas ruas matando quem viesse pela frente
??????????????? E percebam outro detalhe: Michael estava morando na velha
casa há algum tempo, detalhe revelado quando uma mocinha encontra os
restos de jantar do assassino (rato). Realmente, uma figura discretíssima
como ele, com seu jeito de andar comum e sua máscara normalíssima, não
chamaria a atenção ao entrar e sair da velha casa... hehehehehe
- Besteira suprema: Busta
Rhymes. Quem colocou esse cara no filme merece ser trucidado por Michael
Myers. Vendo o filme sem legendas (como eu, que vi em DivX), você percebe
como o cara é mau ator. Ele fala todas as frases decoradas. Não tem
carisma e ainda tenta passar aquela imagem de machão marginal dos
rappers. A cena em que ele está vendo um filme de artes marciais,
falando sozinho, é ridícula. Quando ele sai no braço com Michael Myers,
então, chega a ser patético. Ainda mais quando ele chama o assassino de
FDP, naquela linguagem própria dos rappers. Lamentável. E é bom nem
falar da cena em que Busta, vestido como Michael, encontra o verdadeiro
assassino e passa uma carraspana nele. Por muito menos, outros panacas
foram trucidados por Michael Myers. Mas o que o assassino faz ???? Baixa a
cabeça e vai embora !!!!!!!!!!!! ARGHHHHHHHHH !!!!!!!!!!!!! Não consigo
entender como é que alguém foi pensar que o personagem de Freddie (Busta)
é a melhor coisa de "Halloween: Ressurreição", ao ponto de deixarem o cara
sobreviver ao invés de matá-lo, como estava originalmente programado no
roteiro... Por mim ele deveria ter sido um dos primeiros a morrer...
- Apesar de nunca morrer,
Michael Myers sempre foi retratado como um ser humano normal. Em
"Ressurreição" ele é um verdadeiro mágico, como o Jason: onde já se viu o
assassino aparecer e desaparecer por toda parte, como acontece neste filme
???? É só um personagem entrar num canto escuro para Michael aparecer -
mesmo que segundos antes ele estivesse escondido do outro lado da casa. A
pior cena é quando o rapaz interpretado por Thomas Ian Nicholas se olha no
espelho e Michael salta de trás do espelho para esfaqueá-lo !!!!!! Como a
casa dos Myers tem uma passagem secreta por trás do espelho
???????????????? E como Michael sabia que justamente naquele momento
haveria alguém aí se olhando ??????
- Furo número 5.000 (este o
Alexandre citou também): segurança. Quer dizer, os caras fazem um
reality show transmitido para milhares de pessoas via Internet e não
colocam nem ao menos seguranças ou policiais guardando entradas e saídas
da casa, para o caso de qualquer eventualidade. Outra: repare como não tem
ninguém tentando assistir do lado de fora da casa, como acontece nos Big
Brothers da vida... Eta programinha mais chinfrim, hein ??? E olhe que a
casa de Michael Myers deveria ter relativa fama na pequena cidadezinha de
Haddonfield para atrair pelo menos uma pequena multidão para lá, ainda
mais em noite de Halloween.
- Noção de Internet: o diretor
e o roteirista perderam uma bela chance de mostrar como a Internet poderia
levar os crimes de Michael Myers para tudo e todos. Mas o filme se limita
a mostrar aquele grupo de jovens na festinha (Deckard entre eles)
assistindo ao programa, ao invés de mostrar mais gente, até de outros
lugares do mundo. Já pensou um brasileiro, indiano ou africano assistindo
enquanto Michael trucida alguém ? Seria até um detalhe de humor negro... E
tem mais: será que ninguém que estava vendo a transmissão pela Internet
pensou em chamar a polícia ou ir pessoalmente ajudar os jovens presos na
casa, ao perceberem o que realmente estava acontecendo ???? Do jeito que
está, parece que ninguém estava vendo o programa via Internet, quando este
aspecto poderia ter sido bem melhor explorado. Tem mais gente entrando no
www.myers.cjb.net do que vendo o reality show na casa dos Myers
!!!!!! (e isso que no começo do filme Busta Rhymes dá uma entrevista à
imprensa como se fosse um verdadeiro superstar... mas é só trancarem as
portas que todo mundo some da frente da casa !!!!)
- Forçando a barra: aquela
cena em que a mocinha com carinha de anjo está escondida na casa de
ferramentas e de repente salta com uma motosserra ligada para cortar
Michael é um prodígio. Primeiro que a serra liga automaticamente e sem
fazer barulho (quando ela salta sobre o assassino, o troço já está
ligado). Segundo: uma mocinha de 20 anos tem sangue frio para tentar
cortar alguém como uma motosserra ???? Terceiro: uma mocinha de 20 anos
sequer sabe ligar uma motosserra ????????? Eu já liguei e garanto: não é
tão fácil ! Quarto: a serra estava lá abandonada e funcionava normalmente
??????
- O final: não bastasse a
morte de Michael ser a mais ridícula de todos os filmes (ele já sobreviveu
a um incêndio onde quase foi reduzido à cinzas, na parte 2; logo, não
escaparia de um "simples" choque elétrico ?????), ainda tem aquele susto
fajuto no final. Será que alguém na platéia NÃO imaginou que ele iria
voltar à vida no necrotério ???? O melhor final era o que inicialmente
estava previsto no roteiro: a polícia chegava e Michael Myers se misturava
a vários jovens vestidos como ele para comemorar o Halloween !
- Resumindo, na minha opinião,
o filme tem MUITO MAIS ERROS QUE ACERTOS !!!! É um verdadeiro desperdício,
o que mais me deixa indignado é ter esperado tanto tempo para ver uma
porcaria dessas... Claro que ver o velho Michael Myers em ação sempre é
legal, mas ele merecia coisa melhor, não acham ??? Eu sei que ninguém pode
esperar Shakespeare em um oitavo filme da franquia Halloween, mas custava
tentar criar um roteiro um pouquinho menos óbvio e sem tantos furos ??? Se
bem que a Dimension Films conseguiu o que queria: desagradou àquela meia
dúzia de fãs antigos, como eu, mas conquistou uma cambada de novos fãs,
esta garotada que quer ver sangue, tripas e ação, e que jamais resistiria
a ver, por exemplo, o primeiro "Halloween", onde a primeira morte acontece
somente depois de 50 minutos de filme. Podem falar o que quiserem, mas
para mim, como fã da série, "Halloween: Ressurreição" é nota 1, e olhe lá.
Só não dou zero porque o filme tem uma cena legal, aquela do maluco no
hospício que encontra Michael e começa a enumerar os assassinatos dele,
além de algumas citações curiosas aos demais filmes da série.
Por exemplo, Bianca escorrega
na poça formada pelo sangue de uma vítima, como acontece com Jimmy em
"Halloween II". Laurie também engana Michael no hospício como fez em
"Halloween II", colocando travesseiros por baixos dos lençóis para o
irmãozinho pensar que é ela dormindo... O professor falando na cena da
faculdade é o diretor Rick Rosenthal (que também dirigiu "Halloween II"),
e seu nome é Dr. Mixter (mesmo nome do médico que atende Laurie no mesmo
"Halloween II" !!!!!). Rudy é "pregado" na porta com um facão como o
namoradinho de Lynda em "Halloween". E Jim tem sua cabeça esmagada pelo
psicopata, como o rapaz que namora Rachel em "Halloween 4" ! O resto é
puro lixo. E eu continuo não recomendando "Halloween: Ressurreição" aos
fãs da série.
Quem topa qualquer coisa, com
certeza, pode conferir e, quem sabe, até gostar. Do jeito que está, na
minha opinião, é uma continuação tão apressada e descuidada quanto
"Halloween 5". Se for analisar bem, nenhuma das duas traz qualquer
novidade à série. Todas as outras trazem novas informações ou surpresas –
mesmo "Halloween 6" tem toda aquela história do homem de preto e do mito
de Thorn, e até H20 coloca o filho de Laurie Strode na história como um
novo elemento para a sanha assassina de Michael Myers.
Em tempo: dá dó perceber que o
trabalho de Rick Rosenthal na criação do suspense tenha decaído tanto em
20 anos, entre "Halloween II" (que o Alexandre nem gosta tanto) e esta
péssima continuação. Por favor, por favor, por favor, por favor: NÃO FAÇAM
HALLOWEEN 9 !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
(*)
Felipe Guerra (Carlos Barbosa / RS) é autor dos dossiês "Jason
já foi para o inferno" e "Dissecando Freddy"
e deu nota 1
ao filme "Halloween: Ressurreição".
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